Parte I:
Jerusalém ocupa lugar excepcional no espírito dos crentes das três religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para os judeus, ela continua a ser a cidade de Davi, lugar de eleição da realeza teocrática e centro político-religioso unificador do povo de Deus. Quando os romanos a conquistaram no ano de 70, seus edifícios religiosos, muralhas e o templo de Herodes foram destruídos a mando de Adriano, sendo a cidade santa profanada e consagrada a Apolo. Com a diáspora, aos crentes exilados restaram apenas lembranças dos vestígios intactos do Templo, isto é, das fundações do muro de sustentação da esplanada mais conhecido como Muro das Lamentações. Essa lembrança piamente conservada ligava-os às raízes e glórias passadas, preservava sua identidade e projetava-os num futuro restabelecimento de Israel, aspiração dos crentes de todas as épocas. Malgrado a dispersão e as perseguições, a espera do tempo messiânico e a atenção meticulosa dedicada à preservação das tradições garantem a continuidade de sua identidade étnico-religiosa. Ligada a esses dois polos o passado e o futuro a peregrinação a Jerusalém continua uma constante nas comunidades judaicas da idade Média, mesmo nas mais integradas às sociedades dos países em que viviam.
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Parte II:
Porém, para o homem medieval, o maravilhoso exerce, sobretudo, uma função de realização, não de evasão. Ele dilata o mundo e a psique até as fronteiras do risco e do desconhecido. Inserindo-se no natural e no real, ele o amplia e o complementa. Faz do surpreendente e do extraordinário o motor do saber, da cultura e da estética da Idade Média. Estimula a abrir bem os olhos para a criação e o imaginário. Inspira uma cultura do surpreendente. Faz acreditar na criatividade e na audácia infinitas de Deus e de sua criatura, o homem. E sabe mesmo extrair o mel das fantasmagorias diabólicas. O maravilhoso amplia a realidade vista e conhecida até as fronteiras do universo e da alma humana, consolando de suas frustrações a criatura decaída pelo Pecado Original, o cristão medieval, a quem entreabre uma janela para os segredos de Deus e da Criação. (Maravilhoso Jacques Le Goff)
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Parte III:
A Idade Média continua a viver no contexto de uma natureza que é tecida de símbolos e discurso divino figurado (bem cedo transposto para representações pictóricas e escultóricas). Mas a experiência da natureza conhecerá profunda transformação entre os séculos XII e XIII, em um novo contexto econômico e político: das zonas fronteiriças da Europa oriundas sobretudo da Itália meridional e da Espanha começam a afluir traduções de textos científicos e filosóficos gregos e árabes que, sem dificuldade, encontram acolhida nos novos meios escolásticos do século XII, impondo-se em seguida nas universidades. No espaço de aproximadamente um século, vê-se constituir uma biblioteca de textos até então desconhecidos de física, astronomia, medicina, alquimia e magia, permitindo descobrir a riqueza perdida da especulação aristotélica, helenística e árabe. Trata-se de textos que, produzidos antes da tradição religiosa cristã ou fora dela, propõem uma concepção do mundo e do homem, uma filosofia natural e uma metafísica estranhas à modesta enciclopédia das artes liberais conhecida pela Alta Idade Média. Nesse contexto racional, desponta uma ideia de natureza desligada de transposições e interpretações simbólicas, fora da esfera do sagrado, dotada de uma consistência ontológica própria e de uma habilidade causal ligada mais diretamente à vida cotidiana do homem. O sucesso imediato dos textos de medicina, astrologia e magia indica muito bem o campo de novos conhecimentos que de repente se abriu. É significativo que se tenha tomado consciência, desde a primeira metade do século XII, da radical importância dessa ciência dos árabes que nasce quase inteiramente do quadrivium (Daniel de Morley, Philosophia) e que vem satisfazer um velho desejo insaciável de filosofar (Hugo Sanctallensis).
A cultura europeia compreendeu imediatamente a profunda originalidade dessa descoberta da tradição filosófica grega e árabe: o homem é inserido em um sistema físico onde a natureza não mais se define por suas referências simbólicas, como linguagem de Deus, mas pelo fato de que foi criada por Deus segundo uma lei que funda e garante a própria natureza dos seres (é essa lei que chamo natureza, escreve Daniel de Morley), e que cada ser cumpre de maneira inviolável. Essa natureza define-se como uma ordem, um encadeamento (nexus), uma série de causas, um laço (vinculum) e uma regra do mundo, como objeto próprio de uma razão natural até então desconhecida. Com relação a isso, é exemplar a posição sustentada por Adelardo de Bath nas Quaestiones naturales. Pioneiro da nova cultura, tradutor dos Elementos, de Euclides, e do Centilequim, do Pseudo-Ptolomeu, Adelardo recupera a razão aprendida com os mestres árabes para opor, ao estabelecimento da relação direta entre fenômenos naturais e vontade de Deus, uma busca precisa de causas: Examine [as coisas] mais de perto, considere, além disso, as circunstâncias especiais, destaque as causas em vez de admirar os efeitos (Quaestiones naturales, 6, 64). (Natureza Tullio Gregory)
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Parte IV:
Entre esses tempos significativos, muito dependentes da natureza, do nascer e do pôr do sol, do ritmo das estações, marcados pelo medo da noite, emerge o tempo religioso (em particular o tempo monástico), o tempo camponês de um mundo essencialmente rural, o tempo urbano construído pelo desenvolvimento das cidades, o tempo guerreiro privilegiando a primavera e o verão, o tempo senhorial, ritmado pelas expedições militares, homenagens e datas de pagamento dos encargos camponeses, o tempo do mercador, por longo tempo prejudicado pela impossibilidade de navegação durante o inverno, o tempo público imposto pelos reis e príncipes segundo o ritmo da construção do Estado moderno. Numa sociedade na qual a expectativa de vida é fraca (forte mortalidade infantil, expectativa de vida de menos de 40 anos para as crianças de mais de um ano), o tempo da vida engendra ainda tanto o prestígio dos anciãos, em particular dos monges, submetidos a uma vida mais higiênica, quanto uma sensibilidade ambígua em relação à vida frágil dos jovens. (Tempo Jacques Le Goff)
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