Conversa Comigo -

    Ricardo Ramos Filho

    Editora Penalux
    2019
    180 páginas
    6h 0m
    ISBN-13: 9788558334778
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos14/04/2019Resenhou um livro
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    Conversas deliciosas com Ricardo Ramos Filho

    A Editora Penalux lança agora em Maio (já em pré-venda), o mais recente livro do escritor Ricardo Ramos Filho. A obra – “Conversa comigo”-, que reúne 42 crônicas, está enriquecida com um verdadeiro ensaio, à guisa de Prefácio, escrito por Edmar Monteiro Filho. O prefaciador comenta o surgimento, a difusão e recepção de tal gênero entre nós e demonstra com muita perspicácia, que para além de suas características básicas como sejam brevidade, coloquialismo, diálogo com o leitor, humor e um olhar para o cotidiano, o que acaba por impregnar os textos do senhor Ricardo Ramos Filho é a literariedade, ou seja, justamente a percepção de que algo, na linguagem, extrapola a função referencial e remete os leitores a uma dimensão poética (ou simbólica), também a reforçar em certos casos, os laços com a poesia, já que a ficção também possui a propriedade de atingir o poético pela simbologia do enredo, dos personagens, dos acontecimentos, etc. Enfim, além das características usuais de qualquer crônica, na literária, é preciso perceber o momento em que a concepção lingüística utilizada para abordar o fato corriqueiro alcança dimensões mais amplas e eleva a crônica ao patamar do simbólico. Assim, após a leitura reforça-se em nós a impressão de que algo além do cotidiano (ou seja, algo que parte dele, mas nele não se esgota) permanece e desafia, levando o leitor a perceber a realidade cotidiana como uma representação mimética da própria vida. E é ante tal apresentação, que constitui verdadeiro alargamento conceitual prévio aos olhos dos leitores, que cabe tecer comentários de outra ordem, que não apenas reforçam o já dito, como revelará aquele sabor de deliciosas conversas que afinal encantará os leitores de Ramos Filho. Querem saber por que deliciosas conversas? Porque o caráter de observador do cotidiano ostentado pelo cronista, inevitavelmente acaba por creditar ao narrador de Ramos Filho um aliado do leitor para enredá-lo no processo lírico. Ainda que o elo mais forte entre as crônicas seja, em linhas gerais, a “temática da existência.”, e indagações provocadas pelo transcurso do tempo; a velhice e as vidas anônimas ambientadas numa metrópole em brutal modificação e num arco temporal oscilando entre a infância e a idade madura na qual o autor se encontra. Esses os aspectos marcantes. E nesse arco de tempo há muito o que falar, há uma vida inteirinha que acaba por estabelecer comunhão entre o olhar do cronista e a recepção do leitor. Veja-se por exemplo, o que ele nos conta sobre como se pode captar vida e mais vida e tanta matéria de crônica no cotidiano. Crônica Bonjour: “A cidade exibe histórias em seus supermercados, shopping centers, calçadas. O olhar atento, mesmo sendo o cenário muitas vezes cinzento e triste, é capaz de revelar narrativas bem interessantes, frequentemente divertidas. São Paulo é grande demais para ser apenas violenta e sombria. Perto das pessoas, se conseguimos nos aproximar a ponto de ouvir os diálogos particulares do cotidiano de cada um, as palavras se apresentam oferecendo universo surpreendente. E apesar de paulistanos, contidamente brasileiros, ainda temos certo colorido. Porque a voz do povo oferece ao cronista a oportunidade única de ouvir o nosso jeito. E como somos assim mesmo, soltos e irreverentes, até certo ponto exibidos, o humor se apresenta escancarado para quem prestar atenção. Andar por aí discreto, como quem não quer nada, acaba sendo ótimo antidepressivo.” Em vários textos se delineia nitidamente uma mescla de história pessoal com o ficcional ao mesmo tempo em que uma poesia inesperada espia através dos fatos da memória, de que são belos exemplos “Recordações de um outro tempo”, “Coração de frango”, e “Primavera”. Já em “Outono” há a associação das estações