Na URSS com J. Steinbeck e R. Capa
Imaginem o encontro de um escritor e um fotógrafo, entediados, em plena tarde, tomando uma bebida verde-claro num bar de hotel. Estavam descontentes, "não tanto com as notícias como com a forma como eram dadas. Porque as notícias já não são notícias, pelo menos aquelas que atraem mais atenção. As notícias transformaram-se em matéria de opinião especializada." Opinião especializada, naturalmente, contém ironia. Desse descontentamento, resultou uma ideia que, aos pinguços mortais, seria apenas isso: uma ideia ou, quando muito, uma ideia para salvar uma adega. Para as ilustres figuras, como fosse a coisa mais simples, resultou numa viagem para o outro lado do mundo, aparelhados com treze malas contendo principalmente equipamento fotográfico, sem falar o idioma do país de destino. Uma aventura narrada com humor, inteligência, buscando reproduzir apenas o presenciado, sem emitir opiniões de certo ou errado. O ano da primeira publicação era 1948. Além das fotografias, Capa contribuiu com duas ou três páginas em sua defesa, mas a narrativa maior é de John Steinbeck. Se ambos queriam conhecer de perto, não o lado estatizado ou as políticas russas, mas o homem russo, a vida comum das pessoas, a curiosidade dos povos era recíproca. Foram submetidos a indagações sobre literatura e o modo de vida dos norte-americanos, coisas que nem sempre estavam preparados a responder. Durante as peregrinações se fartaram de alimentos tipicos, servidos de vodka como quem é servido de água, até no chamado pequeno almoço. Há passagens engraçadas, ao mesmo tempo angustiantes, sobre o fotógrafo e seu desespero pela autorização a fim de captar cenas de eventos públicos e mais tarde na liberação dos negativos quando do retorno aos EUA. No mundo analógico, as autoridades preocupavam-se menos com textos e mais com a verdade captada pelas lentes. "Em nada é tão frustrante a diferença entre os americanos e os soviéticos como na respetiva atitude, não só para com os escritores, mas também dos escritores para com seu sistema político. Porque na União Soviética o papel do escritor é estimular, glorificar, explicar e de todas as formas possíveis promover o sistema político soviético. Ao passo que na América, e na Inglaterra, um bom escritor é o cão de guarda da sociedade. O seu papel é satirizar-lhe os desconchavos, atacar-lhes as injustiças, estigmatizar-lhe as falhas. E é por isso que, na América, nem a sociedade nem o governo simpatizam muito com os escritores. São duas formas diametralmente opostas de encarar a literatura." Publicado em Portugal por Livros do Brasil - Dois mundos - Traduzido do inglês por Francisco Agarez

