Tudo que morde pede socorro -

    Cinthia Kriemler

    Editora Patuá
    2019
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-13: 9788582977835
    Português Brasileiro

    Leonora é uma mulher que vive com seus demônios. Para se ver livre de uma história de violência que culminou num acidente de carro que deixou sequelas, e que causou a perda de seu emprego como professora, ela decide ir morar na terra em que sua mãe nasceu. Em Baependi, uma pequena cidade no sul de Minas Gerais, passa a viver das traduções que faz para a empresa de um amigo. A jornada é de sobrevivência e de busca por um isolamento desejado, que lhe permita viver em paz. No entanto, o que a espera não tem nada a ver com paz. Aos poucos, enquanto traduz o livro de uma feminista francesa, vai sendo envolvida por vidas nada pacatas. Paula Regina, uma adolescente que passa por graves problemas. Fazal, um rapaz afegão que tem um passado de sofrimento marcante. Anna Bonifácio, uma escravizada do Séc. XIX cuja história lhe chega por meio de documentos antigos. E Nhá Chica, a filha de uma escravizada que foi beatificada pela Igreja Católica em 2013 e por quem Leonora sente fascínio desde pequena, por influência de sua mãe. Essa trama de desacertos, sofrimentos e narrativas intensas fala da dominação e da escravização do humano em diversos níveis. A escravização física. A escravização religiosa. A escravização sexual. E sobre os caminhos que cada um deles escolhe trilhar em direção à liberdade.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos13/07/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A liberdade como desafio em “Tudo que morde pede socorro”

