Que livro incrível! Um americano que decidiu morar na Bulgária carrega aquela sensação de se sentir estrangeiro em todos os lugares. Um dia, num banheiro público, conhece Mitko, um michê, e por ele desenvolve uma obsessão. Por causa desta paixão avassaladora, revê tudo na sua vida: seus relacionamentos, suas escolhas, seu exílio. Uma reflexão profunda sobre o desejo e suas complicadas correlações com o amor, com a culpa, com a vergonha e com o remorso. A linguagem é clara, crua, direta; e em todos os momentos ela é bela, reflexiva e elegante.
O autor, bastante promissor neste seu primeiro romance, descreve muito bem os estágios da paixão, a obsessão, os caminhos tortuosos e perigosos que às vezes escolhemos. Também reflete a relação entre pais e filhos, os julgamentos que os filhos sempre fazem sobre seu pais ao longo da vida, suas decepções e seu entendimento, quase sempre tardio. Faz pensar demais como o amor que recebemos (ou não) dos nossos pais nos tornam pessoas seguras e amorosas, ou o contrário disso, e o quanto isso é desastroso.
Há tantos trechos tão interessantes, como na cena em que ele contempla o pai e sua filhinha brincando num parque, ou durante uma viagem de trem, observando um menino sapeca com sua avó... A leitura nos leva a uma série de constatações sobre o que a vida e o mundo fazem com as pessoas, sobre as opções que as pessoas têm na sua existência (às vezes nenhuma!), sobre como as circunstâncias são transformadoras, e como muitas coisas simplesmente não tem solução.
Um estréia realmente impressionante. É o tipo de autor cuja prosa o leitor consegue diferenciar bem quem de fato é um escritor de verdade e quem é simplesmente contador de histórias.
Trechos:
Existe algo de teatral em todos os nossos abraços, acho, já que ponderamos nossas reações em comparação àquelas que percebemos ou projetamos; sempre desejamos demais ou de menos, e compensamos na mesma proporção.
Como desejo é indefeso fora do seu pequeno teatro do tesão, como ele se torna ridículo no momento em que não é bem-vindo.
Mas como é que eu podia dizer o que queria, pensei, se esse querer me escapava inteiramente?