A edição é primorosa, reunindo "O Livro da Selva" e "O segundo Livro da Selva" em único volume, de maneira pormenorizada sobre o autor, contexto da publicação no século 19 e versão integral dos contos com notas enriquecedoras à leitura.
Exatamente o que buscava, a obra em sua essência, em trabalho editorial com interessantes facetas.
Ficaria melhor se valorizasse ilustrações, principalmente as publicadas por Kipling. Seria muito legal e essa ausência foi o aspecto que não curti.
Sobre os livros, só agora descobri que os contos foram publicados de maneira seriada em revista inglesa, tendo o pai de Kipling como um dos ilustradores. Outro aspecto é que, além das histórias sobre Mowgli, alguns contos tem protagonismo de animais não correlacionados às aventuras na jângal.
Sobre o contexto de publicação é comum entre os leitores a percepção da obra em paralelos com o colonialismo britânico na Índia. Os textos introdutórios trazem interessantes divagações. Uma das mais significativas é a alegoria da jângal à identidade indiana, enquanto que o povo aldeão desperta a visão do imperialismo em opressão. Algo curioso, que se encaixa nas discussões instigadas...
Sobre o autor, entre os inúmeros informes, o que chamou minha atenção é que sua vida reproduz inspirações a outra romancista que abordou o contexto colonial britânico na Índia (Frances H. Burnett). Informação não presente no livro, mas instigou-me o paralelo. Esta tem três obras famosas sobre crianças, relacionadas à colonização citada, onde foram afastadas dos pais muito cedo, em desencontros com histórias melancólicas. Achava exagero da autora, como se fosse fórmula repetida oportunista, mas a biografia de Kipling reproduziu um pouco disso, sendo criança nascida na Índia com regresso para a Inglaterra rendendo também histórias impactantes. Recentemente li obra sobre o colonialismo e, ao que parece, essa foi faceta relativamente comum.
Os contos que ainda não tinha lido foram:
"Kotick, a foca branca" - uma diferenciada foca no Alasca, pela pelagem incomum e objetivos que saem da tradição, parte em busca de lugar onde ela e seus semelhantes estariam livres de perigos (como a caça pelos homens e orcas), encontrando-o, mas a receptividade ao novo é temerosa e a foca assume medidas radicais para fazer-se ouvir.
"Rikki-Tikki-Tavi" - sobre mangusto adotado por uma família, tornando-se guardião ao dar cabo de serpentes que intentavam matar a todos. Kipling pareceu querer ilustrar história de amizade entre homens e animais selvagens, como existe em Mowgli, além do perigo iminente das serpentes indianas.
"Toomai dos elefantes" - imaginava visceralidade parecida a "O último espetáculo da Vadete" (conto de Patricia Highsmith em "O livro das feras", sobre elefanta numa explosiva e melancólica luta pela liberdade), afinal, o conto de Kipling adentra o cenário de caça e exploração dos elefantes na Índia. É história de um menino de família de caçadores que na amizade com elefanta consegue testemunhar evento lendário na selva, uma tal dança dos elefantes.
Além de revelar cultura sui generis, acredito também em proposta parecida a do conto anterior, sobre amizade entre menino e animal, como existe em Mowgli.
"Servos da rainha" - conto sobre o imperialismo, ambientado no Paquistão, em que animais são protagonistas e, tal qual os homens, subjugados por governo opressor. Tem desfecho irônico em arrogância imperialista.
Fiquei com uma dúvida: afinal, Kipling era defensor do imperialismo na Índia? Por esse conto a resposta é positiva. O conto tem mensagem horrível, como se justificasse o colonialismo. Não gostei e não encontrei ainda textos em criticidade com essa percepção ao autor... Tenho entendido os contos como metáfora à opressão e agora, lendo esse que fecha o primeiro livro, fiquei com sensação de dominância que se julga necessária...
Revendo os contos... A foca impondo pela força o que julga ideal... A jângal indiana idealizando cenário selvagem em que o homem teve que se impor... O musaranho selvagem sendo domesticado e colocando-se como serviçal... A exaltação da cultura de caçadores de elefantes, de dominâncias e exploração... E o conto final, com homens e animais como servos da rainha... Fiquei agora com dúvidas sobre o subjetivismo inspirador...
Vou ler os contos restantes do segundo livro em outras edições que encontrei, circulantes entre escoteiros, que quero valorizar em registros no Skoob.
Leitura em Macapá, nos dias de pandemia, invocado com a crescente falta de cuidados do povo... É a doidice do carnaval que vem chegando e, mesmo tendo recomendações, já vai deixando os simpatizantes ouriçados para se jogar no lamaçal da desgraça...