INTRODUÇÃO
Este é um livro de maturidade do autor. Trata-se de um livro que lida diretamente com o problema que é apresentado em seu título, e que era a "praga científica" da época. Em nome da ciência, uma tirania se erguia na Europa, e Chesterton foi uma das nobres vozes que abertamente enfrentou essa moda intelectual em nome das coisas antigas e perenes, i. e., em nome daquelas coisas tão caras à sua visão de mundo e, em sua concepção, à própria saúde do ocidente: família e liberdade.
O livro é dividido em duas partes. Na primeira, o autor busca expor o que é a eugenia e quais são os problemas em tal teoria. Na segunda, tenta apontar para as raízes do problema, o que o ensejou de fato. Façamos uma breve exposição de cada uma. Talvez seja aí que encontramos as "outras desgraças" - se bem que a tirania que patrocina os projetos eugênicos já bem poderia ser considerada uma desgraça e já estava presente na exposição da primeira parte.
RESUMO
Chesterton começa definindo a eugenia como o controle da parte de uma minoria sobre o casamento, o sexo e a procriação da maioria. É claro que muitos douram a pílula e a apresentam como uma forma de se preocupar com a posteridade e o caminho para um futuro mais próspero e feliz. Mas, no final das contas, trata-se de tal tipo de controle. O suposto fundamento moral está fundamentado na ideia de que se deve considerar o bebê inexistente antes do par presente. Com isso, converte-se o patife de outrora em herói, pois qualquer 'defeito' encontrado no noivo ou noiva, ou mesmo no cônjuge, será justificativa plausível e mais do que justa para abandoná-lo.
Para o autor, a eugenia não era mais uma ameaça futura, mas uma ameaça presente, pois seu veneno já corria pelas veias das leis. Ela havia se iniciado por meio das leis dos débeis-mentais, que deveriam ser trancafiados e impedidos de procriarem-se. O problema é que não havia uma definição precisa e técnica sobre o que era uma tal pessoa louca. Na verdade, havia uma definição tão genérica e abrangente que poderia condenar qualquer um que os médicos quisessem. Dizer que se tratava de alguém que não agisse de forma racional em momentos de pressão, ou que não fosse prudente, deixa, na melhor das hipóteses, quase todo mundo sob suspeita. E para piorar, quando se questionava quem é que deveria exercer a autoridade para implantar as medidas eugênicas, encontrava-se um grande problema, pois os médicos não concordavam entre si na definição de quem era o louco, de tal poder dado aos médicos criaria uma condição de inevitável conflito de poder. Toda essa instabilidade constitui um estado de anarquia, a qual Chesterton define como uma normalização da exceção, como um rompante incessante e incessável, em uma incapacidade de se retomar o estado de normalidade após se exercer uma medida extrema. E esse era o destino da legislação eugênica, que tenderia cada vez mais à viabilização da tirania e à subversão da normalidade civil.
Chesterton também dirige suas críticas diretamente à própria teoria, demonstrando que a hereditariedade, embora inegável, estava eivada de mistérios, pois não é fácil precisar exatamente o que foi herdado do pai ou da mãe, e em que medida isso se deu, ou mesmo se veio de uma ancestralidade ainda maior - o autor já admitia as noções de genes recessivos. Fato é que se trata de algo complexo o bastante para a partir disso deliberarmos. Fica ainda pior quando H. G. Wells observa que a saúde não é uma característica em si, mas uma proporção, uma harmonia entre características, o que faz com que a herança de uma característica que numa das partes constitui algo saudável, em combinação com as características herdadas de outra parte, pode constituir numa desarmonia. Portanto, pais perfeitamente saudáveis bem poderiam ter filhos não-saudáveis e vice-versa.
Para finalizar a primeira parte, Chesterton observa que essa tirania dos eugenistas era pior do que as antigas tiranias, pois sua proposta era a de tolher liberdades fundamentais em nome de uma experiência, para verificarem suas hipóteses, e não por alguma convicção. Isso faz com que a nova tirania e perseguição seja feita não para se ensinar algo à força, ou por se acreditar em algo, mas para tentar aprender algo com o 'sacrifício imposto' do outro. Com efeito, a ciência moderna havia se tornado a nova religião, e usava o "poder temporal" para se fazer valer. Entretanto, esta era uma 'igreja estabelecida na dúvida', e não em convicções - o que, por si só, tornava o experimento um abuso colossal.
Na segunda parte, Chesterton começa com um interessantíssimo tratamento da condição progressista que vê os acontecimentos pregressos, primeiramente como males necessários e depois como bens providenciais. Em suma, ha uma atitude típica de impenitência, onde as pessoas se recusam a admitir que erraram, em que assumem como inalterável o processo que se deu no passado e culminou no presente. Para tal, precisam até mesmo falsificar a história ou obliterar as partes que incomodam. E a parte que incomoda a ser destacada pelo autor é a questão da origem dos pobres. Chesterton descarta não apenas as hipóteses corriqueiras dos socialistas e capitalistas, mas até mesmo suas promessas de soluções como a de uma classe revolucionária, o desenvolvimento geral que beneficia a todos e a noção fabiana da redistribuição paulatina das riquezas. Para o autor, a origem das desigualdades está na maldade de alguns que expropriaram tantos outros no passado e perpetuam seu poder pela exploração e opressão dos pobres.
