O Raposo -

    D. H. Lawrence

    Sistema Solar
    2014
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9789898566287
    Português

    The Fox é um conto longo ou uma novela pequena. Um enredo muito simples, cheio de reverberações. A raposa (no masculino em inglês) que assalta a quinta de duas mulheres é abatida por um rapaz que regressa da guerra e aí toma o seu lugar como predador. Ele conquista uma das amigas e enfrenta a outra, que acaba por matar numa espécie de acidente domestico.

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    Rolando S. Medeiros11/12/2024Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Apenas uma Mulher ou a Ilusão da Felicidade

    “Mas o fim do arco-íris é uma fenda sem fundo na qual podemos cair e ficar caindo para sempre, e o horizonte azul é um abismo de nada que pode nos engolir e engolir todos os nossos esforços, e ainda continuar vazio. Nós e nossos esforços. Eis a ilusão da felicidade atingível!’’ The Fox - ou Apenas uma Mulher, como foi traduzido - é uma novela psicológica de noventa e poucas páginas. A decisão de optar por uma tradução não literal do título, percebe-se após a leitura, mostra ser deliberada e dotada de significado: é evidente a mudança completa na narração do terço final do livro, demarcando claramente duas linhas narrativas com diferente tom. A Raposa, portanto, se levado ao pé da letra, trata-se da maior (e melhor) parte da obra; enquanto Apenas uma Mulher se trata da reta final e desfecho. Apesar de ser possível tratar ambas separadas, a exemplo dessa resenha, na leitura, no entanto, as partes são indissociáveis uma da outra. A Raposa representa a lenta construção da narrativa, a imagética do animal, a vida serena (mas não fácil) de duas mulheres em uma pequena fazenda durante um duro momento do final da Primeira Guerra Mundial. Somos lentamente inseridos na vida dessas duas personagens com uma construção morosa e limitada pelo narrador, que vai nos enlevando com apenas petiscos de informação, numa queima lenta deliciosa. A primeira mudança se dá quando Nellie (a mais trabalhadora, mulher forte e carpinteira) começa a se sentir pertubada por uma raposa que aparece na fazenda — ou, uma palavra melhor, mesmerizada pela raposa. O olhar da raposa penetra sua alma, invade seus sonhos, e ela vai se tornando uma pessoa avoada, obcecada pelo animal; a prosa aqui, adquire um tom quase místico. ''March olhava tudo isso, via tudo isso, mas na verdade não percebia nada. Ela ouviu Banford conversar com as galinhas lá longe — mas, na verdade, não ouviu. O que estaria ela pensando Ninguém sabe. A consciência de March estava, por assim dizer, em suspenso. Ela baixou o olhar e, de repente, viu a raposa. O animal a encarava. O focinho estava abaixado, mas os olhos, erguidos. Os olhos da raposa e os da moça se encontraram. A raposa a reconheceu. March ficou sem ação. Ela percebeu que a raposa a reconhecera. O animal olhou March nos olhos, e ela sentiu que a alma lhe fugia. A raposa a conhecia, e não estava intimidada.'' Esse tom se estende inclusive durante a chegada inesperada de um soldado de dezoito anos na fazenda. O rapaz tem uma aparência vulpina, é educado e distante. A partir do acolhimento (provisório) dele pelas duas mulheres, somos levados num mergulho psicológico, de questões de gênero a repressão do desejo; ciume, tensão (mental e sexual) e muito mais; é a partir daqui, também, que Lawrence despende mais energia ao desenvolvimento das personagens e menos nas paisagens e nas descrições. Personagens por sinal muito bem escritas, dotadas de desejos escondidos, ambíguos uns com os outros, intimimanete complexos. No meio dessa fábula moderna, da materialização da expressão idiomática (the fox in the henhouse - que já dá pistas do desfecho), da imagética, da forma e do estilo, ainda há, para além de tudo, uma narrativa sobre dependência, submissão, ideal de felicidade e inalcançabilidade. É trágico, mas o Lawrence não toma partidos, e não exime ninguém da culpa. Ele se mantém afastado, faz-nos vislumbrar um abismo bem específico: o falso contentamento, o revés que é a nossa felicidade depender de fatores externos. ''Se Jill tivesse