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    Nove noites -

    Bernardo Carvalho

    Claro Enigma
    2008
    174 páginas
    5h 48m
    ISBN-17: ISBN9788561041175
    Português Brasileiro
    3.5
    4374 avaliações
    Leram6639Lendo340Querem2915Relendo12Abandonos326Resenhas522
    Favoritos0Desejados2915Avaliaram4374

    Em 1939, o antropólogo americano Buell Quain se matou, aos 27 anos, ao tentar voltar para a civilização, vindo de uma aldeia indígena no interior do Brasil. Sessenta e dois anos depois, ao descobrir o episódio por acaso, o narrador de Nove noites começa uma investigação obsessiva para elucidar o suicídio e acertar contas com a própria história. Na noite de 2 de agosto de 1939, um jovem e promissor antropólogo americano, Buell Quain, se matou, aos 27 anos, de forma violenta, enquanto tentava voltar para a civilização, vindo de uma aldeia indígena no interior do Brasil. O caso se tornou um tabu para a antropologia brasileira, foi logo esquecido e permaneceu em grande parte desconhecido do público. Sessenta e dois anos depois, ao tomar conhecimento da história por acaso, num artigo de jornal, o narrador deste livro é levado a investigar de maneira obsessiva e inexplicada as razões do suicídio do antropólogo. Em sua busca obstinada pelas cartas do morto ou pelo testamento de um engenheiro que ficara amigo do antropólogo nos seus últimos meses de vida, o narrador é guiado por razões pessoais que não serão reveladas até o final do romance, mas que dizem respeito à sua experiência de criança na selva, à história e à morte de seu próprio pai. Nove noites narra a descida ao coração das trevas empreendida pelo jovem expoente da antropologia americana, colega de Lévi-Strauss e aluno dileto de Ruth Benedict, às vésperas da Segunda Guerra. A história é contada em dois tempos, na tribo dos índios krahô (interior do sertão brasileiro) e na combinação progressiva entre a busca pelo testamento do engenheiro e a pesquisa que o narrador vai fazendo em arquivos, atrás das cartas do antropólogo e dos que o conheceram na época. Para escrever o livro, Bernardo Carvalho travou contato com os Krahô, no estado do Tocantins, e foi aos Estados Unidos em busca de documentos e pessoas que pudessem saber algo sobre o antropólogo. A história de Buell Quain revela as contradições e os desejos de um homem sozinho numa terra estranha, confrontado com os seus próprios limites e com a alteridade mais absoluta, numa narrativa que faz referências aos romances de Joseph Conrad e aos relatos do escritor inglês Bruce Chatwin.

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    Matheus Petris picture
    Matheus Petris10/06/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Isto é para quando você vier

    “Na terra cujo herói matou um milhão de índios.” - Mano Brown O livro é um desafio. Daqueles desafios que todo leitor preocupado com a forma e a própria conceituação de narrativa, gostam de adentrar. Juntando os escombros de dois narradores completamente diferentes, tenta-se reconstruir o passo-a-passo de um suicida, como também contextualizar os ambientes nos quais ele frequentou. Existe um motivo para o suicídio? Por mais que essa pergunta ronde a narrativa e seja seu ponto de partida, no fundo, ela não importa tanto. O fim, se é que há algum, é apenas a quebra, o estilhaço daquilo que foi construído por fragmentos opacos e volúveis. No meio do embaralhamento das narrativas, todas as cartas estão manchadas de sangue. Assim como as memórias, tão inconfiáveis quanto a linearização e conexão entre recortes de jornais, cartas, testemunhos… Sujo além do sangue, do caráter subjetivo de nossas relações empíricas de mundo. Tudo é questionado. Ou, melhor, tudo seria ficção? Neste amálgama entre ficção e realidade, a própria memória é um ponto a ser questionado, pois tem caráter fugidio e inventivo. Se, preenchemos lacunas nos nossos fragmentos de memórias, o livro também tenta preencher lacunas deixadas por um suicídio aparentemente sem motivo, como também convida o leitor a tentar preenchê-las. E ainda sim, continuamos pisando sobre a impossibilidade de encontrar uma resposta. Chamam esse livro de uma metanarrativa histórica/metaficção historiográfica, se é ou não, o fato é que essa obra de ficção, contundentemente questiona a própria ficção, questiona a nossa capacidade de contar histórias e a ideia de narrativa. Sabemos que movimentos que colocam toda a ideia de literatura em xeque, não foram necessariamente uma invenção do século XX e da Modernidade, mas é nesse tempo que se eclodem os mais diversos autores para colocarem isso em pauta, em foco. Se aqui no século XXI, quase não há capacidade de inovação, existe a possibilidade de sacar a complexidade rarefeita da narrativa moderna (ou pós-moderna, como queiram) e, utilizando de seus artifícios, jogar luz sobre um problema que existe desde o “descobrimento” do Brasil, que na verdade não foi descoberto, foi invadido. Para isso, terá que desenterrar demônios que às vezes tentamos esquecer — e esquecemos. E nós, como seres sociáveis, e como personagens de nossas histórias muitas vezes embrutecidas pela dor, caminhamos por esse campo de sangue, edificando cidades para esconder necrópoles. Os mortos e os mistérios continuarão magnetizando-nos, seduzindo-nos. Por isso, virão mais narrativas como essas, pois, nossa curiosidade é mórbida. Venha leitor, adentre no mistério insolúvel e vibre com o sangue.

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