Decidi não fazer uma resenha exatamente sobre o livro, pois se por um lado é mais interessante mergulhar nesta história sem nada saber - e neste caso, não leia prefácios nem resenhas, nem nada -, por outro, muito já foi escrito - e bem. Então prefiro compartilhar com vocês algumas informações:
SOBRE COMALA:
Comala realmente existe. É um municipio de cerca de 20.000 habitantes no estado de Colima. É uma zona em que floresceram várias culturas indígenas depois mescladas com o catolicismo espanhol. Comal é uma chapa de barro ou de metal, uma espécie de frigideira para cozinhar tortilha de milho ou para torrar grãos de café ou de cacau. Comala significa, portanto, lugar onde se fazem comales; os de barro eram um artesanato comum no lugar.
Comala faz parte desde 2002 de um programa turístico do governo mexicano chamado Pueblos Mágicos, que reconhece cidades que protegem e guardam sua riqueza cultural. Essas cidades são identificadas por um catavento colorido. Infelizmente, a partir de 2019, o governo deixou de apoiar financeiramente o programa. No caso de Comala, a herança indígena, a natureza, a arte e a gastronomia são os principais atrativos.
SOBRE RULFO:
Juan Rulfo nasceu em 1917, após a Revolução Mexicana de 1910, que foi um conflito armado em que alguns setores da sociedade, principalmente os campesinos, lutaram contra o porfiriato, a ditadura de Porfírio Díaz, a extrema desigualdade social e os latifundiários. Os pais de Rulfo eram proprietários de terra e ficaram arruinados durante a Revolução. No ano em que Rulfo nasceu, já na presidência de Carranza, um dos líderes da Revolução Mexicana, houve uma nova Constituição que tirava vários direitos da igreja católica. Porém, as as leis não foram aplicadas com rigor e a oposição da igreja era pacífica até 1924, quando Calles, um maçom anticlerical, assumiu o poder e foi muito mais duro no cumprimento destas leis, o que resultou na Guerra Cristera. Tudo isso para dizer que durante esta guerra, o pai de Rulfo foi assassinado, assim como outros familiares e quatro anos depois a mãe dele também morreu. Após um breve período com a avó, ele foi para um orfanato onde ficou até os 18 anos (que segundo o autor tinha um caráter correcional, de muitos castigos e violência) e, provavelmente, este período, que o próprio Rulfo disse ter sido muito difícil, tenha influenciado a sua literatura e moldado sua figura, como ele mesmo se reconhecia: introvertido, tímido, enigmático, que preservava sua intimidade e que como ele disse numa entrevista: que precisava de humor para viver.
Rulfo não se graduou na universidade, era autodidata e apesar de ter feito parte de grupos de escritores, ter publicado seus contos em revistas e tal, teve alguns empregos comuns. Tanto que após ter publicado seu livro de contos, Chão em chamas, e depois, Pedro Páramo, não seguiu com a carreira de escritor. Ele também foi fotógrafo (há livros com suas fotos e algumas exposições já foram feitas, inclusive no Brasil) e fez parcerias no cinema com Juan José Arreola e o diretor Emilio Fernández. O filme El gallo de oro (1964) foi adaptado para o cinema (por Roberto Gavaldón, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez) baseado num texto de Rulfo que ele só publicou em 1980 por insistência de amigos e, devido a uma série de erros na edição, foi republicado em 2010.
E o que poucos sabem: ele também escreveu um livro como historiador, sobre a Nova Galícia, que foi distribuído gratuitamente entre os clientes de uma empresa. Nas duas últimas décadas de vida, Juan Rulfo foi funcionário do Instituto Nacional Indigenista de México, onde trabalhou na edição de uma das coleções mais importantes de antropologia contemporânea e antiga do país.
Rulfo foi casado por trinta anos com Clara Reyes, com quem teve quatro filhos e morreu de câncer de pulmão aos 68 anos, na Cidade do México.
P.S.: Há outras adaptações para TV e cinema baseadas em textos de Rulfo, cujas informações podem ser encontradas na internet.
A Fundación Juan Rulfo foi criada por sua família em 1996, com a finalidade de cuidar e difundir o legado artístico de um dos escritores mais emblemáticos do México. O diretor atual é Victor Jiménez. A fundação é bastante polêmica por restringir que tipos de atividades, homenagens e eventos podem levar o nome de Rulfo, o que para alguns é censura e para outros busca conservar seu legado esquivando-se do lucro político que gera a imagem do escritor mexicano. Tendo sido Rulfo tão discreto e inimigo dos holofotes, me pergunto o que acharia dessas polêmicas.
SOBRE PEDRO PÁRAMO:
Novela escrita entre 1951 e 1953 graças a duas bolsas de estudo do Centro Mexicano de Escritores. Publicada pela primeira vez em 1955, a novela de Rulfo chegou a ter prévias publicadas em revistas dois anos antes com os títulos de Una estrella junto a la luna, Los murmullos e Comala.
Com uma estrutura narrativa inovadora, foi precursora dorealismo mágico, causando um certo estranhamento inicial e baixas vendas, até que a crítica começou a reconhecer o seu valor. Vários escritores como Gabriel García Márquez, Jorge Luís Borges e Susan Sontag enalteceram a grandeza da obra.
O livro foi proibido na Espanha durante a ditadura de Franco, por conter descrições cruas de fatos e situações imorais. A distribuição só foi liberada em 1969.
Traduzida em 40 idiomas, incluindo letão, grego, náhuatl e euskera, Pedro Páramo faz parte da lista das 100 melhores novelas em espanhol do século XX do jornal espanhol El Mundo.
ADAPTACÕES:
CINEMA:
Pedro Páramo (1967) - direção de Carlos Velo. Atualmente disponível no YouTube (legendas CC em inglês). Link no final.
Pedro Páramo, el hombre de La Media Luna (1978) - direção de José Bolaños.
Pedro Páramo (1981) - direção de Salvador Sánchez.
TEATRO:
Pedro Páramo (2013) - direção de Flora Lauten (Cuba).
Pedro Páramo (2020) - direção de Mario Gas (Espanha).
PRINCIPAIS PRÊMIOS A PEDRO PÁRAMO:
Premio Xavier Villaurrutia (1955).
Prêmio Nacional de Literatura do México (1970).
Prêmio Príncipe das Astúrias (1983).
Em 1991 foi criado o Premio de Literatura Latinoamericana y del Caribe Juan Rulfo, que após uma polêmica envolvendo o ganhador de 2005, Tomás Segovia, mudou de nome para Premio FIL de Literatura em 2006 e 2007 e, finalmente, em 2008, passou a chamar-se Premio FIL de Literatura en Lenguas Romances, aumentando o número de idiomas em que se pode competir.
Fontes: Wikipédia, Universidade de Guadalajara, Informador, UDGTV.
Quanto à minha experiência de leitura, afirmo que AMEI BEM AMADO. Favoritado e, sem dúvida, será relido.
Se alguém quiser conversar sobre esta história, estou à disposição. :)