do ano com os ciclos da existência humana, e eis que o cronista nos surpreende ao noticiar a morte de um desses deserdados da vida que estão por toda parte nas grandes cidades a ponto de cada bairro ter o “nosso mendigo”, alguém que, por conta de uma desilusão amorosa passou a viver arrastando seu cobertor sujo pelo chão das ruas. O cronista chega à uma conclusão dolorosa ante a constatação da difícil condição humana daquele rebotalho de vida que acabara de falecer. É pungente a reação do narrador que, perplexo entre sentimentos autênticos e realidade dolorosamente absurda, encontra saída autenticamente literária que conduz o texto a um patamar lírico: “E eu capaz de brincar, afirmando viver o outono de minha existência, estou bem pouco confortável com a mudança de estação. Dor, medo, fome, solidão. Por que terá gritado tanto assim antes de apagar-se? A imagem me sufoca. Na cozinha acendo a luz, guardo as compras em silencio. O verão chegou ao fim.” Há em Ricardo Ramos Filho uma profusão de temas que nos deixam perplexos. De uma crônica como “Detalhes” onde a metaficção se estabelece na confissão de certos estados de espírito que embaraçam a criação literária, (exemplo das dificuldades que acometem os escritores, sobretudo os mais rigorosos com suas criações), o ficcionista pula para “Cheio de razão”, retrato vivo da nossa violência diária no trânsito. Após uma rusga sem maiores importâncias, um sujeito desce de seu carro, aproxima-se do narrador e pergunta com a maior tranqüilidade apontando-lhe uma arma: “- E se eu lhe desse um tiro?” Então, voamos para o lirismo doce que é “Natal”, texto repleto de memórias que vão se atualizando junto com o transcurso do tempo e as vivências do autor. Após revelar que odiava os festejos natalinos afirma: “Basicamente preciso esclarecer aos queridos leitores a razão de ter mudado de estado. Passado de um feroz crítico do Natal, e dos preparativos para a festa, para um amante do período.” Observe-se o fecho de verdadeira prosa poética: “E comerei a deliciosa mousse de nozes de sobremesa. Passo o ano inteiro sonhando com ela, por que será que decidimos comê-la somente em véspera de Natal? Minha mãe se aproximará de mansinho, bem do seu jeito, ela sim idosa. E cheia de carinhos, colocará a mão em meu ombro, fará cafuné nos cabelos brancos do menino que fui e sou, os poucos que me restam, assanhando-os. Ficará um tempo me observando, buscando alguma coisa no passado, a memória já não tão ágil, E então sorrirá seu riso moleque. Antevejo o comentário: - Agora gosta de doce. Você mudou, meu filho.” Ainda temos outros exemplos da potência criativa do autor ao lermos textos extremamente bem trabalhados como são “Velório” onde o medo elementar, o pavor da “indesejada das gentes” – a morte – ,é tratado sob uma ótica em que entra fino humor. Ou ainda a banalidade de se deparar com uma tosca obra de arte jogada no lixo a despertar reflexões estéticas, como acontece em “Quadro na calçada”. Fica claro, e não é demais referir, que em várias crônicas observamos que impressões individuais estão mediadas por um sentido social (e vice-versa), o efeito ultrapassa a comoção pelo sentimento do indivíduo isolado, pois através da constatação desse caráter subjetivo observamos reações contra os limites (ou contra formas de opressão morais e urbanas) do homem, como se o sentido da criação literária partisse da individualidade do ser que se vê estranho em meio à sociedade para atingir a todos. A preocupação em captar o detalhe cotidiano diminui em relação à preocupação com os problemas maiores que estão em jogo, que estão por trás da situação narrada. O sofrimento (e há muitas reflexões amargas na obra) não está somente na esfera individual. A denúncia social, equilibrada ao momento lírico, provoca efeitos contundentes no leitor. Aparece “nua e crua” nossa problemática comum. A problemática de uma ‘democracia’ cínica que insiste em não reconhecer a verdadeira guerra urbana em que vivemos e que mata 62 mil pessoas por ano! Corrupção, desemprego e miséria são a tônica no país do carnaval