O q vc v? -

    Mikaela Roberto; Gabriel Linhares Paz - ilustrações

    Edur - Editora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
    2017
    48 páginas
    1h 36m
    ISBN-13: 9788580670776
    Português Brasileiro

    A idealização deste livro surgiu no ano de 2004, quando eu, então, trabalhava na rede pública municipal de ensino de Itajaí, Santa Catarina, e coordenava os projetos de incentivo à leitura da Biblioteca Pública Municipal e Escolar Norberto Cândido Silveira Júnior, ainda em seus primeiros anos de funcionamento. Naquele ano, realizaríamos a segunda edição da Semana do Livro Infantil e decidimos ousar na organização de um evento de grande porte, que acabou ganhando apoio e patrocínio de inúmeros parceiros, garantindo total sucesso da iniciativa. A cada evento o objetivo era homenagear um ícone da literatura infantil brasileira, e Ziraldo foi o escolhido para a II Semana do Livro Infantil, que teve o menino maluquinho como figura temática do evento. A editora Melhoramentos nos cedeu gentilmente o uso da imagem do personagem do cartunista e pudemos desenvolver um material de campanha rico em carisma e alegria. A II Semana do Livro Infantil acabou se tornando um evento extenso, sendo realizada de 16 de abril a 7 de maio de 2004, em diferentes espaços, além da própria Biblioteca Pública, envolvendo a participação de várias escolas municipais, da universidade local (Univali), onde eu também trabalhava, e do Shopping Center de Itajaí, espaço no qual ocorreram algumas das atividades culturais do evento. As diferentes ações previstas, tais como palestras, contação de histórias, mostras e variadas oficinas voltadas a crianças e a professores (textura em tela, arte em biscuit, livros em E.V.A., livros em tecido, etc.), tinham sempre como tema um dos livros de Ziraldo. Eugênia Berlim, na época estagiária de Biblioteconomia (Udesc) na Biblioteca Pública, propôs que fizéssemos uma oficina voltada a crianças com deficiência visual, devido à sua aproximação com um trabalho voltado a alunos da Associação de Deficientes Visuais de Itajaí e Região (Advir). Aquela proposta me foi desafiadora. Era muito fácil pensar em ações de incentivo à leitura envolvendo o menino maluquinho e outros personagens de Ziraldo, mas não me pareceu assim tão simples imaginar as mesmas ações voltadas a crianças que não pudessem se valer das ricas imagens do cartunista, nem do carismático apelo visual do nosso protagonista do evento para a promoção da leitura fruitiva. Com o apoio e orientação da equipe da Advir, eu mesma decidi assumir a tarefa e pudemos organizar, no dia 27 de abril daquele ano, uma atividade com o grupo. Inicialmente, as crianças – após conhecer a mostra das demais atividades já realizadas por outras crianças na Biblioteca – participaram da contação da história do livro Menino Maluquinho. Só essa primeira etapa já foi uma experiência inesquecível, uma vez que contar uma história a uma criança com deficiência visual é algo totalmente diferente do que contar a mesma história a uma criança que tem acesso às imagens contidas no livro. Não tenho dúvidas de que aquela experiência alterou significativamente a minha relação com o outro, com o livro e com histórias contadas. Por fim, para além da divertida descoberta de que aquele personagem gostava de usar uma panela na cabeça, escolhemos focar no seu gosto pela pipa. Terminada a leitura, tivemos uma conversa sobre pipas – resgatando, inclusive, a tradição dos itajaienses por divertir-se com a brincadeira – e, com a mobilização dos funcionários da Biblioteca, as crianças puderam vivenciar pela primeira vez a experiência de soltar pipa na praça ao lado da Biblioteca Pública (Praça da Bíblia). De todas as imagens retidas em minha lembrança, nenhuma supera a expressão de felicidade e surpresa no rosto de um dos meninos, ao sentir a linha puxando em sua mão, quando um rapaz que passeava por ali nos ajudou a colocar sua pipa no alto, dada a pouca habilidade da equipe em realizar tal feito. Mais que pensar o livro para deficientes visuais, aquela aproximação com as crianças da Advir me fez desejar sensibilizar o público sem deficiência visual a explorar outros sentidos e a imaginação, levando-os a se colocar no lugar do outro, em um exercício lúdico de ação inclusiva. A partir daí, surgiu a oficina que originou esta obra. A ideia era reunir um grupo de crianças videntes (assim chamadas pelas que apresentam algum déficit de