O crime do lúgubre padre Amaro
Ler O Crime do Padre Amaro foi uma experiência cansativa do começo ao fim. Não apenas pelo tamanho do livro, mas porque a história insiste nos mesmos pontos sem nunca realmente avançar. Diante da postura crítica de Eça de Queirós em relação a outros nomes da literatura, especialmente quando se coloca em oposição a autores como Machado de Assis, é difícil não esperar um livro à altura. No entanto, essa expectativa não se confirma, e a sensação que fica é a de que a ousadia do discurso não se sustenta na própria obra. O protagonista é fraco e pouco interessante. Falta carisma, profundidade e qualquer traço que faça o leitor se importar com ele. Mesmo que essa escolha tenha sido proposital, ela não funciona a favor da narrativa, já que acompanhar um personagem vazio por tantas páginas só torna a leitura mais desgastante. A escrita reforça esse cansaço. Tudo no livro é pesado, sombrio e excessivamente repetitivo. O próprio adjetivo “lúgubre”, TÃO usado pelo autor, parece definir não só a obra, mas a sua escrita como um todo. Há pouca variação de vocabulário e uma insistência constante nas mesmas imagens e descrições, o que torna a leitura arrastada e, em muitos momentos, estressante. A crítica à Igreja Católica, que deveria ser o ponto central do romance, acaba se perdendo. Em vez de aprofundar a discussão, o livro se alonga em diálogos intermináveis e descrições desnecessárias. A repetição de comentários sobre o corpo de Amélia, especialmente seus “peitos brancos”, contrasta de forma quase absurda com a tentativa de afirmar que o amor do padre seria puro. Essa contradição não provoca reflexão, apenas cansa. Também chama atenção a forma exagerada e forçada com que os personagens elogiam o clero ao longo da narrativa. O tom supostamente cômico não convence e o realismo acaba sendo fraco, sem força suficiente para sustentar a crítica que o autor parece querer fazer. Li o livro até o fim para ter uma visão completa da obra. O final, apesar de apresentar uma situação que poderia acontecer na realidade, não compensa o caminho longo e repetitivo até ele. A crítica existe, mas se dilui em meio a capítulos vazios e discussões que pouco acrescentam à narrativa. No fim das contas, fica a impressão de que O Crime do Padre Amaro serve mais como um espaço para que Eça de Queirós expresse sua aversão à Igreja Católica do que como uma crítica bem construída. O resultado é um livro repetitivo, cansativo e, muitas vezes, desagradável de ler.


