Kaddish - Prece por uma desaparecida

    Ana Castro

    Letramento
    2018
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9788595301757
    Português Brasileiro

    Escrever a biografia de uma pessoa desaparecida é como revirar escombros. Há que se ter cuidado ao remexer no que sobrou. Porque o desaparecimento é a mais cruel de todas as ausências. A morte, por pior que seja, oferece um ponto final. Mas a pessoa desaparecida permanece muito viva nos cantos remotos da alma de quem sobreviveu a ela, bem ao lado das cicatrizes abertas. Esse livro conta a história de Ana Rosa Kucinski Silva. Uma das 210 pessoas que ainda estão desaparecidas, desde a época da Ditadura Militar.

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    Berttoni Licarião03/11/2020Resenhou um livro
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    Kaddish: prece por uma desaparecida [2018] Ana Castro Letramento, 2018, 200p. A lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995, reconheceu como mortas “pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas”, entre 1961 e 1988, “e que, por esse motivo, tenham sido detidas por agentes públicos, achando-se, desde então, desaparecidas, sem que delas haja notícias”. Ana Rosa Kucinski, irmã do jornalista e escritor Bernardo Kucinski (K. Relato de uma busca), foi uma dessas vítimas, sequestrada pelas forças da ditadura em São Paulo, junto com o marido Wilson Silva, em abril de 1974. Como nos lembra a historiadora Janaína Teles, “o silêncio e o esquecimento introduzidos pelo terror do desaparecido criam uma situação sem fim, perpetuando a tortura que é vivenciar a ausência dos corpos e de informações a respeito de parentes queridos". O desaparecimento impossibilita o trabalho de luto e impede familiares de exercer aquele mesmo direito pelo qual morreu Antígona, o enterro dos corpos. Quarenta anos depois, mesmo após uma Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e outra Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (1995-2004), além das comissões estaduais, não sabemos com exatidão o que aconteceu com a professora de Química da USP e militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), nem para onde foi levada, nem como morreu. Tampouco a biografia escrita pela jornalista Ana Castro é capaz de dar conta das circunstâncias de desaparecimento, tortura e assassinato praticados pelo Estado. O esforço, aqui, se volta à contar e celebrar a vida de Ana Rosa, construída a partir de cartas e depoimentos de amigos e familiares. Um percurso narrativo que relata os momentos mais cruciais do estado de exceção brasileiro iniciado em 1964 e, ao mesmo tempo, cumpre também a função de Kaddish, uma prece-ritual judaica em memória dos falecidos. Muito bom material para quem quiser pesquisar sobre atuação de mulheres na luta armada, memória da ditadura e/ou, claro, a produção ficcional Bernardo Kucinski.

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