A História é um romance popular carregado de denúncias e reflexões sobre questões sociais e políticas que envolveram a guerra e as relações humanas, o individualismo e a desinformação, além de, do ponto de vista sociológico abordar o problema da desigualdade social e de gênero. É um romance ambientado nos bairros populares de Roma, permeado por um espírito de protesto, exaltando personagens humildes e valorizando-os em detrimentos dos personagens poderosos, oferecendo a nós leitores, uma opinião clara e definida, a partir do ponto de vista dos excluídos, sobre os fatos históricos.
O argumento utilizado pela autora de usar como papel central a maternidade para defender o papel feminino na determinação do percurso intelectual e cultural dos indivíduos foi assertivo e pontual, porque a crueza da realidade que nos é exposta nessa história se depara com o lirismo das suas palavras e a construção de imagens fortes nos oferece ao mesmo tempo desenhos delicados de personagens frágeis. Por isso é tão essencial nesse aspecto a identidade feminina da protagonista do romance assim como a criança enfraquecida pelas crueldades da história como ocorreu ao pequeno Useppe.
Eu fiquei maravilhado em constatar depois de cem páginas lidas o porquê de a autora escolher a "mater dolorosa" como protagonista para estabelecer um diálogo, mesmo em silêncio, o que Elsa faz recorrentemente com maestria e perfeição, com tantas outras mães sofredoras e piedosas. A personagem Ida Ramundo me pareceu a proposta de representação da maternidade, a partir de diversos personagens que encarnam o ser mãe como um processo de construção da individualidade e de expressão de si mesmo perante o outro. Nós, leitores, somos convidados a ver essas mães. E nos apaixonamos pelas suas jornadas e trajetórias até o fim de suas vidas.
O mutismo de Ida, a fraqueza intelectual de Nino, o infantilismo da linguagem de Useppe, as dores psicológicas de Davide Segre, a fábula da Cachorra-Lobo Bella, e tantos outros personagens que passearam pela jornada desse romance demonstraram as suas limitações na luta pela sobrevivência e por um lugar na história. Um lugar nessa história italiana marcada por longos períodos de guerras, miséria, fome e um forte senso de individualismo. E de maneira brilhante e perspicaz, levando um certo lirismo e poesia na obscuridade humana, Elsa Morante, conseguiu narrar em tom de fábula fatos culturais e históricos de um século permeado de um extremo ao outro pela violência em suas mais variadas formas que a mente humana pode inventar e concretizar.
Sem dúvidas, foi o melhor livro das minhas leituras de 2020.