Eu conhecia algumas performances artísticas da Grada Kilomba, mas imagino que o maior espetáculo que ela poderia nos apresentar encontra-se neste livro. Nascida em Lisboa, a autora desenvolveu sua tese de doutorado na Alemanha, da qual se originou esta obra sobre a realidade psicológica do racismo cotidiano vivenciado por mulheres negras. Ainda que com um pé no academicismo, o texto é, no geral, possível de acompanhar. Há momentos de análises mais densas ou cansativas, mas que são compensados por passagens capazes de abrir, facilmente, os olhos e a cabeça de qualquer pessoa que esteja disposta a refletir a sério sobre racismo. Decerto, os relatos das mulheres entrevistadas pela pesquisadora, sobretudo naquilo que se repete, é um ponto alto da obra. São revoltantes, constrangedores, mas duramente pedagógicos. A violência cotidiana das perguntas e do toque não autorizado nos cabelos dessas mulheres, por exemplo, só não fica evidente a quem não estiver encarando a leitura com honestidade.
O cuidado da apresentação da edição brasileira, em que são explicadas as especificidades linguísticas de termos raciais e racistas a depender do país em que são empregados (no caso, Alemanha, EUA e Brasil), convida a leitora a uma reflexão sobre escolhas de tradução que não deixa dúvidas de que 'o racismo não é biológico, mas discursivo'. Aqui também já temos acesso a alguns aspectos biográficos da autora e... ainda bem! Grada Kilomba é, tal qual seus sujeitos de pesquisa, também ela uma mulher negra. E, para sorte das leitoras, ela não busca se afastar desse ponto comum, mas, falando conscientemente a partir desse lugar, nos propõe 'uma epistemologia que inclua o pessoal e o subjetivo como parte do discurso acadêmico'. A ideia de neutralidade é, portanto, questionada: 'Eu, como mulher negra, escrevo com palavras que descrevem minha realidade, não com palavras que descrevem a realidade de um erudito branco, pois escrevemos de lugares diferentes'.
Eu não sou da área de Psicologia/Psicanálise, mas mesmo sendo leiga, fui surpreendida pelo recorte racial que Grada vai fazendo em diversas teorias clássicas que até então têm sido usadas para abordar questões psicológicas/psicanalíticas a partir de um sujeito sem cor que, no fim, acaba por cair na projeção de um sujeito branco.
'Parece, portanto, que o trauma de pessoas negras provém não apenas de eventos de base familiar, como a psicanálise argumenta, mas sim do traumatizante contato com a violenta barbaridade do mundo branco'.
São aspectos recorrentes na argumentação da autora as fantasias ou as projeções dos brancos sobre aquilo que as pessoas negras (ou a negritude) deveriam ser ou daquilo que a sociedade branca tenta reprimir em si mesma. Em síntese, 'no racismo cotidiano, a pessoa negra é usada como tela para projeções do que a sociedade branca tornou tabu'. Assim, o imaginário branco acerca das supostas 'agressividade', 'sexualidade exacerbada' ou 'sujeira' atribuídas às pessoas negras diz mais sobre os brancos do que o contrário, evidenciando que o racismo não é uma questão moral, mas um processo psicológico complexo, uma vez que o branco (ou a branquitude) espera que as pessoas negras performem o 'eu' que tem sido 'roteirizado pelo colonizador'. Sob esse prisma, sempre recorrendo à Psicanálise, debate-se o conceito de trauma (enquanto trauma colonial memorizado) dentro do racismo - aliás, é a partir disso que o título do livro vai ganhando fundamento.
Por fim, e não menos importante, Grada Kilomba discute de forma muito crítica o papel e o lugar do feminismo branco, fazendo um chamado bastante direto: 'Feministas brancas estavam interessadas em refletir sobre opressão como membras subordinadas do patriarcado, mas não sobre suas posições como brancas em uma sociedade supremacista branca - isto é, um grupo no poder em uma estrutura racista'.
Para quem já leu algum texto de Fanon ou bell hooks, ou então das intelectuais brasileiras Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez ou Beatriz Nascimento, talvez a tese de Grada Kilomba não traga muitas novidades. Entretanto, o mérito indiscutível da obra está na organização de ideias tal qual é proposta, que se destaca por amarrar teoria e 'prática' por meio dos duros relatos das mulheres entrevistadas. É como se Grada nos dissesse: 'Você não entendeu o que é o racismo? Ok, então vou desenhar!'.
Se for para registrar uma crítica negativa, eu diria que vejo aqui um problema comum do ambiente acadêmico: muitas vezes, ao se publicar uma tese em formato de livro, esquece-se de investir pra valer nessa transposição. Eu senti falta de uma organização que deixasse a obra com mais cara de livro do que de trabalho acadêmico, com menos fragmentação de ideias... De modo geral, o aproveitamento das leitoras é ótimo, mas acho que perdemos qualquer coisa com o fato de o texto ter ficado muito preso às amarras dos gêneros acadêmicos. Aí dou mérito pra Grada novamente, que compensa esse pormenor estrutural com uma linguagem agradável e, muitas vezes, subjetiva.
Temos aqui um livro marcante que, nas palavras da própria autora, não se preocupa em saber o que a pessoa negra fez diante de um episódio de racismo cotidiano, mas sim o que o racismo fez com aquela pessoa. Uma postura que, talvez, todas nós deveríamos exercitar mais.