Neste livro original e inovador, Peter Linebaugh e Marcus Rediker tratam da história oculta do proletariado atlântico nos séculos XVII e XVIII. Composta por trabalhadores que foram indispensáveis ao crescimento do capitalismo, mas que desempenharam funções que passaram despercebidas aos historiadores - derrubada das matas, levantamento de cercas, drenagem dos pântanos -, essa classe teve um caráter internacional, multiétnico e multicultural. Ao examinar a resistência desse grupo contra a emergente ordem capitalista, os autores transitam por temas como o conteúdo histórico d´A tempestade de Shakespeare, a plataforma dos radicais na Revolução Inglesa e sua oposição à expansão escravista e imperial britânica, e até a formação da democracia pirata, por exemplo. O livro acompanha, em uma narrativa envolvente, as voltas do bumerangue revolucionário pelo espaço atlântico: Linebaugh e Rediker demonstram como tradições políticas democráticas que nasceram na metrópole, na esteira do processo de expropriação dos camponeses e trabalhadores urbanos, passaram pelos ventos do tráfico negreiro na costa africana, adquiriram força nas plantations do Novo Mundo e voltaram com força para os portos europeus, alimentando o radicalismo do operariado no curso da Revolução Industrial.
A Hidra de Muitas Cabeças - Marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário
Peter Linebauch, Marcus Rediker
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Ver maisResenha de dois capítulos do livro.
LINEBAUGH, Peter; REDIKER, Marcus. A Hidra de Muitas Cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário. Tradução de Berilo Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 155-261. O livro A Hidra de muitas cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário, lançado pela Companhia das Letras em 2000, irá abordar, por um ângulo diferente, a navegação no Atlântico e sua hidrarquia, assim como a formação do capitalismo, analisará a “formação de uma classe proletária internacional”, as formas de resistências, motins e lutas das diversas classes e etnias, por igualdade e liberdade, tanto nos navios quanto na sociedade. O objeto dessa resenha são dois capítulos da obra, o capítulo cinco: Hidrarquia: marinheiros, piratas e o Estado marítimo e o capítulo sete: A horda heterogênea da Revolução Americana. O encontro desses dois historiadores, que estudam respectivamente, História Inglesa e História da América do Norte e do mundo marítimo da Idade Moderna, resulta em um livro de linguagem simples e fluente, facilmente entendido por qualquer leitor, e serve como mais uma referência aos pesquisadores e estudantes de História Social. Os autores partem da análise de toda a estrutura marítima, desde os principais fatores motores da navegação até a crise gerada pelos maus tratos e atrasos nos soldos dos marinheiros. “Nosso livro é um olhar de baixo para cima. Tentamos recuperar alguma coisa da história perdida da classe multiétnica essencial ao surgimento do capitalismo e da moderna economia global”. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 15) A hidra de Lerna é um dos doze trabalhos de Hercules, e representa em metáfora a dificuldade dos governantes em manter a ordem, pois, no mito ao cortar uma cabeça renascia outras no lugar. Desde o começo da expansão colonial inglesa, na alvorada do século XVII, até a industrialização metropolitana do início do século XIX, governantes usaram o mito [...] para descrever a dificuldade de impor a ordem em sistemas de trabalho cada vez mais globais, apontando aleatoriamente plebeus esbulhados, operários urbanos, soldados, marinheiros e escravos africanos como as cabeças numerosas e sempre cambiáveis do monstro. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 12). Os autores partem dessa heterogeneidade para defender que a Revolução Inglesa, embora tenha partido de causas locais, como a Lei do Selo, toma proporções maiores e abarca outras nacionalidades, expandindo seus ideais até as colônias americanas, pois a Inglaterra nesse momento fazia comércio marítimo com diversas outras regiões, o que se tornou um ponto de encontro entre ideais, lutas, línguas e povos diferentes. A influência da Revolução Inglesa fez-se sentir do outro lado do Atlântico, uma vez que os trabalhadores da terra conseguiram identificar-se com as lutas dos homens do mar, a exploração, falta de liberdade e as péssimas condições de vida aproximavam esses homens, criando uma espécie de solidariedade. Por uma abordagem nova, bastante interessante o livro A Hidra recria o cenário da pirataria, e traça seu caminha desde a sua “institucionalização”, quando as potências financiavam-na, a