Para conseguir entender todo o impacto que a edição 121 de "Amazing Spider-Man" teve na nona arte, se faz imprescindível contextualizá-la. Digo isso tanto na história específica dos quadrinhos, na qual a edição teve um caráter de divisor de águas, quando no contexto sócio-histórico daquele período. É uma HQ sobre o fim de ilusões e a necessidade de encarar realidades não só amargas como, principalmente, irreversíveis.
Na primeira metade dos anos setenta, já ia ficando claro, até mesmo para os civis comuns estadunidenses, que a longeva Guerra do Vietnã (1955-1975) tinha sido um tiro no pé dos outrora imbatíveis Estados Unidos da América. Tanto no âmbito técnico e bélico, pela resiliência dos exércitos do então Vietnã do Norte, quanto pelo desgaste cultural e político que as imagens do genocídio de asiáticos causava, finalmente o Tio Sam provaria uma dose do próprio veneno e terminaria uma de suas muitas intervenções militares internacionais voltando pra casa com o rabinho entre as pernas. Essa ferida no orgulho estadunidense, até hoje insuperada, em 1973 está às vias de se concretizar.
A inocência perdida nesse contexto é também a de Peter Parker, depois de reviver - duas vezes - o trauma da morte do Tio Ben, no qual se sugere co-responsabilidade involuntária dele, com a figura paterna do capitão e pouco depois, pior ainda, envolvendo a filha desse homem, confiada a Parker nos últimos momentos de vida do velhinho. Essa tragédia inescapável, que Stan Lee e, depois Gerry Conway (ao que me consta, contra a vontade de Lee), fariam o personagem (re)viver, são possivelmente os dois pregos mais importantes na chamada Era de Prata dos quadrinhos, caracterizada pela ingenuidade escapista e otimista - tendo, por sinal, nos quadrinhos do Aranha (claramente voltados para um público infanto-juvenil), um de seus maiores expoentes comerciais e culturais. Matar um personagem central naquela altura era uma revolução na nona arte que pegou muita gente de surpresa. É um efeito parecido como temos, hoje, com esse tipo de morte na série "Game of Thrones", nos lembrando que a vida tem que continuar mesmo após as perdas mais dolorosas.
Por fim, há o aspecto claramente emocional bastante carregado da narrativa, especialmente na edição 121, na qual, por mais que a escrita dos autores da época ainda exibam traços de linguajar infantilizado, invariavelmente permanecerá atemporal: a morte de Gwen é, em projeção inconsciente, a experiência do término do primeiro amor. Ou seja, é uma morte simbólica da namorada projetada como única, mas que invariavelmente tem que partir pra não voltar mais. Qualquer um que já viveu o rompimento de um primeiro namoro pra depois ter que tocar a vida sem essa ilusão - o que representa uns 90% das pessoas que conheço -, tem na morte da personagem uma lembrança (dura, nostálgica ou alegre - ou tudo ao mesmo tempo) a ser resgatada inconscientemente.
Sobre a escrita e o desenho em si, há os maneirismos do começo dos anos setenta, às vezes pueris, mas que acabam compensando pela carga dramática e maturidade nas entrelinhas da narrativa. O desenho de John Romita até hoje é bom. A polêmica sobre a onomatopeia (pra se ver como a arte é feita nos detalhes!) do pescoço quebrado segue até hoje, já antecipando que pra mim ficou bem claro que a ação de Parker de fato antecipou aquela morte e muito do impacto do quadro vem necessariamente da consequência involuntária da tentativa de resgate. Na edição que eu li, publicada pela Panini em 2004, há ainda um epílogo muito bonito e emocionante, datado já dos anos noventa, chamado "O Beijo". De fato, agora deu pra entender porque Parker era tão traumatizado com esse episódio em "Dinastia M", publicado mais de trinta anos depois!
De toda forma, "A Morte dos Stacy" marca três desilusões: a da suposta infalibilidade e onipotência dos Estados Unidos (agora, os 'heróis' também falham), o começo do fim para as ingenuidades da Era de Prata nos quadrinhos e término devastador do primeiro namoro - em sentido estrito o de Parker, mas, simbolicamente, de todos nós, leitores. Só com essa perspectiva ampla é que a história de Gerry Conway será desfrutada na plenitude do que ainda hoje, já rumando para cinco décadas desde sua publicação, a HQ tem de perene.
Parafraseando John Lennon, não por acaso numa música que emergia no mesmo contexto sócio-histórico dessa HQ, a derradeira aventura de Gwendolyn Stacy é sobre um sonho - em tripla interpretação da palavra (política, artística e emocional) - que acabava ali. Chegava a hora de acordar para a dura realidade e encará-la de modo mais adulto - ainda que, invariante, mais cinzento e duro.
NOTAS
A Morte do Capitão Stacy - ★ ★ ★ ★
A Morte de Gwen Stacy - ★ ★ ★ ★ ★
O Beijo - ★ ★ ★ ★