Contribuição de grande relevância para a historiografia amapaense, com fatores interessantes na temática trabalhada, na metodologia utilizada na abordagem e, sobretudo, na proposta estabelecida pelo autor.
As missões jesuíticas na região do Oiapoque constituem temática de raríssima produção bibliográfica, percebendo-se até mesmo ineditismo no cenário nacional, envolto em grande desconhecimento.
A partir do fato, o autor fez uma interessante investigação sobre as missões e correlação com povos indígenas, em termos gerais, nos idos coloniais, conforme percepção no contexto escolar. Os resultados, seja em livros de abrangência nacional ou regional, além de conteúdo limitadíssimo, apontam conhecimento que vem se perpetuando com europeização (a História resumida a ações europeias no chamado "Novo Mundo"), invisibilidade dos povos nativos (apresentados sem protagonismo, obliterados em sua identidade, reduzidos a coadjuvantes na História) e estereótipos diversos (no paralelo entre civilizados europeus e selvagens indígenas).
Esse é o primeiro atrativo do livro, a abordagem que se desvincula do tradicionalismo e vai em busca do conhecimento histórico em fontes do contexto - desconhecidas cartas jesuíticas.
Em seu processo construtivo, de cerca de dois anos, a obra teve como metodologia a análise dessas desconhecidas cartas, de origem missionária francesa setecentista, onde o conhecimento expresso permite ressignificações sobre as missões e povos indígenas.
Entre outros aspectos abordados no livro, o cenário visualizado é de região até então pouco valorizada no contexto governamental, com disposições missionárias em condições desafiadoras, onde ocorreram mortes, doenças e impactos culturais como a poligamia. Havia a valorização da catequese para as crianças (mais suscetíveis a proposta jesuítica) e com o tempo, nos interesses crescentes sobre a região, ocorreram 'concessões' dos padres para manter a influência.
Entre os ameríndios, a adesão às missões também tinha interesses, como fuga do domínio português e visão diferenciada atrativa que os padres aparentavam em suas práticas espirituais, interpretados como xamãs, ressignificando posicionamentos.
Na proposta do livro, ênfase para a valorização no ensino escolar dessa documentação epistolar outrora desconhecida, motivando-se construção do conhecimento na investigação. Possibilidade viável, instigante a criticidade e interpretações mais coerentes com a realidade histórica, especialmente na região do Oiapoque, campo abordado pelo autor, em novidades destacadas para a historia.
Ressalte-se que o Amapá tem grande parte de suas terras homologadas como unidades indígenas, durante século foi cenário de disputa territorial e tem curso voltado para a área indígena.
O livro é mais abrangente que essas meras considerações e vale muito a conferida.
Precioso em redescobertas e precioso em proposta escolar.