De acordo com Julio Cortázar: ?o romance sempre ganha por pontos, ao passo que conto deve sempre ganhar por nocaute.? Em seu quinto romance, Edney Silvestre subverte essa máxima, ao apresentar um suspense cuja trama bem armada leva o leitor à lona a cada reviravolta. Pedindo perdão pelo clichê: nada é o que aparenta ser.
A história gira ao redor de um misterioso assassinato e suas 198 páginas transcorrem num único dia. Uma data fundamental para o destino do país, à medida que em 13 de março de 1964 foi realizado o Comício da Central (ou das Reformas), no Rio de Janeiro. Ele reuniu entre 150 e 200 mil pessoas para ouvir o Presidente João Goulart anunciar medidas, como a desapropriação de propriedades subutilizadas, que foram vinculadas à República Sindicalista e ao Comunismo pelos setores conservadores. Em suma, o período posterior a Ditadura Vargas, a Quarta República, agonizava e em 1 de abril, 19 dias depois, foi instaurada a Ditadura Militar que durou 21 anos.
Quanto a seu protagonista, ele é um jovem nunca nomeado que trabalha como escrevente num cartório, mas sonha ser jornalista e acaba conseguindo uma oportunidade no jornal Folha da Guanabara. O editor de polícia precisa de uma matéria sobre a decadência da antiga área residencial próxima ao Morro de São Carlos e, na falta de outro repórter, todos estão cobrindo os preparativos do tal comício, resolve mandá-lo até o IML para colher informações sobre o suicídio de uma mulher, um bom exemplo do declínio da região que, mal frequentada, exige a demolição dos cortiços próximas do Largo do Estácio e sua substituição por novas edificações, capazes de atrair para ali população de melhor nível social.
Contudo, lá chegando, entre os cadáveres de negros e mestiços, todos os engavetados que ainda não foram reclamados pelas famílias, um deles desperta seu interesse. Trata-se do corpo da gaveta 41: um homem alto, loiro e de olhos azuis. Uma exceção à regra e um caso cuja solução poderá lhe render fama, respeito e dinheiro. O que não supõe é que essa mudança de rumo colocará sua vida em risco.
?O Último Dia da Inocência? faz uma perfeita reconstituição da cidade do Rio de Janeiro na época e para quem aprecia literatura, merece destaque o capítulo 6 (Anschluss) que descreve a redação do Correio da Manhã (1901-1974), jornal oposicionista da fundação (1901) até o fechamento (1974), que teve entre seu funcionários e colaboradores Lima Barreto, Coelho Neto, José Veríssimo, Carlos de Laet, Antonio Callado, Lêdo Ivo, Drummond, Cony e Otto Maria Carpeaux.
Também traz à tona, um episódio praticamente esquecido, mas que causou comoção em meados do século passado: o incêndio do Hotel e da Boate Vogue que, localizados num edifício em Copacabana, eram frequentados pelo elite. Entretanto, se avançarmos para a nossa época, existem algumas coincidências que valem o registro, por exemplo, as tensões sociais, a instabilidade política e a polarização ideológica.
"O mundo é feito de trouxas e vencedores. O trouxa perde sempre. Mas não perdoa." (O Último Dia Da Inocência)
Nota: Comprei o e-book e recomendo.