É nesse contexto que surge a proposta eugênica. Afinal, a exploração dos pobres ao máximo acabou por torná-los tão miseráveis que se tornaram maus empregados, entregues à bebida e à promiscuidade, que são os prazeres acessíveis à sua condição deplorável. Assim, com muitos filhos para criarem e sem condições de o fazer, acabam debilitando sua própria saúde e, sendo isso uma condição generalizada, prejudicam a própria produção. Os ricos e empresários, então, pensaram em uma forma de erradicar a pobreza pela eliminação do pobre, e isso de forma velada: a eugenia. Evidencia-se o fato de que as coisas são assim por conta da restrição da aplicação dos projetos exclusivamente aos pobres, quando os ricos apresentam registros genealógicos muito mais precisos e extensos, e até mesmo oferecem materiais mais variados de miscigenação - uma vez que podem se relacionar facilmente com alguém de outros lugares.
Os últimos capítulos da segunda parte são destinados a analisar as forças que ainda podem se contrapor aos avanços totalitários da eugenia. A primeira é a noção de liberdade, tão cara aos ingleses. Chesterton parece argumentar como um autêntico liberal ao observar que quando se argumenta em prol de subtrair uma liberdade de alguém em nome de uma conceituação mais avançada de liberdade abre-se o precedente para quaisquer outras opressões. Entretanto, o autor argumenta também que se alguém oferece uma razão para a privação de uma liberdade e, ao mesmo tempo, reafirma e fundamenta as demais, temos algo a considerar. O filósofo ainda versa sobre o papel arrogado pelo Estado de cuidar da saúde do indivíduo, o que equivale a uma intromissão em suas decisões mais pessoais - onde se encontra o terreno fértil para a eugenia.
Em seguida, o autor fala sobre o socialismo. Ele se opõe ao socialismo por conta de sua concepção a respeito da propriedade privada, que lhe parece questão de honra - embora, temos de nos lembrar que o autor pensa nisso em termos distributivistas. Nosso filósofo inglês observa que há uma disputa entre liberais e socialistas no que diz respeito à importância da liberdade e da igualdade. Entretanto, o atual estado promoveu toda a privação das liberdades que há no socialismo sem promover qualquer igualdade prometida. Portanto, nem mesmo o socialismo pode surgir como rival da tirania eugenista.
Por último, Chesterton fala sobre a sacralidade da propriedade doméstica, que é encarada com afetuosidade como um deus do lar entre os antigos. Chesterton nota que o ideal de família e do trabalho para sustentá-la estão sendo altamente aviltados pela situação do trabalhador moderno, que não tem nenhuma segurança no seu ofício, sendo despedido como um ninguém, ao mesmo tempo que é vigiado de perto dentro de sua própria casa pelos tentáculos totalitarista do Estado. Priva-se o indivíduo, pois, de sua propriedade e de sua liberdade.
Um último e breve capítulo encerra o livro, observando as origens nietzscheanas da eugenia e observando que a ideia, que havia ganhado enorme respeitabilidade entre os ingleses, caiu em escárnio quando a Inglaterra foi à guerra justamente contra a nação modelo e origem de tais ideias - o 'O Apetite de Tirania' do autor complementa a visão que ele tem a respeito do Império Germânico.
AVALIAÇÃO CRÍTICA
Quanto aos argumentos contrários à eugenia em si, não há do que reclamar. Chesterton analisar de forma muito meticulosa a fragilidade da teoria, sua subversão moral e política. A primeira parte é quase impecável. Há uma pequena parte que nos incomodou, que foi quando o autor colocou o aborto como algo um pouco menor do que a eugenia, quando nos parece tão pior ou mais. Mas em geral, temos um excelente caso contra essa mancha negra na história da medicina ocidental. Se fosse apenas pela primeira parte, o livro mereceria quatro ou cinco estrelas. O problema é a segunda parte.
Nela, mais do que em qualquer outro lugar dos livros que já lemos do autor, há uma forte dependência de suas considerações sobre o capitalismo e sobre a situação real dos países capitalistas. O autor chega a conceder que a riqueza de alguns foi feita pela subtração e exploração dos muitos - a famosa falácia da soma zero de Marx - e que a situação do trabalhador não havia melhorado em nada desde o advento do industrialismo. Pelo que nos consta, embora a situação estivesse longe da ideal, estava bem melhor do que nos períodos pré-industriais e tendia a melhorar progressivamente. Nosso autor faz dá eco à infeliz profecia de de Marx de que as coisas seguiriam até um estado de crescente desigualdade que culminaria na posse de quase tudo por parte de uns poucos, e pela miséria e até mesmo escravidão de muitos. Evidentemente, as coisas não se deram dessa forma, e isso, no mínimo, sugere que a leitura da realidade não estava correta. Mises bem observa que as pessoas tendem a julgar os males do presente em um país capitalista como se tivessem surgido por causa do capitalismo, e não por conta das heranças do passado pré-capitalista ou pelos embargos da livre iniciativa no presente. Parece-nos que este é o caso de Chesterton. Fato é que mesmo figuras como Horkheimer e Marcuse reconheceram que as condições de vida do trabalhador melhoraram de tal forma que eles se tornaram satisfeitos com sua condição, e impotentes como negatividade dialética. Seguimos a leitura feita por Mises das transformações na vida dos trabalhadores ingleses a partir da Revolução Industrial e, portanto, não podemos seguir a Chesterton. Há ainda outras ingenuidades a serem mencionadas, como a noção de que os trabalhadores eram forçados a condições cada vez piores e mais miseráveis. Se este era o caso, é estranho que os grandes milionários surgiram a partir da produção em massa PARA as massas inglesas, que passaram a ter acesso a produtos que não lhes era possível em épocas anteriores, e isso em proporção cada vez maior e progressiva. Tudo isso torna o livro bastante decepcionante, e arrefece o brilho da primeira parte.
