Maravilhosa biografia de Bach! Ótimo livro para conhecer este grande compositor.
Farei uma resenha suscita e evitarei de contar a vida inteira deste grande e genial compositor, Johann Sebastian Bach, pois ela está muito bem descrita e contada nesta biografia escrita pelo músico Eduardo Rincón, que por sinal, recomendo a todos, não somente aos músicos, mas também aos leigos, pois ele escreve de uma maneira tão acessível, que inteligível as pessoas em que não conhecem tanto o mundo da música. Portanto, recomendo a leitura a TODOS. Comentarei algumas coisas que me chamaram muito a atenção a respeito da vida do compositor. Dentre elas, o instrumento favorito de Bach, de todos os que ele tocava, era o órgão, do qual conhecia não apenas o funcionamento, mas a mecânica, chegando a entender do processo de construção e reparo, ofício no qual também foi profissional de primeira linha (p.12). Ele teve duas esposas, a Maria Bárbara Bach, sua prima, com quem teve os onze primeiros filhos, e Anna Magdalena Wilcke, com quem gerou os nove seguintes. De seus descendentes seus se dedicaram à música: Wilhelm Friedemann, Carl Phillip Emanuel, Johann Gottfried Bernhard, Gottfried Heinrch (de que os irmãos diziam que era um grande músico que não pôde desenvolver-se, pois era deficiente), Johann Christoph Friedrich e Johann Christian (p.10). Eu não sabia que ele tinha um filho deficiente, para mim esta é nova. Bach era um grande admirador do organista Buxtehude, e foi de a pé a largas distâncias até Lübeck. Depois de ouvi-lo no órgão, pois Bach chegou a tocar para ele, sentindo-se já velho, o convidou a sucedê-lo no cargo. Porém, Bach recusou, por causa de um costume local, que o obrigava a casar-se com a filha do antecessor (p.12). Em outras palavras, ele caiu fora. Ele volta e meia mudava de local de trabalho, por causa das suas condições. 1° em Weimar ele escrevia obras religiosas e algumas peças para teclado. Quando morreu o titular, ele esperava em ser mestre de capella, mas vendo que seu desejo não iria ser realizado, buscou um emprego em Könner, porém, quando o governante descobriu isso e mandou prender Bach, alegando ser deslealdade da parte dele. Mas Bach consegue se libertar. 2° em Können como era uma província de religião calvinista, Bach não tinha compromissos eclesiásticos com a igreja do local, por ser luterano e o príncipe Leopoldo amava música, sobretudo as músicas de câmara de Bach. Foi neste período que ele mais escreveu músicas instrumentais como o Cravo Bem Temperado, como as Partitas para violino, os Concertos de Brandenburgo para o margrave da cidade Christian Ludwig, etc. Porém, quando o príncipe Leopoldo se casou, a sua mulher não gostava de música, prejudicando as condições aos músicos que ali trabalhavam. Com isso, Bach teve que mudar de emprego mais uma vez. 3° na Igreja de São Tomás de Leipzig nas palavras do autor: Quando morreu Johann Kuhnau, organista e cantor da Igreja de São Tomás de Leipzig, o conselho da cidade ofereceu o posto primeiro a Telemann, que o recusou. Depois a Graupner, que também o rejeitou. Finalmente ofereceu-o a Bach, que aceitou e foi nomeado titular em 1723. Dessa vez, apenas das muitas dificuldades que surgiriam ao longo dos anos, conseguiu manter o emprego até a morte (p.18). Acredito que tenha sido obra da Providência, pois era para ser neste emprego que Bach iria firmar até o fim de sua vida. Era para ser para ele este posto. Lá ele tinha muita tarefa, muita música para compor, sobretudo para festividades e cultos, toda a semana. Era bastante coisa. Ele dava aula de música e até latim, e tinha que formar um coro, que havia em disposição vozes medíocres, mas que tinha que fazer apresentações nas principais cerimônias da cidade. Às vezes quase entrava em conflitos com as forças dominantes da cidade. Com toda esta sobrecarga, Bach gostava muito de viajar e como disse o autor: Bach sempre gostou muito de viajar, e suas viagens sempre tiveram um motivo justificado: a música (p.18). Isto me lembra a uma passagem do prefácio escrito por Victor Jabouille no livro Íon de Platão, em que ele traduziu e a sua versão é em bilíngue, que é o seguinte: Platão gostava muito de viajar volta e meia, para buscar cada vez mais conhecimento e adquirir novas experiências ; assim como Bach para buscar cada vez