Pais e filhos -

    Ivan Turguêniev

    Companhia das Letras
    2021
    344 páginas
    11h 28m
    ISBN-13: 9788535932324
    Português Brasileiro

    Com tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo e posfácio de Henry James, nova edição do clássico da literatura russa chega ao Brasil. Quando o jovem estudante Arkádi Nikolaitch retorna para casa, está acompanhado de um amigo e mentor, que causa imenso desgosto ao seu pai e seu tio. O companheiro, Bazárov, despreza qualquer autoridade, é antissocial e se proclama niilista. O conflito geracional que se segue é ímpar na literatura. Publicado em 1862, Pais e filhos continua a refletir o confronto entre gerações e as expectativas de um tempo anterior que se choca com as atitudes e os ideais dos momentos seguintes, esquecendo-se da potência transformadora da juventude. Com tradução direta do russo para o português, este clássico protagonizou uma das maiores polêmicas da literatura russa: Ivan Turguêniev foi acusado de ser responsável por atos criminosos cometidos por radicais influenciados por sua obra. De acordo com Rubens Figueiredo, tradutor do romance, ''é mais do que provável que o leitor atual chegue ao fim de Pais e filhos sem um julgamento conclusivo não só a respeito de Bazárov como também dos demais personagens. Mas sem dúvida terá gravadas no pensamento figuras humanas sem nada de vago ou de nebuloso''. Aqui, Turguêniev faz um sutil elogio à incerteza e não esquiva o leitor de se posicionar, simultaneamente, como pai e filho diante dos problemas de nossa época.

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    kam !25/02/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    "eis que agora chegou a nossa vez" o choque das gerações.

    Eu não esperava terminar pais e filhos com tantos pensamentos na cabeça. me surpreendi com o quanto essa leitura foi envolvente e relevante, trazendo reflexões que vão muito além da Rússia do século XIX. as ideias abordadas aqui são algo que realmente vale ser discutido, porque falam sobre um ciclo que se repete ao longo do tempo: a luta entre gerações, as transformações inevitáveis da sociedade e o confronto entre tradição e progresso. gostei muito de ver como turguêniev construiu essa narrativa sem tomar lados, mostrando tanto o impacto das novas ideias quanto a resistência das antigas. é um livro que não apenas conta uma história, mas provoca questionamentos sobre a própria natureza das mudanças. bazárov me parecia insuportável no início: arrogante, debochado, sempre certo de suas opiniões e desprezando qualquer sentimento que julgasse inútil. sua postura cética e sua necessidade constante de desdenhar tudo ao seu redor me irritavam profundamente. ele trata a arte, o amor, a espiritualidade e qualquer forma de idealismo como ilusões ultrapassadas, coisas que devem ser descartadas por uma visão mais racional e científica do mundo. mas, conforme a história avançava, comecei a enxergar camadas em sua personalidade e, apesar de ainda achá-lo arrogante, passei a compreendê-lo melhor. ele tem ideias revolucionárias, questiona valores antigos e desafia o status quo, e talvez fosse necessário que alguém como ele existisse para impulsionar mudanças. mas o jeito dele de se portar diante disso é? complicado. sua frieza, sua recusa em ceder a qualquer emoção e sua convicção de que tudo deve ser analisado de forma prática tornam sua trajetória tão fascinante quanto triste. arkádi, por outro lado, admira bazárov e tenta adotar seu jeito cético, mas, no fundo, ele não consegue se desvincular completamente das emoções e valores tradicionais. ele quer se enxergar como um homem moderno, sem amarras ao passado, mas é inevitável que certas raízes permaneçam. há um trecho que reflete bem essa contradição: "no íntimo, alegrou-se muito com o convite do amigo, mas julgou-se na obrigação de esconder seu sentimento. afinal, era um niilista!" esse detalhe me chamou atenção, porque mostra como as ideias podem ser absorvidas, mas nem sempre de maneira absoluta. nem todos podem ser como bazárov, que parece carregar consigo um desprezo autêntico por qualquer sentimentalismo. nikolai pertence à geração anterior e sente o peso dessas mudanças. ele tenta entender os jovens, mas percebe que há um abismo entre sua visão de mundo e a deles. diferente de bazárov e arkádi, nikolai é um homem romântico, um proprietário de terras que tenta acompanhar os tempos modernos, mas que, no fundo, tem dificuldades para se adaptar completamente. ele quer ser um pai compreensivo e acolhedor, mas percebe que os valores que ensinou ao filho já não fazem mais tanto sentido para ele. seu discurso sobre as diferenças geracionais me marcou: "certa vez, discuti com a nossa falecida mãezinha: ela gritava, não queria ouvir-me? por fim, eu lhe disse: a senhora, é natural, não pode me compreender; nós, é claro, pertencemos a duas gerações distintas. ela se ofendeu demais e eu pensei: o que fazer? o remédio é amargo, mas ela tem de tomar. eis que agora chegou a nossa vez e os nossos sucessores podem nos dizer: os senhores, é claro, não pertencem à nossa geração, tratem de tomar o remédio." esse trecho sintetiza perfeitamente o ciclo inevitável da vida: cada geração, em algum momento, se tornará ultrapassada aos olhos da próxima. é algo que não pode ser evitado. pavél, irmão de nikolai, representa uma outra faceta desse embate geracional. diferente de nikolai, ele não tenta entender os jovens. para ele, bazárov e tudo o que ele representa são uma ameaça à ordem, um ataque direto à civilização. pavél é um aristocrata que se apega ferozmente às tradições, ao bom gosto e aos valores que ele acredita definirem a sociedade. sua relutância em aceitar mudanças me fez pensar em como as gerações passadas frequentemente reagem quando veem seus costumes sendo questionados. ele não apenas discorda de bazárov, ele o despreza. o embate entre os dois é um dos pontos mais interessantes do livro, porque mostra como as ideias novas e antigas não apenas entram em conflito, mas também moldam o futuro. no fim das contas, bazárov também não consegue destruir completamente os valores antigos, assim como pavél não pode impedir que as mudanças aconteçam. porém, o destino de bazárov é o que mais me marcou. por mais que ele tenha tentado rejeitar tudo o que era antigo, no final, ele se vê preso à própria vulnerabilidade humana, algo que ele passou a vida toda tentando negar. é como se, no fim das contas, nem ele conseguisse escapar das mesmas emoções que desprezava. e isso me fez pensar: até onde podemos ir sem reconhecer que certos aspectos da vida ? como o amor, a família e as tradições ? sempre terão um peso sobre nós? em suma, o livro é uma grande reflexão sobre o choque entre gerações, a luta constante entre o velho e o novo. enquanto bazárov representa o niilismo, a descrença em qualquer tradição ou sentimento, outros personagens como arkádi e nikolai trazem nuances desse embate. turguêniev constrói essa narrativa de forma brilhante, sem tomar lados, apenas expondo as dificuldades e as transformações que cada personagem enfrenta. o choque entre gerações pode ser destrutivo, sim, mas também é essencial para o progresso. e, acima de tudo, é um processo contínuo. a cada nova geração, algo do passado é rejeitado, mas algo também permanece. e esse livro me fez refletir bastante sobre como o mundo que vivemos hoje foi moldado por aqueles que vieram antes de nós e como nossas escolhas e ideias moldarão aqueles que virão depois. é um daqueles livros que me fizeram pensar sobre o tempo, sobre as mudanças que acontecem ao nosso redor e sobre como, em algum momento, também seremos aqueles que precisarão ?tomar o remédio?.

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