Ainda temos que observar a questão do determinismo situacional com o qual flerta o autor - o qual, aliás, ele explicitamente condena no 'Ortodoxia' e no 'O Homem Eterno'. Ao retratar a suposta condição deplorável do pobre por causa da exploração capitalista, fala dos indivíduos entregues à carnalidade como consequência. Não fossem outros escritos do autor, não poderíamos encarar isso como meras influências, mas como formas de determinação do indivíduo pelo meio - o que faria do pobre um indivíduo bárbaro e, portanto, realmente inadequado para o voto, como é argumentado no 'Ortodoxia'.
Outros pequenos detalhes - de grande relevância - podem ser observados, como sua ingênua descrição do socialismo como algo fundamentado na maldade humana ao tirar as armas do povo e distribuir as funções. Em certo sentido, há mesmo, aí, um reconhecimento da maldade humana, embora não se lide da melhor maneira com o problema. Por outro lado, o que seria mais incauto em relação a tal maldade do que conceder o maior poder de todos nas mãos de uns poucos para que possam subjugar os ricos e depois acreditar que esses poderosos não vão se corromper? Essa não é a história das ditaduras do século XXI?
Resta-nos, ainda, lidar, finalmente, com a evidência do autor a favor de sua narrativa, de sua interpretação dos fatos. O autor bem nota que a eugenia é aplicada apenas aos pobres, e conclui que os empresários e poupadores malvados é que estão ordenando o esquema. Por outro lado, parece-nos no mínimo igualmente plausível pensar que socialistas ou simplesmente pessoas más e preconceituosas com os pobres - ou mesmo darwinistas sociais -, não sabendo como lidar com eles, propõem essas coisas. Isso nos parece mais realista e em nada depõe contra o empresariado em si - até porque não compramos a ideia de que eles sempre ou frequentemente sejam esses exploradores estúpidos que destroem sua própria mão de obra e seus principais consumidores. Exemplo claro e típico está no fato de que são progressistas, não liberais e conservadores que estavam, geralmente, por trás dessas ideias.
Neste segundo momento da obra, portanto, Chesterton argumenta com a mesma imprecisão e equívocos de um autor progressista qualquer, ou, dito de outra forma, é uma análise para esquerdista algum botar defeito. Uma infelicidade que geralmente está nos textos do autor, mas que não tem tamanha proeminência como neste.
REFERENCIAL TEÓRICO
Chesterton, além de algumas típicas referências literárias - Shakespeare, Dickens, Steavenson, Hans Anderson... etc -, está muito bem fundamentado no que diz respeito à leitura de seus oponentes. O autor cita os grandes eugenistas ingleses da época, com quem estava em franca e aberta oposição, inclusive sendo citado por eles. Dr. Karl Pearson, Dr. S. R. Steinmetz, Sir Oliver Lodge, Dr. C. W. Saleeby, Dr. A. H. Huth aparecem por todo o texto. Há tímidas referências a alguns filósofos, como Platão e Nietzsche - este último estando mais explicitamente presente no último capítulo. O autor menciona, como de praxe, seus amigos e oponentes de sempre: Wells e Shaw. Wells é mencionado de forma até que positiva, como contraponto às noções de hereditariedade e saúde. E é de Shaw que o autor parece ter referências sobre socialismo. Há, também, as típicas referências à história, com muitos nomes que as notas de rodapé da edição nos ajudam a compreender.
RECOMENDAÇÃO
O livro é muito importante para uma vasta gama de pesquisas. Interessados em história da ciência contemporânea terão aqui um testemunho da época a respeito da Eugenia. Reflexões sobre liberdade, socialismo e totalitarismo chamarão a atenção dos interessados em política. Há espaço para reflexões morais também, contribuindo com os estudos de ética. E o interessado em Chesterton terá um bom livro em mãos. O leitor conservador ou liberal terá que ter estômago forte para ler a segunda parte, principalmente se for bem instruído nos assuntos que o autor versa de forma infeliz. Mas mesmo assim vale a pena, inclusive para esse tipo de leitor, uma vez que temos em Chesterton a importante figura de um pensador conservador inglês.