Se o sujeito contemporâneo vive uma crise existencial a literatura não poderia se furtar em expressa-la. Já Theodor Adorno em sua Palestra sobre lírica e sociedade destacou aspectos do vigor coletivo da lírica contemporânea, contrapondo-os aos da lírica tradicional, com o cuidado de averiguar a relação entre as manifestações individuais do sujeito e o sentido coletivo dos aspectos sociais manifestados no gênero lírico. Em nossos tempos, a composição literária representa a impossibilidade do domínio de tantos apelos da realidade. A subjetividade desenvolvida pela narrativa moderna converteu o relato em um contrário da narrativa clássica e fez dele um testemunho da situação do indivíduo que liquida a si mesmo nesses tempos em que não se pode mais garantir o mundo cheio de sentido. Acresce a essas circunstâncias, outra de igual importância e profundidade. Os gêneros literários seguem ultrapassando vários de seus limites, fronteiras classificatórias estão fragilizadas e, mais do que nunca, o escritor mistura tendências e formas, o que dificulta – ou reestrutura – classificações. Assim a análise literária passou a utilizar abertamente, entre outros termos, a expressão lirismo em prosa. Decorre então que a crônica brasileira vem recebendo um múltiplo enfoque estrutural por parte dos escritores em textos capazes de ressaltar o valor da subjetividade e filtrar o momento cotidiano. Adensa-se a espessura do texto literário, tornando-se, pela elaboração da linguagem, pela complexidade interna, pela penetração psicológica e social, pela força poética ou pelo humor, uma forma de conhecimento de meandros sutis de nossa realidade. Em suma; provoca a ponderação reflexiva que nos conduz a pensar a condição humana
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O crítico Antônio Cândido admite vertentes quando afirma que há crônicas que são diálogos e propõem uma relação entre escritor e leitor; enquanto outras parecem marchar rumo ao conto, à narrativa mais espraiada com certa estrutura de ficção. Temos, aí, dois eixos essenciais do gênero: textos em que a marca subjetiva, a figura do autor, está fortemente delineada; ou, por outro lado, textos em que a imagem biográfica silencia-se e a ficcionalidade – criada por meio da narratividade – dá o tom. E então nos ocorre a ideia de que a escritura pode constituir a permissão da multiplicidade de sentidos, ou seja, o autor, não estabiliza ou aprisiona o sentido; na verdade, o leitor produz sentido, pois a voz perde a origem à medida que o autor se apaga, dando espaço à leitura e ao leitor.
Após lançar em 2018 o romance Apneia que teve boa acolhida de público e crítica, a escritora Beatriz Aquino lança agora esse volume de crônicas – A savana e eu –, onde alia admirável domínio da técnica narrativa a uma notável criatividade a confirmar um promissor talento. Com efeito, certos escritores(as) ainda que suas características essenciais comportem primeiro a expressão individual, conseguem através de uma peculiar lírica incorporar de modo requintado o ajuste necessário para a representação da realidade. Em “A savana e eu” observamos na maioria dos textos a presença muito diluída de enredos; delicadeza, sutileza e finura no tratamento dos temas; mesmo os que parecem mais cruéis ou mais trágicos; uma suavidade ou leveza de tons que atingem o poético pela superfície das coisas ao lado de uma extrema simplicidade de estilo, direto e claríssimo, mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir; elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo, porém, mas por sugestão do que por afirmação. São textos, porém, onde fremem contradições, impulsos e toda variada gama de sentimentos humanos.
