Juventude -

    Laís Araruna de Aquino

    Reformatório
    2018
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788566887457
    Português Brasileiro

    As imagens que habitam estes versos são capturadas a partir da posição única e não intercambiável do sujeito no mundo, revelando, ao final, uma província – ou um eu – em sua contingência e universalidade. É que a chuva que cai “no leito do Rio Capibaribe” é a mesma e vária chuva que ocupou, uma outra vez, os versos de Vallejo e Gullar, provocando uma reflexão poética sobre a existência. Igualmente, o campo ou o bairro acusam o topos geográfico a que se liga a poeta, mas, antes de confinar o seu estar-no-mundo, infundem-lhe o sentido metafísico do tempo ( “o nosso tempo é o enquanto”) e do espaço (“no centro de lugar nenhum (...)/a plenitude do vazio”) e as questões últimas que o pensamento se impõe – como em “morro na medida em que tenho consciência de morrer”. Isto não implica, no entanto, um afastamento da imagem poética, como se tributável da especulação, ao contrário, os topos e experiências recorridos aqui (“os barquinhos do Capiberibe”; “o rumorejo das árvores no vento”) são reabilitados em sua particularidade, em sua “configuração nunca idêntica/ porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza”. Ainda que múltipla, a matéria destes poemas se reúnem em torno do eu, situado em um mundo desencantado, de ontologias dissolutas, mas em que ainda se anseia por algum tipo de unidade ou união – providas, talvez e momentaneamente, pela síntese poética de “um presente que não importasse de retornar eternamente a si mesmo”. Sem fatalismo, no entanto. Estes poemas convidam a passear os olhos, “sob a luz dourada de verão”, pelos “morrinhos do horizonte”, com lirismo e uma dose do “espanto primevo e metafísico”. A juventude que se exige neste livro é a do olhar.

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    Felipe André Silva08/02/2019Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    É preciso boa dose de crença no próprio material para conceder a ele um título tão genérico e potente quanto 'Juventude' e Laís de Aquino parece ter muita confiança na sua leitura caleidoscópica para os significados dessa palavra. No entanto, sua coletânea contém em si pelo menos três livros, e me incomoda bastante que essas vozes, ou momentos, não estejam agrupados como tal. É possível encontrar poemas idílicos, quase parnasianos, sobre uma vida campestre, ao lado de memórias urbanas, pop, repletas de referências e imagens delicadas, ou ainda o poema mais cerebral, acadêmico, uma abordagem filosófica e investigativa dessa juventude. Todas essas vozes não parecem estar em constante conversa, e não consigo entender como esse descompasso seria proposital. Não que seja um livro de respostas, mas os únicos momentos em que consigo perceber um verdadeiro debruçar sobre o mote que o título joga são aqueles em que toma a frente a poesia "contemporânea", por assim dizer, e Laís usa livros que leu, filmes que viu, cidades que visitou, o Recife natal, como marcos fundamentais, como os agentes de formação que são. Parece que Juventude, afinal, pede muito mais uma fala franca do que um passeio metafísico.

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