    O romance é sabidamente um gênero que pode dar uma visão global do mundo. Sua faculdade essencial é essa de reconstruir, recriar. Reconstrói a seu modo o fluxo da vida e do mundo com meios próprios e intransferíveis, conforme uma visão particular, única e original que é a do autor. Hoje, particularmente, os romancistas têm se mostrado sensíveis aos temas e conflitos de uma sociedade em dissolução, em decadência. Tal esforço pode induzir à uma certo engajamento com determinadas causas na medida em que não há como escapar de sentimentos e pensamentos que se insuflam nas obras e que atingem a humanidade em nosso momento histórico. A própria cosmovisão do autor(a), pode pressupor um engajamento posto que num sentido amplo. É um compromisso não consciente nem deliberado, visto que a obra não foi escrita exclusivamente para defender essa ou aquela ideologia. O romancista ao criá-la carreou para ela tudo quanto nele é volição (poder de livre escolha), sensação, e ideação, o que envolve fatalmente questões atuais como, por exemplo, a constatação de que os grandes centros urbanos vão se tornando selvas inóspitas, ou as graves questões de gêneros e de escolhas sexuais, questões raciais, e até mesmo a problemática dos imigrantes que afetam imensos contingentes populacionais no mundo todo. Como se vê, problemas imensos e atuais. Com isto o gênero complexifica-se e ganha em amplitude e profundidade na análise crítica do que vem a ser a epopeia trágica de nossos tempos. Essa rápidas considerações de caráter teórico nos foram suscitadas pela leitura de “Tudo que morde pede socorro”, novo romance da escritora Cinthia Kriemler que nos apresenta a vida da protagonista Leonora. Uma mulher destroçada por uma relação matrimonial doentia e monstruosa com um tal Mateus e que, desejando reconstruir sua vida literalmente amputada (perdeu parte de um dos braços num misterioso acidente), muda-se para uma pequena casinha que herdara da mãe em Baependi, uma dessas pequenas cidades do interior do Brasil - sul de Minas Gerais - , submersa numa rotina espessa dentro de um tempo parado não se sabe quando, e caracterizada por uma neurótica e inalterável regularidade. Essa professora e tradutora almeja encontrar a paz de espírito que lhe permita restabelecer seu equilíbrio e as condições para adaptar-se a sua nova condição de mutilada usando uma prótese no braço amputado. Entretanto, a nova morada e as novas relações que ela acaba estabelecendo no ambiente, terminam por acentuar ainda mais seus traumas pessoais. Ainda que a visada feminista da obra esteja muito evidente – e não poderia deixar de ser ante a enxurrada de crimes e atrocidades cometidos em todos os níveis contra a mulher -, a autora, ao selecionar a porção de realidade que pretendeu analisar, procedeu com base em um entrelaçamento dramático que reduziu o campo de observação para melhor compreender. E o fez na afinidade de conflitos, no caso específico, dos relacionados à condição feminina e às questões de sexualidade que lhe são atinentes sem contudo deixar de imprimir à narrativa uma cosmovisão instrutiva e guiadora. Há na ficção da senhora Kriemler uma inegável habilidade em urdir a trama em capítulos breves enlaçando de tal forma esses dramas individuais que seus transes acabam por constituir a matéria mesma que aflige a humanidade e se traduz na terrível angústia do mundo atual com a gritante deterioração e desumanização de nossas relações afetivas. Observe-se que os dramas de maior destaque são: A existência destroçada de Paula Regina, uma adolescente que se vê violada e emprenhada pelo próprio pai. O imigrante afegão Fazal que tem um passado de violações sexuais inimagináveis, e ainda, uma empregada doméstica que se acomoda a circunstancia de atuar como prostituta nas horas vagas. Tudo acontecendo em uma sociedade extremamente conservadora, e até certo ponto conivente, que oculta sob a proteção de falsos mantos religiosos a barbárie humana, sobretudo a masculina. Essas vidas, de sofrimento avassalador, fazem vir à tona questionamentos existenciais de Eleonora que por sua vez, foi casada com um sujeito tão monstruoso, tão abjeto que chegava a dar-lhe murros e pontapés, dentre outras razões, porque a criatura menstruava, (ele tinha nojo do sangue!). Vejam como a coisa está pesada no mundo! Um verdadeiro circo dos horrores. Há ainda o evocar de questões raciais que desde o período colonial estão profundamente emaranhadas aos séculos de escravidão no Brasil, e seu rosário de atrocidades. Este evocar envolve um outro elemento na trama que, se por um lado poderia ser caracterizado como misticismo, por outro, e em virtude do tratamento ficcional adotado, constitui o elemento sempre presente na vida humana a que chamamos divindade ou simplesmente a existência de uma inteligência acima do homem, ou, se quiserem, o imponderável da vida. A fé e esperança que Leonora deposita na entidade de Nhá Chica (1810-1895 - filha de uma escrava que foi beatificada em 2013 pela igreja católica) acaba por constituir para o leitor a lembrança de que há algo mais além da simples matéria em nossas vidas. Finalmente, e a guisa de conclusão, chamamos a atenção para um detalhe: Podemos observar na capa de “Tudo que morde pede socorro” a ilustração de uma algema. Uma das argolas esta no canto da página e os elos da corrente vão se interligando, passam pelo miolo do livro e se projetam para a quarta capa onde vemos parte da segunda argola que volta para a capa. O efeito visual que nos causa, é o de horizonte fechado em opressão, uma argola da algema está na capa, e a segunda na contracapa. O leitor que refletir um pouco que seja, sobre esta peculiaridade, há de sentir uma opressão no peito, como se o livro passasse, a sensação aflitiva de prisão, de supressão de liberdade, de clausura que um objeto como uma algema inevitavelmente nos causa. Não nos pareceu ser essa a intenção da autora. Não a primordial. Nas 165 páginas do romance há um momento que ilustra magistralmente o âmago da questão no que tange a violência que praticamos uns contra os outros e, positivamente constitui o avesso do que um dia nos foi dito: o “amai-vos uns aos outros”, que relegamos para o capítulo das cretinices religiosas. Vejamos o trecho: “Para as pessoas de mentes doentias, as coisas devem acontecer de acordo com uma perspectiva de triunfo. Não há moralidade. Não há obstáculo. Não há remorso. Não há nada que as impeça de saciar as próprias vontades. E unicamente as suas. Tudo que elas pensam é no poder que têm ou querem ter sobre as suas vítimas. De intimidação, de manipulação, de vida e de morte.” A humanidade sequer suspeita, ou ao menos leva em conta, que mentes doentias talvez não sejam apenas e unicamente, aberrações da natureza... Fica a dúvida atroz... Tudo isto na urdidura da trama romanesca da senhora Cinthia Kriemler nos faz refletir profundamente porque é que “Tudo que morde pede socorro”. Faz calar fundo nossas consciências ao percebermos como os elos se multiplicam de algoz à vítima, e desta novamente e sempre, de volta para o algoz numa cadeia infinita. Este positivamente um dos elos – talvez o mais vigoroso –, que vergam as algemas que nos prendem uns aos outros e faz com que a humanidade continue arrastando por eras a fio esses pesados grilhões que tolhem a nossa verdadeira liberdade. Livro: “Tudo que morde pede socorro” – Romance de Cinthia Kriemler – Editora Patuá – São Paulo - SP, 2019, 165 p. ISBN 978-85-8297-783-5 http://www.editorapatua.com.br/produto/84047/tudo-que-morde-pede-socorro-de-cinthia-kriemler

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