sinceramente, dei nota 1. Odiei o livro. Acho que ele simplesmente não faz parte do estilo de livros que costumo ler. Eu gosto de histórias que me envolvem, que desenvolvem personagens de forma mais profunda e que tenham um fluxo narrativo que eu consiga acompanhar sem ficar perdida o tempo todo. Esse aqui me deixou frustrada do começo ao fim.
A história da Janey, em si, eu achei interessante. Uma menina de dez anos que vive um relacionamento incestuoso com o pai, é abandonada por ele, vai pra Nova York, entra numa gangue, sofre abusos, é sequestrada, vira prostituta, descobre que tem câncer e acaba vagando pelo Marrocos… Tem potencial pra ser uma narrativa crua e impactante sobre vulnerabilidade, sobrevivência e o corpo feminino sendo explorado. Senti muita falta de a escritora contar mais sobre a vida da Janey. Queria ver mais detalhes do dia a dia dela, dos pensamentos dela, das consequências emocionais de tudo aquilo. Em vez disso, a gente fica com fragmentos, pulos e interrupções constantes.
Entendo que a Kathy Acker tem esse estilo experimental, de colagem, onde ela insere outras histórias, poemas, mapas de sonhos, traduções do persa, trechos de outros autores… Sei que isso faz parte da proposta dela, de quebrar as convenções da narrativa tradicional. Mas, pra mim, isso foi ruim e confuso. Em vez de enriquecer a história, atrapalhou. Eu ficava lendo e pensava: “volta pra Janey, por favor”. Os desvios constantes me tiravam da trama principal e me deixavam irritada.
Uma coisa que reconheço é que a autora aborda o feminismo de forma bem direta e agressiva. O livro é uma crítica pesada ao patriarcado, ao capitalismo, à forma como o corpo da mulher (especialmente o de uma menina) é tratado como mercadoria, como algo a ser possuído, usado e descartado. Tem incesto, abortos, prostituição forçada, doença, abandono… Tudo isso serve pra mostrar como o sistema devora as mulheres. É forte, é visceral, e dá pra ver a intenção política por trás.
Gostei, por exemplo, da parte em que Janey cita A Letra Escarlate, da Nathaniel Hawthorne. Achei interessante ela se comparar com Hester Prynne, refletindo sobre como as mulheres que saem dos limites impostos pelos homens são punidas e acabam cheias de ódio por si mesmas. Essa conexão entre a literatura clássica e a realidade brutal da Janey foi um dos poucos momentos em que senti que o experimentalismo funcionou um pouco.
No final, o livro me deixou com a sensação de que poderia ter sido muito melhor se a Acker tivesse confiado mais na história da Janey e desenvolvido ela com mais consistência. Como experiência literária, foi exaustiva. Não recomendo pra quem gosta de narrativas mais tradicionais.