Outro clássico da literatura infanto-juvenil inglesa que anda meio esquecido. Em minha opinião, é compreensível que assim seja, já que não é assim um livro tão brilhante, embora tenha lá o seu apelo.
Trata-se de um conto de fadas, segundo o próprio autor, sobre um menino pobre, limpador de chaminés, que um dia é confundido com um ladrão e perseguido por isso. Fugindo, ele termina afogado num rio. Contudo, ele não morre, mas torna-se um "Water Baby", um bebê d'água, e inicia uma aventura em águas desconhecidas e fantásticas.
A narração inicial é envolvente, e logo nos identificamos com o pobre Tom, oprimido pelo seu mestre e incompreendido pela comunidade. É quando ele finalmente se transforma num ser aquático que a narrativa fica um tanto mais difícil de acompanhar, perdida em descrições do mundo fantástico no qual de repente Tom tornou-se parte, e por um bom tempo no miolo do livro, fiquei sem saber qual era, afinal, o fio da história. É no terço final do livro que o fio reaparece mais explicitamente, e a leitura torna-se novamente interessante.
Ao que parece (é o que se lê por aí), o livro é uma sátira favorável à teoria da evolução de Darwin, pois Kingsley era amigo pessoal do famoso biólogo, e defensor de suas ideias. A meu ver, porém, esta não foi a característica mais marcante do livro. Há referências, é claro, mas eu não saberia explicar como esta história afinal é apenas uma propaganda da hipótese da evolução das espécies.
O livro, para mim, é mais claramente uma alegoria sobre o Batismo cristão. Kingsley era um sacerdote anglicano, e é muito mais explícita a sua intenção de "catequese" e de ensinamento moral, do que suas intenções acerca da popularização de uma teoria científica. Talvez o seu favorecimento da teoria de Darwin fique mais claro justamente à luz de suas ideias cristãs sobre o Batismo: afinal, o ser humano só se torna pleno se nasce da água, Origem comum das Espécies. Quem sabe, sabe: Tom "morre", e "renasce" da água, limpinho, em forma de bebê. Quem não sabe, procure a conversa de Jesus com o fariseu Nicodemus no Evangelho de São João.
Obviamente, já que é uma característica de qualquer literatura infanto-juvenil mais clássica, há aqui um teor moral e educativo, baseado principalmente na "Golden Rule" em suas duas versões: Não faça aos outros aquilo que não queres que seja feito a ti mesmo, e Faça aos outros aquilo que tu queres que seja feito a ti mesmo. Essas duas regras são personificadas na figura de duas fadas irmãs. Entretanto, há um segredo interessante sobre essas personagens que depois é revelado, e não quero dar spoilers já que imagino que pouca gente leu este livro.
Para o meu gosto, é um livro que passa longe de ser perfeito: há muita divagação na narrativa, os comentários do autor são um bocado aborrecidos, e a alegoria é literal demais (sério que as duas irmãs se chamam Bedonebyasyoudid e Doasyouwouldbedoneby??). Mas é uma reflexão interessante acerca do Batismo, para quem quer compreender melhor a imaginação cristã.