visão ou ausência total dessa faculdade) e, a partir de quatro figuras básicas – reta, quadrado, círculo e triângulo –, fazê-las pensar no que é possível “ver” a partir delas e, com tais elementos, criar uma história. A atividade consistia em vendar os olhos das crianças e iniciar uma história, introduzindo essas informações e levando-as a imaginar a partir da pergunta “O que você vê?” Quando decidi escrever este livro a partir das ideias levantadas por inúmeras crianças nos três ou quatro grupos que reuni para essa atividade, minha ambição não foi pequena. O objetivo inicial era criar um livro voltado simultaneamente aos dois públicos. Um livro ricamente ilustrado, em papel de boa qualidade e cheiro de livro novo vindo da gráfica, distribuído gratuitamente a bibliotecas escolares de todo o país, que apresentasse também a versão em Braile no mesmo exemplar, além de relevo em algumas imagens, de modo a permitir que crianças videntes experimentassem a leitura tátil – ainda que não dominassem o código – e que crianças com deficiência visual experimentassem o contato com o papel couché de um livro ilustrado, uma vez que geralmente costumam ter acesso a versões em Braile produzidas em papel branco áspero e sem graça ou cheiro bom. Após algumas tentativas frustradas de implementar minha ideia inicial, de alto custo e difícil execução, a vida me trouxe a Seropédica e à UFRRJ. Na Edur, ainda em 2011, pude conhecer o projeto que apenas iniciava, conduzido pelo Prof. Alexandre Guedes, no qual se propunha desenvolver uma coleção de livros infantojuvenis cuidadosamente ilustrados por alunos do curso de Belas Artes, sob sua supervisão. Foi, então, que juntos entendemos que seria a oportunidade perfeita de colocar em prática meu projeto, há tanto engavetado, ainda que não tivesse, nessa primeira versão, o desejado Braile e os relevos nas imagens em sua concepção gráfica. O mais incrível de todo esse processo é constatar que o resultado dessa parceria, anos mais tarde, foi muito melhor do que eu poderia prever. Acompanhar o processo criativo da ilustração foi para mim outro profundo aprendizado. O trabalho da ilustração agregou ao livro algo que eu nunca havia imaginado: a riqueza de referências artísticas em uma ilustração belíssima e meticulosamente concebida, uma joia rara lapidada em conjunto, uma história paralela à do texto, que permitiu, inclusive, incorporar ideias minhas de tornar a leitura uma experiência não apenas visual – como a necessidade de virar o livro, por exemplo, dando movimento e dinâmica ao projeto gráfico. Além disso, toda a preocupação do Prof. Guedes e de Gabriel Paz em explanar as referências artísticas usadas na obra, a fim de agregar ao professor e ao leitor mirim (ou ao adulto que o auxilia na construção de seu letramento) informações valiosas, fazem desta obra um excelente material paradidático, além de um presente inestimável àqueles que se descobrem apreciadores da arte da leitura ilustrada. Não tenho dúvidas de que este livro alcança seu objetivo, de provocar diferentes sensações no leitor. Para tanto, até a escolha do título se faz provocativa, pois remete a uma leitura pouco convencional, contendo em si um rico tema de debate. “O Q VC V?” (O que você vê?) mescla a decodificação fonética das letras que têm em seus nomes sua correspondência sonora à contemporaneidade do vc típico do “internetês”, resultado de longa e curiosa trajetória de mudança: vossa mercê>voismicê>você>vc, convidando-nos a rever nossa forma de ver a realidade que nos cerca, em constante mudança. Assim, vejo este livro como um bom vinho... resultado de boas e seletas uvas maceradas por diferentes atores... um vinho maturado por todo esse tempo, trazendo-nos hoje cheiro suave com diferentes traços: inclusão, arte, provocação, contemporaneidade, história, graça, leveza e sensibilidade. Sou feliz pelo privilégio de fazer parte desse processo e pego emprestado o sorriso daquele menino da pipa em minhas memórias para representar minha gratidão a Deus por tudo o que tem me proporcionado ver, sentir, aprender e compartilhar. Sou, também, imensamente grata a todos que, de alguma forma, contribuíram para a realização deste lindo projeto, desde 2004 até aqui. Ao nomear um a um eu correria um alto risco de esquecer alguém nesse longo processo. Que todos possam, portanto, assim como eu, ver neste livro um brinde à vida! (Mikaela Roberto)

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