Ainda não me acostumei com a nova estética da revista. Parece tudo tão formal e sem graça... Mas gostei de duas reportagens:
"Zulu, quando a lança venceu o fuzil" - aborda impactante vitória dos zulus contra os ingleses no sul da África, século 19, quando mais de 70% da tropa inglesa no local foi morta.
Contribuiu para a vitória o maior contingente de guerreiros africanos, subestima e autoconfiança dos ingleses, desconhecimento geográfico da região, tática militar equivocada e, o aspecto que pareceu mais impactante, a disposição dos guerreiros zulus pela luta, onde não temiam a morte, atirando-se avidamente. O impacto é por conta do texto registrar que lutavam drogados, sem muita percepção de dor ou racionalismo, de forma mais instintiva.
Foi uma derrota que mexeu com brio e depois a retaliação foi massacrante, em vitória final após cerca de 6 meses.
Essa história lembrou-me as batalhas em Canudos, pois tem coisas parecidas: a determinação do sertanejo (literalmente um forte, como consagrou a frase de Euclides da Cunha), a autoconfiança das tropas federais e desconhecimento da região também, derrotas humilhantes nas primeiras expedições, e combates no fim do século 19. Se os zulus lutavam drogados, os sertanejos motivados pelo fanatismo religioso do Conselheiro (tem passagem de "Os sertões" em que Cunha compara a chegada das linhas sertanejas à uma procissão ou romaria, com cânticos e velas).
"Irã, da revolução à teocracia" - a reportagem enfatizou causas e consequências.
No primeiro aspecto, vemos coisas como a impopularidade do Xá, fracassos de planos de desenvolvimento, descontentamento crescente da população, governo que agia com opressão e também a oposição promovida por líderes religiosos. Eram motivados pela reação contra a política progressista do Xá, pouco conservadora na visão destes (permitindo o voto feminino, por exemplo, e reduzindo a influência das lideranças religiosas no governo, chegando a confiscar terras) e, principalmente, pela abertura para a ocidentalização, onde EUA e os britânicos controlavam empresas para exploração do petróleo. Fatores citados, que certamente foram importantes..
Nas consequências, a revolução de 1979 que transformou o estado monárquico em uma nação teocrática sob liderança do aiatolá Khomeini. Houve radicalização religiosa e a nação se isolou dos EUA e aliados. Por aí...
Curioso que na época também rejeitavam os russos, o que os interesses atuais reuniu em parceria.
Nas reportagens menores conferi:
- O contexto de época inspirador à Mary Shelley para Frankenstein: experiências com corpos humanos e eletricidade, tendo resultados surreais que acreditavam ser caminho de ressurreições (num processo de aprendizagem ainda sobre a fisiologia);
- A seleção de 10 batalhas no estilo "Davi vs Golias", o pequeno vencendo o mais forte.
Como é que não incluíram nenhuma vitória de Alexandre! Até hoje militares estudam pela engenhosidade tática em alguns momentos. Cito a Batalha de Granico, o primeiro confronto com os persas na expedição de conquistas iniciada pelos macedônios, século 3 a.C. Ocorreu na divisa de um rio, quando os gregos não só estavam em inferioridade numérica, como também geográfica (o que custou muitas baixas, quase a de Alexandre também), mas ainda assim foram os vencedores.