O Cruzeiro, revista de circulação semanal no século passado, tem várias referências à escritora Carolina Maria de Jesus. Deixo em registro a segunda reportagem de grande repercussão, assinada pelo jornalista Audálio Dantas, quem a revelou na edição de 1959, onde "Quarto de despejo" tornou-se notório na sociedade.
A reportagem vale principalmente pelas fotos, que dão percepção da projeção meteórica da autora e seu livro pioneiro, rapidamente um best-seller.
Vemos o dia do lançamento, evento diferenciado que lotou a Livraria Francisco Alves (editora do livro) e as imediações, parando o trânsito, contando com várias autoridades, como o Ministro do Trabalho (numa falácia estratégica, prometeu uma casa para Carolina... Oche! Por que não falou do contexto retratado no livro...).
Para se ter ideia da projeção do evento, naquele dia Carolina assinou 1500 exemplares, que correspondia ao número de uma tiragem normal, e foram impressos 10 mil exemplares. O sucesso foi maior que o de consagrados escritores, como Jorge Amado. Razão no ineditismo temático da obra e singularidade da autora. "Quarto de despejo" foi um olhar diferenciado, considerado jornalístico, sobre o cotidiano da favela, tornando-se conhecido em debates diversos na mídia do contexto.
O registro é valoroso para estudos biográficos. Será que já fizeram algum filme sobre ela? Peça teatral sei que teve.
Um trecho do texto da revista:
"O lançamento do livro assumiu aspecto de comício, com retrato de Carolina na fachada da livraria... E faixas com frases contidas no livro... Durante 5 horas, sem parar, Carolina autografou exemplares de seu 'Quarto de despejo'. Houve paralisação de tráfego, gente que quase foi aos sopapos na 'fila de autógrafos'. A certa altura, um cidadão teve um calo pisado e ameaçou quebrar a cara do pisador. Carolina parou um instante de escrever e comentou, bem alto: 'Nossa! Até parece que a gente está na favela!'..."
No estudo biográfico, é edição curiosa, principalmente no paralelo às últimas reportagens da revista sobre Carolina Maria de Jesus, que em sua época foi da ascensão meteórica ao ostracismo. Registre-se, considerada hoje uma das principais escritoras negras do país.
Texto da reportagem em