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    A mulher com olhos de fogo - O despertar feminista

    Nawal El Saadawi

    Faro Editorial
    2019
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788595810600
    Português Brasileiro
    4.2
    405 avaliações
    Leram508Lendo13Querem350Relendo1Abandonos2Resenhas100
    Favoritos46Desejados350Avaliaram405

    Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. "Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você", começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir… até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher.

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    Victor04/09/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Egito: O Patriarcado x A Mulher.

    Quantas vezes paramos para ler/pesquisar sobre a realidade das sociedades que vivem nas sombras do ocidente? “A Mulher com Olhos de Fogo” escrito pela ativista feminista Nawal El Saadawi, é uma não-ficção que conta a história da Firdaus, uma mulher egípcia que foi perseguida, acusada e destinada pena de morte por cometer “crimes” contra o Estado. A história que nos é contada surgiu da oportunidade que Nawal teve em visitar a prisão, qual se encontrava Firdaus. Um dia antes da pena de morte de Firdaus, Nawal foi convidada a cela pela própria prisioneira, sendo avisada que não teria direito de perguntar nada, apenas ouvir história de Firdaus, pois ela não tinha muito tempo, afinal, estaria morta no dia seguinte. E foi a partir dessa situação, dos relatos ouvidos, que autora transformou a história de Firdaus num livro, onde o mundo pudesse conhecer a história da “Mulher com Olhos de Fogo”. Considerações pessoais: Firdaus começa contando sobre sua infância, filha de pais agricultores e religiosos, a infância de Firdaus foi marcada por situações de abuso, silenciamento, violência doméstica, praticada pelos próprios pais e familiares. A partir das palavras dela somos levados para um cenário extremamente conservador e de muita opressão. Logo nas primeiras páginas temos um acontecimento que muda toda a vida de Firdaus, como toda menina que nasce na sociedade qual ela faz parte: a negação do prazer feminino. “Fechei os olhos e tentei encontrar o prazer que eu havia experimentado antes, mas em vão. Foi como se eu não conseguisse mais identificar o ponto exato onde o prazer costumava emergir (...)” (p. 36). Firdaus sempre foi uma garota ligada aos livros desde pequena, e isso provocou nela um desejo pela sua emancipação a partir dos estudos. Com o conhecimento adquirido através dos livros que lia na escola, Firdaus começou a questionar o porquê a ascensão social, os cargos mais renomados, não são alcançados pelas mulheres na sua sociedade, e porquê os homens sempre são sempre os heróis na história da humanidade. Aqui vemos o quanto é importante a educação numa sociedade. O caminho para o pensamento crítico. Um direito básico da humanidade, mas que é negado a muitos. “Eu me dei conta de que todos esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem limites” (p. 52). Na adolescência, a Firdaus vai desenvolver sua sexualidade forçada dentro da própria família, quando é destinada a um casamento arranjado com um homem 50 anos mais velho que ela. A violência doméstica então passa a fazer parte de sua realidade. Nos deparamos com a objetificação do corpo feminino da forma mais sombria e violenta possível. “Em certa ocasião ele me deu uma grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de contusões” (p. 75). É na vida adulta que a personalidade de Firdaus vai ser formada. Sem família, sem acesso à trabalho, universidade, totalmente em situação marginalizada nas ruas de Cairo, a única solução que encontra para preservar sua independência, é a prostituição. Através prostituição, Firdaus assume e garante sua liberdade de expressão, o domínio sobre o seu corpo, sua autoconfiança, sua independência física e subjetiva. Não representa apenas sua forma de reprodução de vida (dinheiro, comida, casa). Mas, uma denúncia social. Uma denúncia contra ao sistema opressor, violento, sexista que através de seus distintos dispositivos (religião, política, mídia, casamento) amordaçam uma parcela da população: as mulheres. “Eu sabia que a minha profissão tinha sido inventada por homens, e que os homens controlavam os nossos dois mundos, este da terra e o outro no céu. Sabia que os homens forçavam as mulheres venderem seus corpos por um preço, e que o corpo de valor mais baixo era o da esposa. (...) Eu era inteligente, e por isso preferi ser uma prostituta livre em vez de ser uma esposa escravizada” (p. 138). Uma obra que escancara a realidade em sua essência crua. Um cárcere social, qual está longe de ser desfeito, mas, que a partir de vozes e presenças como a da Firdaus, vai se enfraquecendo aos poucos. “Eu não desejo nada. Eu não espero nada. Eu não temo nada. Portanto, estou livre. Porque durante a vida o que nos escraviza são nossos desejos, nossas esperanças, nossos medos. A liberdade da qual eu desfruto enche-os de ódio” (p.151). Uma leitura importante. Um relato necessário.

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    Nawal El Saadawi

    NAWAL EL SAADAWI foi ativista e escritora, reconhecida internacionalmente por sua luta pelos direitos das mulheres no Egito e no exterior. Nasceu em 1931, em uma aldeia ao norte do Cairo. Em 1955, formou-se em Medicina na Universidade do Cairo, onde especializou-se em Psiquiatria. El Saadawi teve uma trajetória de vida marcada por perseguições políticas. Seu posicionamento afiado e suas críticas contundentes à sociedade árabe culminaram em sua demissão na Secretaria de Saúde Pública do Egito, em 1972, e em sua prisão, em 1981, por supostos "crimes contra o Estado", entre outros confrontos com autoridades ao longo de sua vida. Teve uma produção prolífica, entre ficção e não ficção, publicando mais de 40 obras, muitas delas traduzidas e publicadas em dezenas de países. Morreu no Cairo, em 2021, aos 89 anos.

    19 Livros
    7 Seguidores

    Nawal El Saadawi