se casado, seria a mesma coisa. A mulher se esforçando para fazer o homem feliz, esforçando-se em seus próprios limites por fazer o bem-estar de seu mundo. E sempre colhendo fracassos. Pequeninos sucessos úteis relacionados a dinheiro e carreira. Mas justamente no ponto em que o sucesso era mais desejado, no angustiado esforço de fazer algum amado ser humano feliz e perfeito, aí o fracasso era mais catastrófico. Queremos fazer o ser amado feliz, e a felicidade dele parece sempre atingível. Basta fazer isso, isto e aquilo. Fazemos isso, isto e aquilo com toda boa-fé, e, de cada vez, o fracasso parece mais horrível. Podemos nos dilacerar de amor e nos desgastarmos até os ossos, e as coisas vão sempre de mal a pior, de mal a pior na busca da felicidade. O terrível engano da felicidade.'' Justamente por se manter afastado, nunca expor além do necessário, nunca sabemos se Nellie e Jill são um casal sáfico, um casal bissexual, um "casal" inconsciente da própria relação, ou, apenas amigas íntimas que se unem por dependência e pela independência de viver e cuidar de uma fazenda sem nenhum por perto. (É definitivamente um dos temas da novela e minha interpretação vai por esse lado: uma união que se pauta na independência feminina e não necessariamente na questão da orientação sexual). Abrem-se as interpretações, o que é bom, de certa forma; mas de outro lado abre caminhos exageradamente idealizados — mais por culpa dos leitores do que da obra — que na minha humilde concepção não estão lá, ou não estão claros o suficiente para que se crave nem uma coisa nem outra. Por exemplo, não entendo as múltiplas resenhas aqui no site que pontuam a história como misógina. É explicito, literal, que o Henry é vil, dotado de sentimentos amorosos ao mesmo tempo honestos e disformes, com uma visão terrível, manipulador, possessivo, premeditado amorosa e materialmente; ele é, literalmente, a personificação da raposa fabular que adentra a choupana e devora as galinhas. A maneira com que é narrado apenas demostra a acuidade com que o Lawrence constrói as personagens, e, nem com a invasão final de um narrador onisciente (que por sinal quebra a narrativa e se torna um problema fruto da perda de fôlego da novela), nem com o longo monólogo final, onde o narrador, cristalina e transparentemente explora a passos largos a psique dos dois personagens algumas pessoas não conseguem dissociar o narrador do escritor. Isso que a maioria das resenhas que li e seguem essa linha foram escritas em inglês. Por fim, algumas notas adicionais e aleatórias: Foi lido numa sentada, ou melhor, numa deitada; a tradução é do famoso escritor J.J Veiga (que achei bastante boa, como verá pelas quotes.) No entanto, lendo as citações em inglês, senti que no idioma original flui muito melhor a aura de "fábula recontada", de misticismo, de prosa poética. Para os próximos do autor vou buscar a versão original. A fama de escritor polêmico, de exagero no aspecto sxual e mão pesada, é pouco vista aqui, o que faz com que essa novela seja provavelmente uma boa porta de entrada para o autor. Assim como seus contos. Meus problemas com a história foram mais formais e não temáticos: geralmente a crítica que se faz a ele é inversa. Obviamente, eu não entreguei tudo nessa resenha, o motivo da história traduzida se chamar “Apenas uma Mulher’’, por exemplo, você deve ler e descobrir. É uma leitura válida, tanto pelo fruir literário quanto pela discussão suscitada, interesse-o pela estética ou pelas questões mais filosóficas de relação humana. ''Quanto mais estendemos a mão para a flor fatal da felicidade, que balança tão azul e linda numa fenda logo adiante, com mais pavor percebemos o perigo do precipício terrível, no qual inevitavelmente cairemos se nos esticarmos um pouco mais. Vamos apanhando uma flor após outra — e nunca apanhamos a flor. A flor mesma — seu cálice é um abismo horrível e sem fundo. Essa é a história da busca da felicidade, seja a nossa, seja a de outro por nós buscada. Ela termina, como sempre, na sensação apavorante daquele nada no qual inevitavelmente cairemos se nos esticarmos um pouquinho mais.''

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