Caro leitor se você gosta de romances policiais e não conhece Andrea Camilleri não imagina o que está perdendo!
Esqueça os seriados como Criminal Minds, CSIs, etc, e caso você seja como eu, grande apreciador de séries europeias, sabe que a diferença entre estas e as americanas é tão grande como o oceano que separa os dois continentes. Principalmente por causa da qualidade do texto, em detrimento da produção, apesar de que eu não tenha nada absolutamente contra esta visão mais realista!
Apenas como exemplo, posso citar a Dra. Megan, de Body of Proof, realizando autopsias sem estar devidamente paramentada, é desesperante. Em um dos episódios o cabelo maravilhosamente escovado, entrava em contado imediato com um corpo decomposto! Fala sério! Que tipo de prova poderia surgir sem estar contaminada, pelo lindo penteado da Dra. Megan? Sem falar nos saltos altíssimos para checar a cena do crime...
Bom, tudo isso é apenas para situar o tipo de livro que você vai ler, já que os crimes a cargo do incrível Comissário Salvo Montalbano serão investigados, e quase sempre solucionados, a partir de averiguações e interrogatórios conduzidos com inteligência e humanidade por esse quarentão simpático e muito bem sucedido.
A área de atuação de Montalbano fica na cidade imaginária de Vigàta, na igualmente fictícia província de Montelusa, na Sicília. Região problemática da Itália, e onde o próprio Andrea Camilleri nasceu, em 1925.
Em “A Lua de Papel”, Montalbano é procurado por Michela que está desesperada para saber o paradeiro de seu irmão, desaparecido há dois dias. Nesta investigação nosso comissário vai tentar reconstruir a vida de Angelo Pardo, um informante médico-científico, o irmão desaparecido de Michela, cujo corpo foi encontrado de forma a deixar seu sexo exposto, indicando que a vítima havia tido relações sexuais pouco antes de morrer.
A linha de ação escolhida por Montalbano é procurar a mulher, já que em vista da cena do crime era a opção mais lógica. Isso fará com que ele seja obrigado a entrar em contato direto com mulheres intensas, dramáticas e sensuais. E, mesmo em contato com essas mulheres sedutoras, nosso comissário se mantém fiel à Lívia, sua noiva. Sem falar que ao longo da investigação, veremos como estranhas e complexas podem ser as relações humanas e familiares.
Mas, se você está imaginando que é um livro pesado ou aborrecido, pode parar imediatamente. Andrea Camilleri é um debochado, cínico e inteligentíssimo. Ler os seus livros é um prazer enorme, e sou surpreendida com cenas que me fazem gargalhar, mesmo depois de dias, com as situações criadas a partir da interação de Salvo Montalbano com seus subordinados e até mesmo com seus dúbios superiores. Porque não podemos esquecer que estamos na Sicília, uma região onde a máfia italiana se faz presente em todos os setores da administração pública, e da vida da população de forma geral.
Livia, a noiva de Montalbano é um caso a parte. Morando e trabalhando em outra cidade, as conversas telefônicas e as visitas ocasionais de um ao outro, são sempre momentos deliciosos de humor refinado e criativo. Sem contar que o cardápio do nosso comissário sempre me deixa com água na boca.
O primeiro volume da série é o excelente “A Forma da Água”. Dê uma chance para a sua inteligência e divirta-se com esse Comissário e seus colegas! Tenho certeza que você não vai se arrepender.
Uma edição caprichadíssima da Record, com a tradução e a revisão perfeitas!