Cobra Norato e a especificidade da linguagem poética -

    Alcides Buss

    FCC
    1981
    87 páginas
    2h 54m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
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    Eduardo picture
    Eduardo09/01/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fichamento (vá lá) do livro

    Da página 20-21 //Conclui-se facilmente que apenas a linguagem de tipo científico, ou próxima do pólo de desvio nulo, é passível de tradução, isto é, de ser vertida, sem prejuízo de mensagem, para outro idioma. A traduzibilidade, então, passa a ser um critério diferenciador dos dois tipos de linguagem, o poético e o prosaico. //Em que consiste a causa da intraduzibilidade poética? A resposta virá através da distinção entre a forma e a substância do conteúdo e da expressão. A tradução substancial do conteúdo, por exemplo, é possível. A tradução formal, no entanto, não o é, uma vez que a forma, ou desvio, implica num estilo e, como tal, numa especificidade em termos de linguagem. O texto científico, porém, situado num grau zero de estilo, pode ser traduzido, uma vez que nele a expressão mantem-se exterior ao conteúdo. //Esta tese da intraduzibilidade, ou da irredutibilidade do texto literário, especialmente quando é dominante o caráter poético, parece receber nos últimos tempos um consenso sempre maior. Sejam lembradas as palavras de Guimarães Rosa: "Quem quiser entender corretamente Kierkegaard tem de aprender dinamarquês; do contrário, nem a melhor tradução o ajudaria. Quem quiser entender Dostoiévski tem de fazê-lo em russo, e assim em toda parte onde uma realidade idiomática está velada diante de outra, de tal maneira que não se pode penetrar nesse véu." //É na forma, segundo Cohen, que reside a poesia. Ao traduzir-se um poema, pode-se conservar a substância de seu conteúdo, mas sacrificar-se-á a forma e, consequentemente, a poesia. A substância do sentido, na qualidade de coisa ou realidade extralinguística, em si, não é poética; ou melhor, é poética, mas só em potencial. Cabe à expressão atualizar ou não a sua poeticidade. //Reafirmando, o valor estético do poema reside não no que ele diz, mas na maneira como diz. A crítica que procura, sobretudo, os aspectos psicológicos e sociais da obra, "perde de vista seu verdadeiro objeto, porque procura por trás da linguagem uma chave que se encontra na própria linguagem, como uma unidade indissolúvel do significante e do significado" (COHEN, Jean) //O poeta, antes de mais nada, é um criador de palavras. A Poesia, ao contrário da prosa, é linguagem de arte, ou como diz Cohen, artifício. Em outras palavras, o poeta, na qualidade de artista, é um criador de formas poéticas. Mesmo as figuras, como desvios de linguagem, nada mais são do que forma. //Para concluir, cite-se as palavras de Valéry, registrando o pensamento vanguardista do mestre Mallarmé: "as rimas, as aliterações, de um lado, as figuras, tropos e metáforas, de outro, deixam de ser detalhes e ornamentos do discurso que se possam suprimir: constituem propriedades substanciais da obra; o fundo não é mais causa da forma, é um dos efeitos" --------------------------------------------------------------------- Da página 29: //Sendo o objetivo da esratégia poética a mudança de sentido, todas as figuras visam, em última instância, provocar o processo metafórico. "O poeta - afirma Jean Cohen - atua sobre a mensagem para modificar a língua.. Se o poema infringe o código da fala é para que a língua o restabeleça transformando-se" //O poema, na sua especifidade formal, não constitui a expressão comum de um universo anormal; ao contrário, é a expressão anormal de um universo comum. Quando a impertinência é introduzida na frase, ela é percebida e faz com que se acione o processo de redução linguística. Deste acionamento emanam os valores semãnticos característicos do sentido poético. ---------------------------------------------------------------------- Confesso que os 2 primeiros cápítulos foram muito difíceis pra mim, pois o autor se apoia em fontes teóricas que conheço de forma insuficiente (Jakobson, Cohen, Ramos). Quanto ao capítulo 3, muito dele perdi, por ser uma análise muito rigorosa (diria até inútil, para os meus interesses) de certos aspectos do poema: metro, rima, aliterações, ritmo, etc. Bem dispensável, a princípio. (Registre-se que meu "objetivo" é um possível trabalho com esse livro futuramente em sala de aula). Bem, o 4º capítulo, ao meu ver, é o mais útil e interessante. De forma clara, Buss apresenta os desvios de linguagem que Raul Bopp utiliza para a construção do poema e de sua atmosfera. A linguagem de Cobra Norato é marcada por constantes "impertinências no nível da predicação" (entre outros desvios). Esse é um tipo de desvio de linguagem presente no poema. Desvios estes que, para Buss, caracterizam a especifidade da linguagem poética. Esses desvios de predicação referem-se a desvios na ordem gramatical sujeito-verbo-predicado ou verbo de ligação-predicado nominal, daí meu interesse no 4º capítulo. A importância dessas impertinências para a construção desse poema é bem esclarecida na seguinte passagem (pág 66): " "sol parece um espelhino" Esses eventos de impertinência caracterizados por uma relação de interioridade entre os significados e, portanto, fáceis de redução, são localizáveis apenas em número relativamente pequeno ao longo do poema. Obviamente, quanto mais o desvio resistir à redução metafórica, maior será seu alcance poético. E é este aspecto, também, que dá forma especial e densidade poética a Cobra Norato. Seus personagens se movimentam num universo em transfiguração, numa linguagem que também se transfigura, formando uma nova significação. Registram-se ainda, em grande número, impertinências quanto à predicação verbal, na maioria das vezes de difícil redução e altamente poéticas, mas que não se inserem simplesmente nos processos de animização ou personificação. Caracterizadores fortes da especifidade da linguagem poética em Raul Bopp, esses desvios ilustram de alguma forma o cenário da epopéia e podem ser classificados[...] Alguns exemplos: "A agua do rio se quebrou" "Fatias de mar dissolvem-se na areia" "A noite encalhou com um carregamento de estrelas"

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