O Bom Partido é a contribuição de Curtis Sittenfeld para o The Austen Project Series, no qual seis diferentes autoras contemporâneas são responsáveis, cada uma, por criar uma adaptação moderna de um livro de Jane Austen. Aqui, temos a releitura de Orgulho e Preconceito em uma história que tanto parte da premissa original quanto segue seus próprios caminhos para funcionar em um mundo diferente daquele conhecido por uma das mais famosas escritoras britânicas.
Liz e a irmã Jane moram há anos em Nova York, mas acabam retornando para Cincinnati, sua cidade natal, após o pai sofrer um infarto. Pouco tempo depois, ficam sabendo que Chip Bingley, médico famoso por ter participado do reality show O Bom Partido, chegou à cidade, e passa a ser uma missão para a mãe delas apresentar as filhas a ele. Enquanto Jane e Chip se interessam quase que instantaneamente um pelo outro, Liz sente aversão pelo melhor amigo de Chip, o neurocirurgião Fitzwilliam Darcy, sem saber que primeiras impressões podem ser um tanto quanto equivocadas.
Assim como Liz vai aprender em sua trajetória a não fazer julgamentos causados pelas primeiras impressões, passei pela mesma experiência com O Bom Partido. A verdade é que, pelo início da leitura, achei que não gostaria do livro. As personagens, de modo geral, me pareceram tão odiosas, com pensamentos e falas tão problemáticos, que por um segundo imaginei que esse seria um problema do livro. Então, me lembrei de que era uma característica de Jane Austen criticar a sociedade em que ela vivia e pouco a pouco fui percebendo que é exatamente isso que Curtis Sittenfeld procurou fazer. As personagens são odiosas porque elas representam problemas de nossa sociedade, e suas manifestações muitas vezes machistas e preconceituosas refletem a presença dessas questões em nosso meio. Até mesmo em um momento mais para o meio do livro, quando imaginei que, novamente, haveria um problema em relação à representatividade que surge na história, logo a autora faz questão de apontar como a própria Liz tem consciência de sua visão equivocada, o que serve também para debater a temática em si. Dessa maneira, O Bom Partido tem um lado social e político bastante presente no sentido desses aspectos fazerem parte de quem são as personagens e como é o meio em que elas estão inseridas. E Curtis Sittenfeld merece os parabéns por ter procurado apontar esses aspectos na trama como Jane Austen também fazia: com sutileza e ironia.
No que se refere ao enredo, O Bom Partido traz o suficiente de Orgulho e Preconceito para ser uma releitura e proporcionar tal identificação pelo leitor quanto também segue seus rumos próprios. Ao mesmo tempo que o livro garante uma sensação de conforto por estarmos lidando com uma história que, em partes, já sabemos como é e como se desenvolverá, ele também entrega o prazer de se descobrir as novidades, uma vez que muito dele é novo, especialmente por ser uma trama ambientada em nosso mundo contemporâneo. Também, adorei como Curtis Sittenfeld ressignificou muitos dos acontecimentos e das personagens, principalmente no que envolve as personagens que, no original, correspondem a Lydia e Wickham.
Não bastasse a forma positiva de como o livro adaptou a essência da obra de Austen, O Bom Partido funcionou muito bem para mim como leitura própria, resultando em uma experiência deliciosa de ser feita. Apesar do incômodo inicial, logo me envolvi com a trama e li tudo em poucas horas. Liz, por ser a protagonista, é uma personagem que foi bastante aprofundada e seus conflitos internos são sólidos e reais, o que me aproximou da história. Foi gostoso acompanhá-la tão envolvida com os problemas de sua família, em um primeiro plano, e depois lidando com as angústias de sua vida amorosa. Também aqui, Curtis Sittenfeld é fiel à obra original, já que muito de Orgulho e Preconceito se dá em um nível doméstico e o romance mesmo aparece de forma tênue. No caso da versão contemporânea, a relação entre Liz e Darcy é completamente atual e achei delicioso acompanhar o desenvolvimento dessa paixão. A adaptação da famosa declaração de Darcy me fez sorrir de forma boba e terminar o livro com o coração leve e quentinho.
Em linhas gerais, O Bom Partido me proporcionou uma experiência repleta de prazer. Enquanto fã de Jane Austen, tive o gostinho de retornar a um universo que tanto me encanta, ao mesmo tempo que pude me deleitar pelas adaptações da história em um contexto atual. Foi uma leitura agradável e envolvente, que me divertiu e me fez sorrir como os melhores entretenimentos costumam fazer.