Primeiras Leituras não tenta ser grandioso, e essa é sua maior virtude. Paulo Mendes Campos escreve como quem conversa baixo, observando o mundo pela fresta. O livro é um conjunto de crônicas que tratam do cotidiano, da memória, da infância, da leitura e do próprio ato de pensar, sempre com uma sensibilidade elegante e sem afetação.
A escrita é limpa, irônica na medida certa, e profundamente humana. Nada aqui grita. O autor prefere o detalhe mínimo, o gesto banal, a lembrança aparentemente irrelevante. E é justamente aí que mora a força do livro: ele entende que a vida não acontece nos grandes eventos, mas nos intervalos.
Existe um tom constante de nostalgia, mas não é uma nostalgia açucarada. É crítica, às vezes melancólica, às vezes divertida. Paulo Mendes Campos observa o tempo passando com uma mistura de carinho e lucidez. Ele não idealiza totalmente o passado, mas também não o trata com cinismo. Há equilíbrio, coisa rara.
O título não é gratuito. Primeiras Leituras fala da formação do leitor, mas também da formação do sujeito. Ler, aqui, é aprender a olhar, a nomear o mundo, a se reconhecer nele. É literatura sobre literatura sem virar ensaio acadêmico chato. Milagre.
Por que não é 5/5? Porque nem todas as crônicas têm o mesmo impacto. Algumas se diluem um pouco, dependem demais do clima e menos da ideia. É um livro que funciona melhor lido aos poucos, em doses pequenas. Maratonar enfraquece a experiência.
Conclusão:
Primeiras Leituras é delicado, inteligente e honesto. Não tenta impressionar, e acaba impressionando justamente por isso. Um livro para leitores que já entenderam que profundidade não precisa de barulho.