Cerzir -

    Antonio Aílton

    Editora Penalux
    2019
    156 páginas
    5h 12m
    ISBN-13: 9788558334808
    Português Brasileiro

    Em comemoração aos seus 50 anos, o premiado poeta Antônio Aílton presenteia seus leitores com o livro Cezir – Livro dos 50, contendo tanto poemas já publicados em livros anteriores, quanto inéditos. O poeta maranhense, sempre meticuloso, costura o passado com o presente, o que foi e o que é (e, quem sabe, o que será), não somente através da mistura de poemas antigos com novos, como também na aprimoração de sua maneira de viver, de observar o mundo e fazer poesia. Os versos de Aílton não negam a dureza persistente da vida, e todos os percalços entre o nascimento e a morte, mas oferece-nos uma fuga de tanta escuridão: a luz das pequenas-grandes belezas, as alegrias escondidas dos olhares cansados, os quais precisam urgentemente de novas perspectivas. O poeta, contudo, não age fora de seu tempo: não nega as realidades modernas e tecnológicas, e problemas intrínsecos à atualidade, mostrando que a linguagem poética está sempre em movimento, como qualquer processo cultural. Cezir – Livro dos 50 é mais do que uma síntese do trabalho de Antônio Aílton: é seu amadurecimento traduzido em versos.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos30/04/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Em “Cerzir” uma vertiginosa apreensão da linguagem

