Transe, estado de aflição marcado pela angústia... Analogamente, estado de alteração da consciência, substituição de uma atividade voluntária por uma automática, redução da sensibilidade a estímulos. Estado de espírito em que o sujeito se desloca do plano material e vivencia, catarticamente, o transcendente, o etéreo. Por extensão, também pode ser um estado de abstração em que um indivíduo se sente transportado para fora de si, um deslocamento do estado natural das coisas.
Talvez passeie por tudo isso o que Jhonatan Zati propõe em "Lira em Transe", seus versos imprimem, agonicamente, o lirismo de uma jornada que se conclui na epifania de si, do por porquê de ser e da certeza de que é preciso estar.
O movimento catártico experienciado na leitura de "Lira em Transe" é traçado pela brevidade dos versos e pelo hermetismo dos sentidos, que fazem com que temáticas universais como o romantismo, a paixão e a infância, revelem a lira aflitiva de um eu-lírico em processo de individuação.
Zati surpreende ao trazer uma lírica que dialoga com Leminski e Ruiz, apaixona ao evocar, poeticamente, Guimarães Rosa em um poema "De Riobaldo para Diadorim", ao despir-se em uma "mise en scène", ao se defrontar com o duplo reflexo no espelho da reflexão, quando namora a própria poesia, quando traduz a dor e a delícia de ser o que é em uma ode irregular ou quando envia um bilhete a Drummond.
Sensível, ao mesmo tempo duro e pungente, contrariamente singelo e apaixonado, assim é o fazer poético de Jhonatan Zati em "Lira em Transe", um poeta promissor para nossos tempos.
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