mais música. Compartilharei aqui dois episódios referente à improvisação, arte da qual Bach praticava muito bem e até genialmente como veremos aqui: Bach já era um músico indiscutível. Alguns anos antes, em torno de 1720 , quando fora a Hamburgo ver e ouvir Reincken, considerado um dos maiores organista da época, ficara deslumbrado com suas interpretações e sobretudo com sua capacidade de improvisação. Essa era então e continuou sendo durante uma boa parte do romantismo, com Haydn, Mozart e mais adiante com Beethoven, e Liszt, que souberam fazer do improviso uma verdadeira arte uma condição imprescindível para um bom músico. Vinte anos antes, Reincken improvisara diante de Bach. Agora era Bach que improvisava sobre o coral Wasserflüssen Babylon, chegando a tal altura que, ao terminar, teria ouvido de Reincken Eu acreditava que era uma arte morta, mas vejo que continua vivendo em vós. Bach necessitava dessa aprovação. Com ela, sabia que havia chegado ao topo. Mais tarde, confirmaria essa posição diante do imperador Frederico da Prússia (p.16-17). Agora sobre o Rei Frederico II da Prússia: Então continuou viajando: em 1741 foi a Berlim, onde obteve novos êxitos, que tiveram tal repercussão que em 1747 0 imperador Frederico da Prússia o convidou (Carl Philip Emanuel, seu filho, estava a seu serviço) a ir a Potsdam. Frederico amava a música, tocava flauta bastante bem, e deu a Bach um tema para que improvisasse sobre ele uma fuga em três vozes. Entusiasmado com o resultado, pediu que repetisse a tarefa, agora em seis vozes. Bach lhe disse que era impossível, já que o tema não se prestava para isso, e improvisou uma fuga em seis vozes, mas sobre outro tema. Dois meses mais tarde, enviou-lhe de Leipzig uma fuga em três vozes que chamou Ricercare com certeza a mesma que havia improvisado em Potsdam , cânones e uma fuga canônica, a que se seguiram uma _trio sonata, outra fuga em seis vozes também intitulada Ricercare outros três canônicos, tudo gravado por sua conta e enviado com uma dedicatória. A obra não continha indicação da ordem em que as peças deviam ser interpretadas, e a instrumentação só estava levemente sugerida cm duas delas. Esses cânones enigmáticos também careciam de indicações das vozes que acompanham o canto, propondo a Sua Majestade que, sobre as poucas pistas que deixava, as decifrasse fosse capaz! Como se não bastasse a irreverência supõe-se que ele sabia com quem estava lidando e que pretendia divertir, e não aborrecer tão augusta pessoa , acrescentou frases escritas em um estilo humorístico, como por exemplo; "Quaerendo inventis" (procura encontrarás) ou "notulis crescentibus fortuna Regis" (que com as notas aumentadas se acrescente a fortuna do rei). E, no início do Ricercare: "Regis iussu cantio et reliqua canonica arte resoluta" (por ordem do rei, a ária e o resto foram tratados segundo a arte do cânone). Intitulou-a Oferenda musical, considerada um dos monumentos da música barroca. e eu diria que de todos os tempos. Improvisar sobre um tema dado, ou seja, sobre um tema que desconhecemos, é realmente difícil e exige um grande talento, uma sólida preparação no instrumento que vamos utilizar e uma imaginação desenvolvida para não se repetir, para variar realmente o tema, apresentando-o das formas mais diferentes possíveis. Afirmei anteriormente que poucos compositores foram capazes de improvisar, e geralmente eles estão entre os grandes. Mas nem todos os grandes tiveram essa capacidade. Sabe-se que a tinham Mozart, Beethoven, Schubert, que era capaz de sentar-se ao piano e improvisar durante noites inteiras, Liszt, que também possuía uma capacidade extraordinária para isso, e com certeza alguns mais que não me acorrem à memória nesse momento. Mas só Bach era capaz de realizar a proeza de compor sobre um tema desconhecido, utilizando difíceis métodos de contraponto, uma fuga em três vozes e vários cânones, deles verdadeiramente complexos, inclusive para levá-los a bom termo mais tarde sobre o papel. O Ricercare a seis vozes é uma das obras mais complexas do mestre, e a única que escreveu com este número de vozes, e seu valor artístico é incomensurável. Proponho ao leitor que ame Bach de verdade que procure a versão em que um grande músico de nossa época, Anton Webern, realiza, em uma orquestração desta