    O escritor e filósofo do Direito Rossini Correa escreve em Prefácio à obra “Cerzir- Livro dos 50” do poeta Antonio Aílton: “A textura da vida do mundo é o corpo&alma da arte poética de Antonio Aílton, com o descerrado compasso para o mistério da infinita e complexa inquietude das coisas, só na superfície, simples. Sob o sol do amanhecer, como se saído da caverna de Platão, o poeta maranhense recupera a humanidade profunda do cego olhar, para empreender a aventura da descoberta do Uno e do Verso, disposto a não contemplar da janela a paisagem – ou a Esfinge – que o circunda, perscruta e desafia: decifra-me ou te devoro. Eis a existência experimentada enquanto travessia, de quem, sob o cerco da Sombra, aspira à música da Luz: respirar o silêncio, o solfejo, o solo, a sonata, enfim, o concerto da sinfonia cósmica do Ser. A obra de todo poeta culto – a exemplo de Antonio Aílton – é uma dialogia de signos. De fato, e sente-se ainda na poética do autor, aquilo que dele escreveu José Neres: um “intelectual inquieto que está sempre em busca de novos aprendizados”, um poeta capaz de transformar gestos insólitos em poemas de alta densidade. Aílton tem percorrido caminhada literária de fôlego, com dois prêmios Cidade de São Luís e um Prêmio Cidade do Recife. Além de Doutor em Teoria da Literatura, participou de diversas antologias e assina 6 livros que transitam da poesia ao ensaio. Vejamos dois poemas: Poema “A passageira”. “Bela jovem inclina a cabeça / para ser beijada, / como se / como há 58 anos / olho para suas mãos e detecto / o resquício de colágeno / é como que um resquício de profundo desejo / ainda em vida / segurando a pele tratada / sob as janelas do mundo , que ficam // Dentro de sua cabeça deve haver um campo / de beija-flores / ausente nos passageiros em redor / um campo não suficiente para nos proteger // eu desço, para o inexorável / ela vai morrer com / ou sem mim”. Poema “Peixe seco” “meu pai me ensinou a arte de escapar do anzol / mas a humanidade é mais forte que os peixes / a humanidade é mais forte que os ursos / a humanidade é mais forte que as moscas / em toda parte, há sempre um homem para / te ferrar / e te estender como uma platibanda / ou anódina flor para o sol / [um homem qualquer, mais forte que meu pai / mais forte que a humanidade * borboletas estão / a meio caminho do doce / quando pousam por engano / em mim * para olhos impuros, só há corpo e excremento”. O jornalista Daniel Zanella aponta temáticas da obra “uma certa pedagogia das belezas possíveis. São os meninos jogando bola, as ondas do mar, os garis debaixo das árvores, o banho matutino no filho, as melhores canções de amor, a ‘lição do vento que o arrasta ao fim do verão’. Ao cabo dessa instigante obra de Aílton, lemos um longo poema em prosa que faz referências ao poeta francês Francis Ponge (1899-1988) localizando-o em uma região muito conhecida de São Luis no Maranhão, a Praia Grande. Em “Imagine se Ponge vem beber na Praia Grande”, e a título de alargamento da percepção do leitor, acrescentamos que Ponge lutou para tornar a linguagem sua principal preocupação literária. Trabalhou para refutar a efusão lírica e a subjetividade descrevendo os objetos cotidianos em uma linguagem aparentemente objetiva e científica. Para ele a realidade da língua dignifica e humaniza todo ser humano. E em prosas poéticas com pitadas de humor, empregou neologismos criados a partir da etimologia das palavras. Verdadeiramente uma apreensão do mundo através de vertiginosa profundidade de linguagem que combina atividades criativas e críticas. E observe-se a extrema habilidade do autor maranhense ao situar Ponge em uma região como a da Feira da Praia Grande, onde historicamente nasceram desde os tempos do Império do Brasil, (em suas ruas, becos travessas e escadarias) imponentes sobrados e belas casas com fachadas em azulejos, que hoje estão misturados ao descalabro do mundo pós-moderno tanto na arquitetura quanto na população que por ali transita. Veja-se um pequeno trecho e se entenderá bem do que falamos: “Nunca andamos de camelo e certamente também você não conhece os desertos de Nabak ou Chatira. Mas quem já galgou o áspero animal, arremedo de jangada e escada de Jacó ao mesmo tempo, não estranharia a mesma sensação no subir e no descer do pescoço destas ruas.” E o poeta segue enredando inapelavelmente o leitor que se interessa pela batida de uma prosa cheia de significados e intenções subjacentes: Veja-se esse trecho adorável: “Mas não se engane. Se em algum momento esse espaço manteve-se como um inconsciente austero, sagrado, ideal à metafísica e à ponte entre o minério e os homens, também esta sensação logo se perturbará imperceptivelmente. Beba de um gole seu crepúsculo, encha o pote. Num abrir e fechar de olhos, acorrerá para essas parcas ruas, uma precipitação massiva e recrudescente dos mais diversos e imprevistos seres, movidos pelo sentimento lúbrico da contemplação e do extravasamento. São corpos! Olhados de longe, essa leva de passantes, sócios boas-praças, cadeiras-cativas, sabichões, intelectuais, pés-no-saco, doidivanas, malucos, pés-inchados, porras-loucas, cínicos, turistas, prostitutinhas, frangotas, boçais, macacas-velhas neo-hippies, narigudos, farsantes, apastelados e mambembes mais parecem uma trempe de caricaturas, humanóides e estrovengas tirados da insanidade bélica de George Lucas. Sabe-se porém que, no fundo, obedecem a impulso – como o seu – muito anterior à sua própria corporificação afetada e excedente: atiçados pelo instinto e pelo vigor, pelas instâncias da fecundidade, do gozo e da fatalidade erótica, eles querem dar continuidade a esta pulsão febril e grandiosa chamada vida. Não se espante de que toda esta celeuma se constitua em terreno propício para as fabulosas garras do capital. Aí ele estende seus tentáculos para cima e para baixo, bifurca-se, aproveita-se tanto da sensibilidade quanto da desgraça, e é isso que dá a certeza de que tudo que lhe pareceu “alheio” é igual em qualquer parte do mundo: agências de turismo, butiques, lojinhas de artesanato, souvenires e burundangas que se multiplicam como praga, e cujos objetos lá estão mais como Conceito, afastando-se por pausterização, dia após dia, da própria realidade que é preciso cada vez mais macaquear, e que é preciso fazer existir ao menos como Venda. E há então, o fosso, a mais profunda revelação dessa tira em preto e branco, os pedintes, dezenas deles, pequenos, médios, grandes: centenas, dezenas de milhares! Chegam de supetão: seriam anjos? Demoninhos? Mortos-vivos esmolambados? Escravos do passado reencarnados na pele de vendedores do ovos de codorna, amendoim e lambugens? São perebas.” E é exatamente em um meio assim, que nós nos “empedramos” e acabamos perdendo [de] há muito, a ideia [inicial] do camelo”. Esse texto ou prosa poética, como queiram, é antológico, vale a pena, e muito, conferir seu desfecho. Finalmente, é muito, muito interessante repetir para os que já sabem, e para os que nem desconfiam de sua existência em nosso meio tão pouco informado de suas preciosidades, daquelas que brilham fora dos ‘centros luminosos’, que Antonio Aílton, é poeta e dos bons. Nasceu “nos ermos” de Bacabal – no Maranhão, (sabem lá em que Brasil fica Bacabal? – pois, 240 km da capital São Luís). É nesse desconhecimento de nós mesmos e de tudo e tanto que se produz no país atualmente (e de qualidade), que o leitor terá ainda o grato prazer de encontrar ao cabo da edição, nada menos do que 5 pequenos textos críticos assinados por gente profundamente ligada à Literatura, sobre a obra do autor, e que não se constitui (como ocorre em certos casos), em mero exercício de unanimidade burra. Cada um dos textos evoca um aspecto da poética de Aílton nesses seus cinquenta anos de vida. Ricardo Nonato observa que o poeta “ao ler o mundo que o cerca, percebe, também, nele mesmo, a mudança, o movimento que rege a vida no seu alinhavo cotidiano, evocado esteticamente por uma consciência plena do seu labor.” E ainda que, este novo livro de Aílton “pode ser lido como uma espécie de síntese e constante aperfeiçoamento da forma, adensada pela complexidade do artista que acompanha o movimento do mundo em constante mudança, com suas virtualidades.” E tudo isso acrescentamos em concordância com o Ricardo Nonato, a propósito (também) de descortinar caminhos possíveis. Livro: “Cerzir – Livro dos 50”, poesias de Antonio Aílton, - Editora Penalux, Gruaratinguetá – SP, 2019, 156 p. ISBN: 978-85-5833-482-2 Link para compra e pronto envio: http://www.editorapenalux.com.br/loja/cerzir

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