Como define o próprio autor, O nosso reino é o retrato de uma solidão espiritual a partir do vulnerável ponto de vista infantil”. Neste romance de estreia de Valter Hugo Mãe, o menino Benjamim, criatura de profunda candura, procura na manifestação divina uma saída para o desamparo em que vive. A história é ambientada numa aldeia portuguesa de pescadores, nos anos 1970, durante os momentos finais da ditadura salazarista. Em meio a uma convulsão histórica que mal parece afetar a vida da pequena aldeia, o protagonista de oito anos de idade procura alguma forma de transcendência ao tentar levar o que imagina ser a vida de um santo.
O nosso reino -
Valter Hugo Mãe
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Ver maisironia intertextual
lançado em 2004 e de autoria do português valter hugo mãe, “nosso reino” é um livro bastante singular, pois ultrapassa a definição de romance, sendo mais adequado considerá-lo uma “construção estética que reúne gêneros literários e não-literários”. aliás, ele abre a tetralogia das minúsculas que tem como fulcro os ciclos da vida, isto é, infância, juventude, maturidade e velhice. para quem pretende conhecê-la, os demais livros são respectivamente o remorso de baltazar serapião, o apocalipse dos trabalhadores e a máquina de fazer espanhóis. quanto ao título da tetralogia, cabe um aparte, mãe excluiu do texto todas as letras maiúsculas e esta opção salta aos olhos do leitor de imediato. todavia, também não há exclamações, interrogações, nem outros sinais de pontuação, a exceção do ponto, vírgula e hífen. portanto, essa é uma leitura que exige concentração, inclusive, algumas vezes tive de reler um trecho para melhor assimilá-lo. nosso reino tem como narrador e protagonista, benjamim, um menino de apenas oito anos. Ele vive numa pequena ilha pesqueira em Portugal, por ocasião da revolução dos cravos e o fulcro da história é a questão do divino a partir da convivência da personagem com uma família disfuncional e uma população pobre, ignorante e preconceituosa, resignada à ditadura salazarista e aos dogmas da igreja católica. como afirma o próprio autor, “benjamim é dotado de uma profunda candura e ausculta a figura de deus numa grande tristeza pelos infortúnios da vida. entre os assuntos que lhe magoam estão as terríveis palavras que dizem sobre a tia e, mais tarde, sobre os tios que chegam da França. essas duas passagens são como punhais no peito puro de uma criança e o leitor choca-se com a tristeza e o desamparo que o acompanha”. também o título do livro também merece um aparte. trata-se de uma intertextualidade, pois refere-se ao vosso reino, o reino de deus, mencionado no pai nosso, a oração mais conhecida de todo o mundo. por sinal, de acordo com o doutorando em letras filipe reblin*: este título é uma ironia intertextual, pois assume uma postura de acinte, afinal, valter hugo mãe subverte as referências aos textos de cunho religioso/bíblico, numa provocação de retirada do sacro, transformando os eventos em paródia, num processo iconoclasta.” ele também afirma que nosso reino é uma clara forma de hipertexto a partir da tradição bíblica, já que estabelece a relação de dois reinos: o celestial e glorioso, de deus; e o dos homens”, inclusive, este último surge transfigurado pela imaginação de Benjamim que na busca da transcendência, no caso, a santidade, torna-se objeto de veneração e ódio numa hipotética disputa entre deus e o diabo. finalmente, não poderia deixar de mencionar uma interessante perspectiva para nosso reino, de autoria do poeta brasileiro ferreira gullar: “... toda a narrativa de valter hugo, neste livro é subversiva, aparentemente natural mas, de fato, estranha. posso até imaginar que tenha ele pretendido fingir que que quem escreveu aquilo seria um menino de oito anos. a verdade, porém, é que como o livro não foi escrito por um menino mas pelo autor adulto, resulta uma escrita altamente sofisticada como um poema em prosa”. nota: esta é uma nova edição com prefácio de maria angélica melendi e ilustrações exclusivas de eduardo berliner. escolhi o e-book que, apresentando um valor mais acessível, recomendo. * Artigo “Vamos Nós ao Nosso Reino” publicado na Revista Versalete, v. 4, n. 7, jul./dez. 2016.
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