Complementaria de "Trópico de Cáncer", esta obra nos sitúa en los años inmediatamente anteriores a la etapa parisina del mismo personaje, en muy alto rado identificable como el propio autor. Tanto el tono y los temas como el estilo son muy similares, si bien en este caso el grueso de la novela lo ocupan las vicisitudes de un empleado de una importante compañía de telégrafos que subvierte todas las normas establecidas por la compañía y logra con ello, si no un funcionamiento mejor de la empresa (tampoco peor), que los empleados sean más felices. Junto a ello, de nuevo aparecen los diversos encuentros sexuales, que le alejan por momentos de la presencia de una esposa que se ha hecho ya insufrible, así como las relfexiones acerca de la degradación moral del ser humano en un época tecnificada que despersonaliza al hombre
Trópico de Capricórnio -
Henry Miller
"Trópico de Capricórnio", de Henry Miller
Quando se fala em Henry Miller, não só entre nós, homens letrados, mas entre qualquer um que tenha lido qualquer resenha de sua obra, logo e a única coisa que vem à mente é um homem pornográfico e viril o máximo possível, transbordando poesia e literatura como um bacante moderno numa surreal Paris dos anos 30, poética até à medula, erótica em cada olhar, mesa de restaurante ou casarão em decomposição engolfado pela neblina e apatia parisienses. Mas isso tudo é apenas um poslúdio daquele um tanto mais profundo, pornográfico e cru tratado da modernidade que li em minha juventude na tradução de Aydano Arruda, um tratado de uma modernidade que já se mostrava senil: Trópico de Capricórnio. Esse livro veio parar em minhas mãos de forma obscura e misteriosa num período onde a tribulação, a fraqueza, o vazio e a falta de esperança me atingiam de forma enlouquecedora. Antes de tudo, Miller era, da forma que falei, esse bacante moderno conhecido apenas por aquele erotismo que envolvia Trópico de Câncer o que quero dizer com isso tudo é que, ainda hoje, mal sabem que ele é mais que erotismo, pornografia, rebeldia e embriaguez O que me deixa mais desconfortável é que tomem Trópico de Câncer como a realização máxima de um lirismo dionisíaco de Miller. O que percebo é quase o oposto, ou seja, que tal obra essencialmente não deveria existir em separado de sua irmã: Trópico de Capricórnio. Se Câncer é o tratado lírico-erótico de uma Paris inebriante, Capricórnio é sua antítese: o horror niilista, incompreensível para qualquer alma comum e média foi preciso que Miller se desvencilhasse dessa mediocridade para que pudesse ser minimamente capaz de escrever Câncer. Talvez seja exatamente por isso que tal obra, Trópico de Capricórnio, que foi escrita depois, mas cuja história se passa antes da ida de Miller a Paris, seja vista muitas vezes apenas como um prelúdio a uma elevação muito maior que foi Câncer. E eis o ponto a que eu queria chegar: ela é incompreensível para a alma média, pois tais almas muitas vezes não se entregam com tanto suor, sangue, sofrimento e paixão quanto Miller verteu em seus turbulentos dias em Nova Iorque. É preciso compreender o nada da existência, ter vontade de se afogar no Golfo do México, é preciso afundar-se de modo inumano nos mais baixos, sujos, frios e musgosos esconderijos da existência e ruminar como um camelo suas cargas ideológicas da primeira metamorfose do espírito: ruminar uma existência sem sentido, uma existência que não havíamos pedido abortar-se voluntariamente uma existência que só é preenchida pelo vazio sensorial que acomete Miller em sua odisseia pelo Brooklin e suas mulheres com doenças venéreas e perfumes baratos, os colegas de trabalho medíocres com seus escritórios sufocantes de ar de perpétua flatulência tudo isso é preciso ser deixado de lado para se alcançar a metamorfose, a transmutação do espírito apenas aí se é capaz de escrever uma obra como Trópico de Câncer, uma obra lírica, pura, inocente, mesmo em meio à fealdade e degeneração penas quem é capaz de fugir do caos pode dançar e iluminar como uma estrela. Não é de se admirar que depois de ter alcançado a Paris tão desejada, a selva de ideias, mulheres, poesia, bebida, pobreza, riqueza e arte, Miller tenha desejado se tornar criança fiquem espantados quando a próxima transmutação seja em criança: o ego dissolvido, a fuga das amarras, tudo isso leva esse ser inocente a construir seus próprios valores; mais afirmador que um bacante, uma criança passa pela vida sem reservas. Não é de se admirar que Miller desejasse no fim de sua vida alcançar tal grau de elevação onde pudesse (como uma criança) escrever apenas nonsense (!). Por isso tudo surge, no Trópico de Capricórnio, sua admiração por aqueles seus irmãos metafísicos aqueles seres de nomes exóticos que Miller só veio conhecer tempos depois, a prova de sua necessidade metafísica e a prova derradeira de que ele era o irmão espiritual daqueles homens artísticos que podem se comunicar clara e belamente através do tempo e do espaço como nenhuma máquina será um dia capaz de fazer os homens se comunicarem: Tristan Tzara, André Breton, Hugo Ball, Guillaume Apollinaire, os surrealistas franceses, os dadaístas que usavam as palavras como crianças Trópico de Capricórnio é, como o próprio Miller diz, uma negação e uma afirmação da vida em um único tratado: não há valor que nos motiva, mas esse fatalismo por si é o maior e único motivador dos espíritos-livres, e apenas dos espíritos-livres há uma passagem onde Miller diz: eu imaginava que em algum lugar fora de mim, na vida, como dizem, estava a solução para todas as coisas. Procurei algo a que agarrar-me e nada encontrei. Dizer sim e não, mas dizer Sim acima de tudo! Nova York e sua degeneração são necessárias para gerar aquele que irá criar uma obra que nenhum parisiense poderia escrever: ele não estava no topo de uma bela montanha, muito menos no lago de uma planície: para retratar as pessoas daquela forma surreal que Miller faz é preciso estar em paralelo com o cosmo que o cerca, olhar a humanidade nem de cima nem de baixo, mas da mesma altura: dali de cima na ponte do Brooklin. Julgo essa obra de Miller mais importante que Trópico de Câncer ou Sexus, Plexus, Nexus, pois ela é o símbolo daquela que é a primeira, tão difícil, árdua e necessária metamorfose do espírito. Sem ela, nada é possível de ser criado. Miller retrata com maestria surreal essa metamorfose sem se ater a conceitos filosóficos ou acadêmicos, sem usar de psicologia ou filosofia baratas, sem recorrer a críticas ressentidas, sem utilizar ataques baixos ou uma ofensiva cega e não retira sua força para a fuga de livros ou de filósofos: retira da própria vida e da própria morte toda a experiência necessária para a dança, para o renascimento e para a criação.
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