que aprendeu a ser assim, a se aceitar assim, depois de 300 anos de escravidão. Em “Eu queria”, temos a perfeita tradução de como estamos vivendo no Brasil (e não apenas em São Paulo), atualmente: “Eu queria não precisar andar pelas ruas cabisbaixo como faço aqui em São Paulo, minha casa. Amedrontado, temendo o contato com as pessoas que, por mim, passam também assustadas, todos nós à beira de um ataque dos nervos. É muito ruim estar submetido à violência do cotidiano. Todos nós vivemos um tipo de intimidação moral quando circulamos pelas calçadas, locais públicos. Olhamos ao redor com desconfiança, apressados, loucos para escaparmos da crueldade da cidade grande. Eu queria, em época de eleições, entender certas preferências que me parecem anacrônicas. Tem gente por aí admitindo: homofobia, racismo, misogenia, violência de todo tipo. Eleitores que se encantam com um palavreado velho, batido, capaz de piorar nossas vidas, ampliar nosso ridículo mundo afora. Gente tosca iludida por um discurso igualmente tosco e perigoso.” Veja-se também “No olho do furacão”, exemplo de nossos desvarios políticos atuais, desvarios da turma do “bem” que se “uniu, decidida a criar uma nova moral”. (qual?). Finalmente, vale a pena ainda mencionar uma última crônica. “Leilão”, narra a tentativa de resgatar um exemplar de “Vidas secas” autografado em 1938 pelo próprio Graciliano Ramos, avô de Ricardo Ramos Filho. A figura de Graciliano Ramos representa na literatura brasileira um dos maiores exemplos, senão o mais incisivo, de ficcionista que soube casar regionalidade e universalidade, a ponto de reforçar um novo ficcionismo de conteúdo psicossocial. Não há contestação quanto a isto e seria redundante tecer outros comentários sobre Graciliano. O que poucos sabem todavia, é que Ricardo Ramos Filho é filho de Ricardo Ramos que estreou como contista em 1954 com a publicação de “Tempo de Espera” (são dele também “Rua Desfeita”, “Terno de Reis” e “Circuito fechado” dentre outros). Sobre Ricardo Ramos, o crítico Hélio Pólvora escreveu (em 1971) que ele “deslocou uma ficção do tema nordestino, que parece esgotado na sua obra como fonte de sugestões, para a aventura mais ampla da personalidade desenraizada – e consequentemente, modificou a estrutura do conto, que perde em acontecimentos e ganha em possibilidades”. Com isto o crítico ressalta: “a parte sugestiva da contística de Ricardo Ramos, porque mesmo factual, sempre deixa espaço a ser ocupado pela ‘imitação’ do leitor. E esta, convenhamos, não é a arte do narrador comum, de simples contador de casos ou histórias. É algo mais profundo. Aquela ‘música de câmara’, aquela voz interior que se faz audível nos diálogos, nos monólogos e que, embora não lhe dêem atenção imediata, está lá. A voz dos que sofrem, dos que sabem das coisas.” E aqui, agora, a terceira geração dos Ramos na Literatura. Ricardo Ramos Filho, é Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela USP e lá realiza também o Doutorado no mesmo programa. Com inúmeros livros editados para o público infanto-juvenil, publica esse “Conversa comigo”, para público adulto. Aí temos uma dessas raras “coincidências” de talento por três gerações numa mesma família. Importa sempre em Literatura o homem, o falar do homem para o homem. Do regionalismo universalista de Graciliano Ramos, para a personalidade que se desloca aos centros Urbanos de Ricardo Ramos e ainda aqui, agora, o neto/filho continua a perquirir a nossa sofrida condição, nosso viver cotidiano nesse mundo urbano brutalizado em que vamos sobrevivendo. Ganha a Cultura de nosso país tão acanalhado (para usar uma expressão do velho Graça), ganha a Literatura, ganham os leitores, ganhamos todos que podemos constatar que, apesar de tudo e de tanto, ainda há esperanças. Sigamos. Livro: “Conversa comigo”, Crônicas de Ricardo Ramos Filho, - Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2019, 180p. ISBN 978-85-5833-477-8 JÁ EM PRÉ-VENDA: GARANTA O SEU EM: https://www.editorapenalux.com.br/loja/conversa-comigo

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