Os meus amores -

    Trindade Coelho

    Projecto Adamastor
    2018
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9789898698360
    Português

    "Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa!… Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas. ― Ouvistes? ― ralhara-lhes a mãe. ― Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio, mato-vos com pancada! Andai lá… Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras… Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao rio. Aos pássaros, sim… ― lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo ― … aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe que o soubesse… Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto! Logo de manhã, mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo, ― lindo barquinho! ― sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá. De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu ― «adeus até amanhã!» ― àquele pequeno objecto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo… Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada…"

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Maria Carolina picture
    Maria Carolina29/11/2025Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Pequenas ternuras portuguesas que aquecem, mas não arrebatam... A delicadeza que mora nas aldeias… e nos contos que quase passam despercebidos.

    Seguir avançando nessa coleção tem sido uma experiência curiosa… porque cada nova obra portuguesa abre mais uma porta para uma cultura que eu só tinha visto de longe, e ainda assim, começo a perceber que inevitavelmente comparo cada leitura às anteriores. Os Meus Amores foi uma leitura boa, doce, cheia daquele tom afetuoso que envolve devagar, mas confesso que não me arrebatou como outras obras da coleção, até as mais frufrus. Acontece… a estrada literária é mesmo assim, às vezes intensa, às vezes calma até demais... O livro é dividido em três partes, Amores Novos, Amores Velhos e Amorinhos. E é justamente nessa estrutura que Trindade Coelho mostra seu talento… ele escreve como quem lembra, como quem observa, como quem recupera as pequenas vibrações da vida das aldeias transmontanas. Existe uma sobriedade bonita na escrita dele, uma honestidade no modo como retrata o povo português, seus gestos menores, seus costumes, seu modo de falar e de amar. Não há exagero… há carinho. E isso dá ao livro aquela aura de memória viva. Entre os textos, o meu preferido foi Sultão. É um conto simples, quase uma anedota… mas que traz um encanto especial por tratar da relação entre as pessoas e seus animais, e por revelar o coração das aldeias de forma terna e sutil. Sultão é um personagem delicioso… um cão esperto, leal, cheio de nuances, que parece compreender os humanos melhor do que eles próprios se entendem. Ele tem aquela energia que mistura humor com emoção, e foi impossível não simpatizar com ele. É o tipo de conto que me arrancaria um sorriso mesmo num dia mais difícil. Ainda assim, é impossível ignorar que, chegando a esse ponto da coleção, as comparações internas com outras obras começam a pesar. Depois de obras densas, obras brilhantes e obras profundamente dolorosas, Os Meus Amores termina soando mais leve, mais suave, talvez até simples demais diante do que veio antes. Não que isso seja um defeito… apenas faz parte do percurso. Alguns livros são dilúvios, alguns são tempestades, outros são garoas… e este aqui é um dia de céu limpo, apenas. Não é ruim, mas não vi nada de extraordinário. A leitura é apropriada para leitores a partir dos 12 anos. O conteúdo é seguro, terno, sem qualquer violência ou peso emocional profundo. O maior desafio é sempre o português antigo, que pode afastar leitores muito jovens, mas nada aqui é impróprio. A verdade é que foi uma leitura boa, mas não memorável. Relaxante, simpática, culturalmente rica… só não acendeu aquela chama que outros livros da coleção já acenderam. E tudo bem. Nem todo livro precisa marcar profundamente… alguns apenas nos lembram que há muitos jeitos de amar, e muitos jeitos de contar histórias sobre amor. Sinceramente... acho que não vale muito a leitura...

    2 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    2.9 / 6
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas17%
    • 2 estrelas50%
    • 1 estrelas0%