Água viva -

    Clarice Lispector

    Rocco
    2019
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788532531407
    Português Brasileiro

    Considerado o livro mais misterioso e autobiográfico de Clarice Lispector, Água viva, acaba de ganhar uma edição especial com capa dura e sobrecapa e reúne pela primeira vez em um mesmo volume os datiloscritos de Objeto Gritante e a versão final de Água viva, além de ensaios de Alexandrino Severino, Sonia Roncador, Ana Clara Abrantes e Teresa Montero e correspondência do filósofo José Américo Motta Pessanha. Já o prefácio ficou a cargo do crítico e pesquisador Pedro Karp Vasquez e a concepção visual e projeto gráfico são de Izabel Barreto. Com este pequeno grande livro, Clarice Lispector conseguiu a façanha de descobrir um jeito transformador de escrever sobre si mesma. Um triunfo tão desconcertante que despertou assombro semelhante ao que a jovem autora provocara com sua estreia na ficção, o romance Perto do coração selvagem, de 1943. Um livro refundador. Da literatura e da própria Clarice.

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    Alane Sthefany24/07/2022Resenhou um livro
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    Água Viva - Clarice Lispector

    Devo admitir que fiquei bastante confusa lendo esse livro (muito natural, ao ler Clarice 😂), mas esse foi em um nível inimaginável, fiquei com a sobrancelha franzida por tanto tempo, que ao finalizar a leitura, minha cabeça estava doendo. Pretendo reler o livro e ver se a experiência de leitura mude com o passar do tempo, mas o que eu tenho a dizer por enquanto é: Confusão. Eu gostei bastante da ideia da Clarice querer escrever tudo o que se passa no "instante-já", no momento em que ele ocorre, mas que já não o é mais, quando tenta descrevê-lo: "Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais." Li uma resenha, em que uma menina dizia que o livro incomodaria pessoas organizadas, por não possuir uma ordem, muito menos uma lógica racional. Pelo fato do livro ser escrito através da narrativa de uma pintora, e que iremos nos perder em meio às palavras, pensamentos e devaneios dela. É um livro que tenta expor e explicitar o que se passa dentro da mente no instante-já. Em busca de algo inalcançável. Pois como a própria Clarice diz: que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Trechos Preferidos ✍🏻📚❤️ Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura — o objeto (...) Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. O instante-já é um pirilampo que acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Mesmo que eu diga “vivi” ou “viverei” é presente porque eu os digo já. Não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir (...) Quero é uma verdade inventada. Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Eternidade: pois tudo que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina — porque assim é o eterno. Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas. Para onde vou? e a resposta é: vou. Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia. Agora é um instante. Já é outro agora. O que não vejo não existe? O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva. Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? em que lugar? E se foi através da energia de Deus — como começou? será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada. Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago. Depois de um certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá. Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente? O futuro é o que sempre existiu e o que sempre existirá. Estou prestes a morrer-me e constituir novas composições. Estou me exprimindo muito mal e as palavras certas me escapam. Terei que morrer de novo para de novo nascer? Aceito. Vou voltar para o desconhecido de mim mesma Que música belíssima ouço no profundo de mim. Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros — eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Realizo o realizável mas o irrealizável eu vivo (...) É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde.

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