fim de prejudicar umas as outras e obter o máximo de lucro, até o momento em que esses homens voltam-se contra elas. Reivindicando direitos de cidadãos e questionando a ordem vigente. Esses homens do mar criam uma hidrarquia de baixo para cima, resistem, assim à outra hidrarquia, a oficial, representante do Estado. A pirataria surge como escape para as leis do Estado, no navio eles agiam democraticamente, solidariamente e igualmente: O navio tornou-se ao mesmo tempo motor do capitalismo, na seqüência da revolução burguesa na Inglaterra, e cenário de resistência, um lugar para o qual e no qual as idéias e práticas dos revolucionários derrotados e subjulgados por Cromwell, e depois pelo rei Charles, escapavam, reordenavam-se, circulavam e persistiam. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 157). O comércio atlântico, conhecido como triangular entre África, América e Europa, ligava três continentes de pessoas descontentes e esses descontentamentos navegavam junto com os marinheiros, atravessando fronteiras culturais, geográficas e sociais, unindo-os a um só ideal: liberdade! Por esse ideal juntavam-se em navios e enfrentavam as esquadras Atlântico a fora, o fato é que obviamente essa reversão da ordem gerava diversos descontentamentos entre a elite comercial, a pirataria havia se tornado uma ameaça em potencial ao objetivo maior, o lucro e a garantia de monopólio. Sendo que, a ligação entre a Inglaterra e as colônias inglesas na América dava-se através do mar, logo, de uma horda multicultural de pessoas reprimidas pelo Estado e insatisfeitos com a precária vida que levavam, ainda que o Estado tenha tentado reprimir o movimento revolucionário, e num primeiro momento o tenha conseguido, a hidra sempre renasce, numa mistura de homens da terra (trabalhadores dos portos, tabernas, plantations) e ex-marinheiros, vindo das diversas partes do globo, continuavam com os ideais de liberdade, não mais submissos a Inglaterra, que se encontrava fragilizada, devido às lutas internas entre Parlamento e o rei, e com a própria Revolução. No capítulo sete os autores irão tratar da heterogeneidade dessa horda, que compõe o cenário da Revolução Americana, como já foi dito, o contato marítimo produz frutos, nem sempre positivos ao Estado, de modo que escravos e marinheiros, pilares do capitalismo inglês, unem-se e iniciam “um ciclo de rebeliões”. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 225). Os autores afirmam que essa horda heterogênea raramente é discutida em histórias da Revolução Americana, mas que é um assunto que eles veem acompanhando desde a hidrarquia das décadas de 1710 e 1720 até as revoltas de escravos e insurreições urbanas dos anos de 1730 e 1740. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 225), e que a partir da derrota desses movimentos que foi possível estabelecer uma expansão do comércio e da escravidão, logo uma estabilidade imperial, mas é nesse momento que escravos e marinheiros iram iniciar “o ciclo de rebeliões”. Operações no mar e em terra, de motins à insurreição, fizeram da horda heterogênea a força motriz de uma crise revolucionária nos anos 1760 e 1770. Essas ações ajudaram a desestabilizar a sociedade civil imperial e empurraram a América rumo à primeira guerra colonial por libertação no mundo moderno. Ao estimular e comandar o movimento de baixo para cima, a horda heterogênea influenciou a história social, organizacional e intelectual daquela época e demonstrou que a Revolução Americana não foi um fenômeno de elite ou nacional, pois sua gênese, seu processo, seu resultado estavam ligados à circulação da experiência proletária em volta do Atlântico. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 225). Os autores dizem ainda que o movimento inicia o pan-africanismo e o abolicionismo e que: “A horda heterogênea ajudaria a desintegrar o primeiro Império britânico e a inaugurar a era atlântica de revolução”. (LINEBAUGH; REDIKER, 2008, p. 226). Por fim, partem para caracterização desses grupos, locais onde provocavam a crise (portos, pistas de dança etc.), formas de resistências contra o recrutamento e contra a escravidão, e como essas lutas repercutiram América a fora (a exemplo de Londres e Jamaica). Analisam ainda o movimento de contra-revolução e as medidas legais ou não para calar a turba, tomadas por proprietários, comerciantes e artesãos que temiam a anarquia. Houve casos em que os escravos saíram das plantations e ingressaram no exército real, em troca de liberdade. Era uma das medidas de dispersar a horda e desarticular a luta. Porém a hidra sempre renasce em algum lugar.
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