Bom, para começar, é um livro bem rápido de ler. Tipo, muito rápido. Você consegue ler ele em menos de 20 minutos. O que é uma vantagem se você não tem muito tempo.
Sobre os poemas, tenho várias considerações. Donizete fala bastante sobre a cidade, o urbano. Ele fala sobre cones de trânsito, São Paulo, caçambas de lixo, o guindaste, os trabalhadores invisíveis perante a sociedade. Esses poemas foram os meus favoritos.
Agora teve um poema em específico que me deixou intrigada, "O Mijão". Sim, esse é o nome do poema. No poema, o eu lírico sai para beber, é expulso do bar depois de muito tarde, sai bêbado pelas ruas e faz xixi atrás da caçamba e entulho. No poema, ele diz que "Mijei quente, grosso e demorado. E me deu vontade de mijar nos monumentos, nos prédios neoclássicos, nos shoppings e avenidas. Como a demarcar um território nesta cidade onde eu possa beber e mijar quando queira".
A masculinidade em sua mais pura forma. Um poema feito por um homem, PARA homens.
Eu, que sempre acreditei que tudo por ser arte, me perguntei, "Como que isso pode ser um poema? E pior, ser aplaudido por isso?"
No Posfácio, é explicado que esse poema foi inspirado na obra de Duchamp, que pasmem, há boatos de que na verdade foi feita por uma mulher. Mas mesmo com esse explicação, continuei intrigada.
A primeira coisa que pensei ao ler foi "Se fosse uma mulher escrevendo isso, ela seria doida, ou pior, nunca seria lida". Porque infelizmente vivemos em uma sociedade que para uma mulher ter reconhecimento artístico ela precisa fazer algo revolucionário, já o homem…vocês sabem.
A outra coisa que pensei foi "Querido, você já vive em um mundo que pode mijar onde quiser". Se fosse uma mulher apertada no meio da rua, a última coisa que ela faria é fazer xixi atrás da caçamba. Primeiramente ela precisaria de umas quatro amigas para fazer uma barreira em volta dela.
Enfim, pelo menos li um livro. Ah, e a estética do livro é linda. Fontes e ilustrações belíssimas.