Você é daqueles que acham literatura policial literatura menor? Então, permita-me discordar. E uso como prova este romance aqui: "Laura".
Filmado em 1940 com a bela Gene Tierney e Dana Andrews nos principais papéis, "Laura" alterna vozes narrativas com habilidade - é bom prestar atenção não apenas ao que cada narrador/ narradora conta, mas também ao que não conta; um erro comum é o leitor deduzir que algo foi dito quando não foi; tratou-se somente de elusão, suspeitas - e nesse caso, uma suspeita tanto pode levar a A quanto a, digamos, C...
Outra coisa: os diálogos. São requintados, elegantes, como não se imaginaria, talvez, que um americano escrevesse; o desleixo de hoje faz-nos esquecer de estilistas da frase como Hemingway ou Edith Wharton - ambos americanos da primeira metade do século XX.
A fazer notar, ainda, como Vera Caspary desenvolve a trama policial ao mesmo tempo em que vai deixando subentendida uma trama de amor que é, no mínimo, inusitada. Afinal - quem pode se apaixonar por alguém a quem nunca conheceu - uma pessoa morta?
A galeria de personagens é mais um destaque. Um crítico ferino, uma dama cínica, um candidato a cafetão, uma mulher carismática, um detetive semialeijado cujo 'erro' foi aprender que existe mais na vida do que dinheiro e posses.
"Laura" eleva, se preciso for, o conceito de literatura policial. Boa escrita com surpresas na trama bem antes da última página...
Responda: alguém poderia se apaixonar por uma pessoa morta?