Posso garantir que este é um livro único e que nunca li nada nem de perto parecido. O Livro de Daniel é uma reconstrução ficcional do caso Rosenberg, famoso nos Estados Unidos, e é narrado com uso extraordinário do fluxo de consciência (técnica literária que no texto se observa o processo de pensamento do personagem). A história se passa em dois tempos diferentes da memória de Daniel, mas apresentados simultaneamente: ele criança nos anos 1950 vendo seus pais judeus anti-fascistas serem condenados à cadeira elétrica por crimes de espionagem (que não se sabe se foram de fato cometidos); e ele já adulto nos anos 1960/70 tendo que lidar com uma tentativa de suicídio da irmã. Para entender melhor o contexto da época e a influência desta na construção dos personagens, o autor introduz na própria narrativa ficcional conceitos teóricos sobre comunismo, funcionamento mecânico da corrente elétrica, papel de Deus no antigo testamento, lógica do pensamento radical, entre muitos outros. Todas essas contextualizações são detalhadas e apresentadas de forma integrada à história, mesmo sem aparente relação direta com a narrativa. O desenvolvimento dos personagens históricos-fictícios também é muito bem feito, consegue-se perceber todas as correlações entre o passado e o presente daquela família e também daquela sociedade. A escrita pode ser difícil para quem não estiver no gás da leitura, mas garanto que é muito bem feita e instigante, principalmente para quem se deixar envolver na complexidade da trama. Estou profundamente impactado com este livro e sei que o lerei novamente no futuro, usando outras lentes sociais e ideológicas, e tenho certeza que me impressionarei com sua qualidade mais uma vez. É definitivamente um livro extraordinário e difícil de descrever que mudou a forma como percebo o mundo e suas infinitas relações. Muito obrigado por tudo, Doctorow!