Parte I:
O intérprete moderno faria bem em evitar assumir uma postura de profeta, como se a verdade, o significado autêntico da filosofia de Hegel, tivesse permanecido escondido para todos e inacessível por mais de um século e meio para se revelar, de repente e de modo fulgurante, a um estudioso afortunado e genial, estudioso que é, naturalmente, o último a aparecer em ordem temporal. Vêm à mente as palavras com que Engels descreve a postura dos profetas religiosamente inspirados, que anunciam o advento de uma nova ordem social, livre, por fim, dos velhos erros: O que faltava era o gênio individual que agora entrou em cena e reconheceu a verdade [
]. Esse gênio poderia muito bem ter nascido quinhentos anos antes e, nesse caso, teria poupado à humanidade quinhentos anos de erros, lutas e sofrimentos. Em nosso caso, a economia de anos consentida pela nova e inédita interpretação de Hegel seria inferior, apesar de considerável, mas permaneceria de qualquer forma imutável o essencial, isto é, a postura de profeta.
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Parte II:
Não há dúvidas de que, depois das primeiras tentativas, Hegel se esforça para ser o teórico do mundo moderno e da liberdade moderna, cujo fundamento está no reconhecimento da dignidade e da autonomia do indivíduo.
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Voltemos, aqui, a Rousseau e Hegel. Se olharmos com atenção, vemos que foram acusados pela tradição liberal por instituir uma relação entre política e economia, entre liberdade e condições materiais de vida, por teorizarem com maior ou menor clareza aquilo que Hegel define como direito positivo ou direito material. Deve-se acrescentar que essa nova e mais rica configuração do direito foi pensada por Rousseau num esforço de permanecer fiel a um ideal de sociedade que está aquém do mundo industrial moderno, ao passo que Hegel se esforçou para pensá-la a partir dos problemas e das contradições próprias deste mundo, já que não é mais possível nem lícito retroceder.
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Parte III:
O comportamento de ruptura ou de afastamento em relação à realidade política, motivado pelo não reconhecimento da subjetividade moral na eticidade existente, é legítimo apenas se constituir um estágio transitório, isto é, se servir de estímulo para a realização de um mais rico ordenamento ético e político, ao passo que o dever ser que se torna perene em que se detém o ponto de vista meramente moral é acusado por Hegel não só de inconclusão política, mas também, como sabemos, de insinceridade moral. Nesses momentos de crise, eis que pode voltar à atualidade a figura trágica do herói, que, porém, é herói só na medida em que expressa, por seu risco e perigo, uma necessidade objetiva da época e dos seres humanos de sua época, mas também na medida em que consegue realizar concretamente tal necessidade, edificando, assim, uma eticidade nova e mais rica, que, por sua vez, torna supérflua a figura do herói. Nesse sentido, Hegel poderia exclamar com Brecht: Felizes os povos que não precisam de heróis, ainda que a ação deles, em situações dramáticas de crise, possa se revelar historicamente necessária e benéfica.
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