Nesta obra, Joanice Santos Conceição nos deixa um legado profundo e enigmático sobre a construção das masculinidades e feminilidades em dois rituais mortuários no contexto baiano, onde a presença-ausência dos corpos femininos / masculinos racializados se performatizam e se generificam através de atos, divisões, rituais, hierarquias e simbologias de ocupação dos espaços sagrados. O protagonismo das mulheres em um determinado culto e a predominância de homens no outro, nos levaria a pensar nas identidades de gênero dicotômicas e essencializadas na concepção do corpo dividido entre o masculino e o feminino. Mas a grande contribuição do trabalho de Joanice Conceição é revelar que o gênero se transmuta no corpo e nos códigos culturais que o inscrevem – os rituais, as divisões sexuais, as relações de poder foram estruturantes na produção de novas subjetividades engendradas pelo gênero na manutenção e na transgressão das relações sociais hegemônicas: ou seja, “as mulheres, ao invés de questionarem a exclusão feminina nos rituais, usam o corpo para subverterem a ordem vigente [...] Mulheres e homens usam estratégias corporais da masculinidade hegemônica e da feminidade dita subalterna para vencer as contradições rituais”. É uma obra primaz, é o sagrado colocando em desuso as concepções tradicionais da identidade de gênero na vida cotidiana. – Profa. Dra. Ana Cláudia Pacheco
Irmandade da Boa Morte e Culto de Babá Egum - Masculinidades, feminilidades e performances negras
Joanice Conceição
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Ver maisQuando os ritos mortuários constroem gênero: um estudo antropológico sobre narrativas corporais
O livro é bom, eu gostei. Mas preciso deixar claro desde o início: não se trata do culto yorùbá tradicional para Egúngún. Quem busca conhecer o Egúngún yorùbá se frustrará. O título pode gerar expectativas equivocadas sobre o conteúdo da obra. Trata-se, na verdade, de um rico estudo sobre como a Sociedade da Boa Morte (feminina) e o Culto de Bàbá Egúngún (masculino) — ambos brasileiros — criam narrativas de gênero para seus adeptos. Joanice Santos Conceição, doutora em Ciências Sociais/Antropologia pela PUC-SP, realiza uma análise antropológica sofisticada sobre como os ritos mortuários constroem narrativas sobre os corpos dos praticantes, criando valores e regras que organizam as relações de gênero dentro desses espaços religiosos. A tese central do trabalho é demonstrar como masculinidades e feminilidades são performadas e construídas através dos rituais mortuários. Não se trata de essências biológicas, mas de construções sociais que se materializam através de práticas rituais específicas. É justamente nessa abordagem que reside o grande mérito da obra. Como os ritos mortuários constroem narrativas sobre corpos — essa é a questão que perpassa toda a análise. Conceição demonstra que, tanto na Irmandade da Boa Morte quanto no Culto de Bàbá Eégún, os rituais não são apenas formas de lidar com a morte, mas mecanismos de produção e manutenção de identidades de gênero. Os corpos dos praticantes são disciplinados, organizados e significados através das performances rituais. No Culto de Bàbá Eégún, a exclusividade masculina na execução dos rituais que invocam e fazem surgir os ancestrais materializados é justificada através de narrativas mitológicas. Os homens argumentam que mulheres não podem participar porque têm "uma sociedade só delas" — referindo-se ao fato de que Iyansã é considerada mãe dos Eégún. Essa justificativa, como bem demonstra a autora, utiliza o capital mítico para legitimar a divisão sexual do trabalho ritual e a hierarquização de gênero. Por outro lado, a Irmandade da Boa Morte protagoniza uma organização que ostenta em seus discursos a exclusividade feminina. Aqui, as mulheres não apenas participam, mas comandam. São elas que organizam as festas, mantêm as tradições e negociam entre o universo católico público e o universo do candomblé privado. A Boa Morte, sendo uma organização feminina, acessa lugares considerados masculinos no universo ritual, subvertendo a lógica de exclusão que opera no Culto de Bàbá Eégún. O que torna o trabalho particularmente interessante é a análise de como ambos os grupos utilizam o sistema africano de crença mitológica — ainda que ressignificado — para embasar seus discursos. De um lado, os homens justificam a exclusão feminina dos espaços dos rituais mortuários através dos mitos. De outro, as mulheres usam os mesmos repertórios mitológicos para explicar como os homens saíram da condição de dominado para dominador e, mais ainda, subvertem a ordem da masculinidade dominante quando transitam e realizam homenagens aos espíritos ancestrais. Mas é preciso ler com clareza sobre o que o livro é e o que não é. Não é um manual sobre Egúngún yorùbá. Não é uma descrição dos rituais tradicionais iorubanos. É uma análise antropológica sobre como, no Brasil, dois grupos religiosos específicos utilizam ritos mortuários para construir narrativas de gênero que organizam a vida de seus membros. A observação dos dados empíricos, aliada à teoria, permitiu à autora apreender as contradições surgidas nas narrativas dos homens e mulheres, face às diversas formas de produção de masculinidades/feminilidades e contestação da hegemonia masculina. Essa é a grande contribuição do trabalho: mostrar que a dualidade perpassa não apenas o sistema de crenças dos integrantes da Irmandade da Boa Morte e do Culto de Bàbá Eégún, mas todas as esferas da vida dos envolvidos nos processos rituais. Recomendo!
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