Encontrar na institucionalização do genocídio a matéria de que são feitos o castigo retributivo e toda a pena é uma verdadeira surpressa, ainda mais perturbadora quando deixa ver traços de uma violência sagrada. A natureza punitiva do genocídio tem facilidade para se livrar da observação. Leis de impunidade e apagamento da memória colaboram no trabalho de invisibilização. Este parece ter sido o preço que a sociedade paga por fazer do massacre estatal um delito do direito internacional. Fato fundacional que declara que os maiores perigos para a população têm origem no poder punitivo, enquanto os juristas continuam apegados à ideia de que a pena ilegítima não é pena. Os traços sacrificiais presentes no massacre estatal não são menos evidentes do que na penalidade en geral. O clarão que essa forma extrema de poder produz retira a pena pública da opacidade para mostrá-la como solução sacrificial. O livro que vocês têm em mãos se propõe a descrever um modo em que homens e mulheres se relacionam con um tipo muito particular de sofrimento, distinto de qualquer outro. É o resultado da experiência no laboratório social que o genocídio produz. A hipótese é a seguinte: não é improvável que o tratamento punitivo organizado seja herança da solução sacrificial do mundo selvagem e que foi convertido pelo homem civilizado em modo de vida. Desde aproximadamente cinco mil anos vive-se sob a ameaça e o padecimento punitivo na crença de que alguém tem que sofrer ou morrer para que a sociedade viva.
Fazer sofrer (Coleção Pensamento Criminológico #24) - Imagens do homem e da sociedade no direito penal
Alejandro Alagia
Revan
2018
364 páginas
12h 8m
ISBN-13: 9788571066113
Português Brasileiro
Edições (1)
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