obra, uma magnífica demonstração da sobrevivência da extraordinária espiritualidade do gênio de Bach. (p.20-23). Sobre as Paixões: Essas obras não foram as únicas de certa envergadura que Bach compôs. Mais importantes foram os oratórios e principalmente as Paixões, No princípio, as Paixões eram cantadas durante os ofícios da Semana Santa, mas a partir do século XV se tornaram uma versão dramatizada de qualquer dos Evangelhos. Pouco a pouco foram se ampliando e passou-se a utilizar, além das vozes, uma orquestra, Assim eram as Paixões quando Bach começou a escrever as suas, fossem elas um oratório ou uma grande cantata. Bach compôs duas grandes Paixões, a primeira sobre o Evangelho de São João, escrita em 1724, no ano seguinte de sua chegada a Leipzig. Ele trata com muito respeito o texto bíblico, declamado em recitativo, embora em duas passagens líricas ou corais o tratamento seja muito mais livre. Ao contrário das Paixões escritas por outros compositores (Telemann, Brockes etc.), as de Bach são muito mais rígidas e se ajustam mais estritamente ao texto bíblico, o que era natural no ambiente rigorosamente luterano de Leipzig. Bach acentua o ambiente meditativo e dramático da morte de Cristo e consegue uma altitude espiritual que diferencia suas Paixões das obras um tanto mais teatrais de outros compositores. anto nesta quanto na Paixão seguinte as intervenções dos corais do povo, no julgamento de Pilatos, bem como na crucificação, são destacadas como exemplo universal do caminho da redenção uma importante diferenciação teológica que eleva seu valor puramente religioso. Em 1727 compôs sua segunda Paixão, agora sobre o Evangelho de São Mateus. Trata-se de uma obra importante, não apenas em extensão mas sobretudo na concepção musical. A redação do Evangelho é muito mais longa e relevante do ponto de vista musical. Nela, cada um dos momentos cruciais da vida de Cristo é amplamente retratado: a previsão de sua própria morte, a ceia, a traição de Judas, os recitativos, a cena no Gólgota e a crucificação situam esta composição magna quase na altura de sua Missa em si menor. Os coros duplos, a importância da orquestra, a intervenção de numerosos solistas lhe dão tal que a comparação com a missa não parece exagerada. Jesus é acompanhado em seus solos por um pequeno número de instrumentos, com uma intenção melódica bastante diferente daquela que norteou a Paixão segundo Sio João, escrita alguns anos antes. Todos esses aspectos que mencionamos (coros duplos, grande orquestra, as profundas meditações do evangelista, a intervenção altamente dramática do coro e dos solistas) deram à obra uma força de representação teatral (no sentido mais clássico e nobre do termo) comparável à de qualquer dos grandes oratórios que seriam compostos mais tarde, sobretudo ao chegar o período romântico. Eu diria mesmo que esta Paixão que só reapareceria a partir do momento que Mendelssohn redescobriu Bach, um século mais tarde influenciou maneira determinante a concepção dos oratórios do próprio Mendelssohn, de Liszt e de Berlioz. (p.24-27). A Missa em Si menor foi uma obra em que Bach, escreveu como missa católica na íntegra, como forma de tentar conseguir emprego de mestre-capela da corte da Saxônia, na Polônia, que tinha religião católica na região. Porém a obra não foi executada por ser longa demais para a missa pois pensasse que a missa é o momento de que o centro é Cristo e não a música, a música é o adorno da grande celebração e do calvário da Missa. Ele também comenta sobre a obra o Cravo Bem-Temperado, corretamente chamado de Teclado Bem-Temperado, acerca da importância da obra para mostrar a eficácia do sistema temperado de afinação. Tem tantas coisas a compartilhar, por isso digo que é pouco para mostrar a grandiosa desta curta e quiçá simples biografia, mas muito bem escrita. Recomendo a todos a leitura deste livro, assim como a audição da música do gênio Johann Sebastian Bach. Pois como disse o autor: "Depois de ouvir uma amostra da música de Bach, tenhamos paciência, embora isso às vezes seja difícil, e continuemos escutando algumas de suas obras, ao menos as que citei como mais belas, e no final de não muitas audições seremos recompensados ao admirar o pensamento mais belo e perfeito jamais transposto para um pentagrama musical" (p.47).