Outra virtude inegável: a autora possui certa qualidade de camaleão. Ela está sempre adotando uma máscara, assumindo a identidade da pessoa de quem fala. E tal postura não nos parece estranha se tivermos em mente que a autora é também atriz de teatro com várias peças encenadas no currículo. Segue construindo suas ficções onde, por vezes, a crônica acaba se confundindo com o conto, narrativa satírica de profunda crítica social ou mesmo uma confissão, por causa da objetivação e da elaboração dos níveis ficcionais. Noutras vezes, o discurso alia a esse tipo de composição uma crítica através da negação ou estranhamento da realidade observada pelo narrador e percebida pelo leitor graças à identificação, de que é exemplo “A rainha está louca”. Todavia em textos como “Dor urbana – crônica de um suicida” e “Lá vai o trem com o menino”, o enredo, embora destramente planejado parece ocultar-se e desenvolver-se com uma inevitabilidade que é a da vida e não da autora. Há textos que surpreendem pois quando se pensa encontrar uma superfície de relatos aparentemente calma, lemos depoimentos de personagens que trazem no íntimo um vulcão que de vez em quando expele lavas. Ardendo e derramando lavas encontramos as personagens de “A histeria que a felicidade exige” e também em “Sobre beatices e sandices”, mas sempre personas à procura de felicidade e da harmonia, e o desejo de viver intensamente, mais com as cordas da alma do que com as fibras do corpo. Saliente-se também que o compromisso da autora com o ficcionismo não a impede de fazer arte social como acontece em “Mataram o senhor José Alfredo” e “A província cruel”. Até mesmo os textos menores, com a ligeireza e a espontaneidade de uma conversa inteligente, impressionam por um pormenor, uma observação, uma frase. Uma definição de existencialidade.
Entretanto, é no mundo do nosso dia-a-dia, em meio ao caos e à diversidade, que a senhora Beatriz Aquino tenta posicionar-se, estando ciente da instabilidade sempre presente, insurgindo-se contra as corrupções físicas e morais, a ausência de afetos verdadeiros, ou o mais completo desamor que vai permeando nosso mundo. São notáveis algumas crônicas que se utilizam do lirismo incontido e dos mitos particulares da autora, fundados sobre uma área limítrofe entre a observação do mundo real e o imaginário. É como se a crônica quisesse dar conta das insuficiências da vida real. Nelas se movem também as percepções da mulher que se vê sozinha no mundo a lutar contra todos e tantos tipos de opressão, inclusive os desesperos e desequilíbrios feministas, a solidão, a velhice, a morte, a sexualidade, o amor, e o sofrimento (a propósito vide o conto-título “A savana e eu”).
Ao escolher temas tão afinados com a condição do homem comum, os textos reunidos promovem uma transfiguração, graças à simplicidade das imagens e aos refinados recursos de linguagem que emprega, provando que um discurso aparentemente trivial pode conter um sentido para as possibilidades da existência num tempo e num espaço em que o homem é forçado a não se deslumbrar com o singelo e a se destruir com o tédio ou vivendo uma existência de consumo desenfreado, informações rápidas, experiências breves e mal vividas. O leitor percebe o sentido da criação literária partindo da individualidade do ser que se vê estranho em meio à sociedade, para atingir uma condição social (especialmente no sentido espiritual) superior. Assim, há algo de muito objetivo na operação artística da cronista, pois os textos gritam por adeptos de uma qualidade de espírito, de memória, de delicadeza e de sensatez irrestrita.
As crônicas deste livro vão sendo definidas e mapeadas sorrateiramente, e o leitor permanece enredado pela linguagem. Tanto no nível sentimental quanto no nível analítico há o tratar de sentimentos e percepções sensórias. Como um patamar não atrapalha o outro, eles se fazem interdependentes. E as crônicas acabam resultando na expressão sincera da consciência de um dado evento ou memória, seja ele problema grave ou questão banal. O resultado é a emissão de um ‘parecer’ com elementos críticos racionais e emoção, via de regra temperados com boa dose de humor ou sarcasmo. Positivamente os personagens da senhora Beatriz Aquino estão habituados a saltar de um desses níveis a outro sorrateiramente (fugindo da reificação e evitando sentimentalismos), sem aviso para o leitor, que conclui a leitura do volume completamente atônito, porém mais humano.
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