Numa sociedade profundamente marcada pela divisão sexual do trabalho, às mãos femininas foi reservada a tarefa de entrelaçar as fibras, os fios e criar novas formas: tecer. Na mitologia grega, três mulheres eram responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida. Conhecidas como moiras, as três divindades irmãs não foram as únicas envolvidas com fios e tramas, como bem nos mostram Ariadne e Penélope.
Não por acaso, o livro de Rizolete Fernandes, Tecelãs (Editora Sarau das Letras e Editora Trilce, 2017), ao narrar a história de vinte mulheres que teceram o fio da igualdade e da liberdade para suas irmãs de gênero, se inicia com Tétis e Safo. São histórias individuais que criam a história coletiva das lutas das mulheres por respeito e reconhecimento. Narrando em primeira pessoa, o texto da autora inclui trechos originais das mulheres retratadas, conseguindo o efeito extraordinário de mesclar de tal forma sua voz á das homenageadas, construindo versos que ao mesmo tempo em que respeitam os estilos das mesmas, dialogam de forma vívida com o tempo presente, que o leitor sente que cada mulher retratada lhe fala em particular.
A seleção das vinte tecelãs, entre as quais se incluem Nísia Floresta, Nise da Silveira, Simone de Beauvouir, Auta de Souza, Chiquinha Gonzaga, Frida Kahlo e Gabriela Mistral, entre outras, é feita com base na contribuição das mesmas para a luta pela igualdade de gênero, mas também a partir do afeto e da subjetividade da autora, ela mesma mulher nordestina, nascida no interior do Rio Grande do Norte, com uma grande produção literária. Não por acaso, as mulheres retratadas se constituem em sua maioria autoras, ante a consciência de que estas manejam perigosa e letal arma: a escrita.
Mas Rizolete Fernandes também é tecelã. Unindo suas identidades de poeta e de pesquisadora, tece os fios da memória com muita competência. Como o fio que Ariadne estendia no labirinto do Minotauro, a autora, através do apuro técnico e artístico do seu trabalho, nos aponta que é preciso não esquecer o árduo percurso percorrido, nossa história e passado, sob a pena de tomar por ganho fácil o que foi duramente conquistado.
A autora nos alerta que o trabalho da tecedura se estende pelo tempo. É constante. É uma trama inacabada, uma responsabilidade ética que temos com as mulheres do passado, de quem somos herdeiras, e com as mulheres do futuro, que receberão nosso legado. Desse ponto de vista, o livro não é apenas uma bela homenagem às vinte tecelãs, mas uma convocação para que seu trabalho seja continuado e para que a memória das mesmas permaneça viva, pois como diz a Autora na introdução, mulher não é mesmo de ficar calada/nem morta.
(Lindevania Martins é escritora, pesquisadora, mestre em cultura e sociedade e defensora pública no Maranhão)