Espantos para uso diário -

    Mário Baggio

    Editora Coralina
    2019
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-13: 9786580360031
    Português Brasileiro

    As histórias deste volume têm raiz fincada no insignificante da vida, no comezinho da existência, nos personagens com quem se viaja anonimamente no transporte público ou com quem se divide o tempo de elevador, e sobre os quais pouco ou quase nada se pode dizer, mas que guardam um universo dentro de si, e por isso mesmo são grandiosos, basta que se aguce o olhar. Em nada diferem do que se lê diariamente nos jornais ou nas páginas da internet, ou do que acontece na rua, no bairro, na cidade em que se vive. O que falta é testemunhar tudo isso com… espanto. Não achar que seja “normal”.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover

    Similares (6)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    Resenhas (5)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos13/07/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Vivendo a distopia

    Há coisa de uns duzentos anos atrás, época que passou à história como o Iluminismo, o ser humano andou acreditando que a época das “Luzes”, se configuraria não tanto como um compacto sistema de doutrinas, mas como um movimento em cujas bases estaria a confiança na razão humana, cujo desenvolvimento seria a condição de progresso para a humanidade e de libertação dos vínculos cegos e absurdos da tradição, das raízes da ignorância, da superstição, do mito e da opressão. A lucidez de uma mente como a de Immanuel Kant (1724-1804) andou alertando que “o esclarecimento é a saída do homem do seu estado de menoridade” e, segundo ele ainda, seria um processo que consistiria na utilização da razão para que o homem possa se constituir como livre e dotado de uma vontade racional autônoma. É preciso lembrar, todavia, que essas questões não se iniciaram nem terminaram com Kant, atravessam toda a tradição da filosofia moderna, de Mendelssohn a Horkheimer, de Foucault a Habermas e tantos outros que se dedicam a pensar. Por seu lado, a narrativa literária é meio a partir do qual a humanidade pode pensar a si mesmo, e muitas vezes se antecipa à história propriamente dita. E assim, já em 1516, Thomas More imaginou a chegada do homem civilizado num paraíso natural que estaria localizado em uma ilha, e esta seria o lugar ideal para a construção da sociedade perfeita. Escreveu, então, sua maior obra: "Utopia", que passou a representar a síntese do sonho humano. Muito bem; se o século XVI pariu a ideia de utopia, o século XX engendrou a distopia. As utopias buscam a emancipação ao visualizar um mundo baseado em ideias novas. Sua confiança no futuro é o fundamento normativo que lhe garante eficácia ideológica. As distopias, por sua vez, buscam o assombro, ao acentuar tendências contemporâneas que ameaçam a liberdade. Se as narrativas distopicas, cujo alvo não é outro senão a experiência subjetiva diante das problemáticas que envolvem o sujeito a ética e o poder, claro está que elas nos fornecem elementos para pensar criticamente a contemporaneidade. Agora, em pleno início do século XXI as distopias ou as utopias negativas expressam o sentimento de impotência e desesperança do homem pós-moderno perdido num labirinto em que a tal da racionalidade converteu-se em instrumento: em vez de ser a condição de realização da promessa, passou a ser fim em si mesma, e de conluio com uma barbárie cada vez mais presente no tecido social. Metemos os pés pelas mãos. Eis o nosso imbróglio terrível. Mas ao colocar o futuro no registro do piorável, e não do melhorável como na utopia, as distopias podem ser confundidas como meras apologias da decadência. Não é de disso que trata alguma produção literária contemporânea. O pensador alemão Peter Sloterdijk, cunhou uma expressão que bem caracteriza o individualismo pós-social da contemporaneidade para descrever o que ele chama de niilismo pós-moderno e que abriga um tipo de homem que renuncia à continuidade por meio da procriação e da transmissão de heranças culturais, em nome de seus próprios privilégios, numa espiral de egoísmo e autossatisfação. “Espantos para uso diário” do escritor Mário Baggio nos apresenta, numa técnica que o autor vem trilhando de pequenos contos, uma legião de homens e mulheres e crianças e velhos e doidos e toda a macacada humana premida por sofrimento por cima de sofrimento. Difícil tentar enquadrar uma obra assim como uma distopia que esteja na linha de um futuro mais ou menos próximo. Melhor dizer, e o leitor poderá facilmente constatar, que os textos de Baggio, situam-se na plena vivência da distopia. Sobretudo se pensarmos que os textos se desenvolvem no presente – e no Brasil -, que todos nós bem conhecemos. Mais do que nunca vivenciamos a civilização que lança mão da barbárie para sua própria manutenção. Os textos reunidos fornecem elementos para pensarmos criticamente essa nossa contemporaneidade. Antes de ir adiante como umas coisinhas bem interessantes sobre esta obra específica do autor, permitam-me reproduzir pequeno trecho da resenha que escrevi em outubro de 2017, sobre outro livro dele - “ A mãe e o filho da mãe”: “É que as ficções que Mário vem produzindo, servem em boa medida de ampliação dos horizontes de expectativas porque estimulam o senso crítico do leitor e servem como espaço de reflexão por representar os conflitos humanos dentro da perspectiva macro em que a humanidade vai afundando.” Pois. Hoje estamos com os dois pezinhos na lama pútrida. Querem saber como? Em “Marcas”, assistimos ao depoimento de uma criança aterrorizada com a violência do pai contra a mãe e como essa mesma violência criou raízes no violento e imbecilizado narrador. Já em “Números vermelhos”, há o sutil desnudar da “psicologia de eterna crise” se instalando no imaginário coletivo de um modo que passamos a acreditar piamente que é sempre isto mesmo, e que não se pode dar solução. Ou por outras palavras, como se dá o conformismo e acomodação. Lemos em “Santa Helena” e “Numa esquina de Sampa”, metáforas de um Brasil que não deu, não dá, e não tem horizontes de que a curto ou médio prazo venha a dar certo. Enquanto isso matamo-nos uns aos outros via filiação de conveniência improvisada em “grupinhos antagônicos”. E ainda em “Você”, quase damos risada ante a miséria do próximo sempre ignorada com aquele nosso conhecido “jogo de cintura” de simplesmente virar a cara para o outro lado. Mas não é só. Vale apena comentar ainda: “Tiro na nuca” que é um retrato cruel do clima de chacina que vai se implantando, e se tornando banal, em nossa sociedade, e “A água desse rio vai dar no mar” continua, dentro desse mesmo clima. Retrata a reação que termina acontecendo, (já que não temos Estado que garanta a segurança do cidadão). É o vale-tudo da lei de Talião, do olho por olho, que retroalimenta desforras, muitas vezes contra inocentes. Em “Cheiro de peixe”, um fedor insuportável invade um apartamento para espanto da moradora. Em dado momento, e depois de tudo tentar para debelar aquela catinga, a personagem quase sufocada corre para a janela para tentar respirar ar puro. E se dá conta de que nos demais andares de seu prédio: “Todas nós tínhamos a boca aberta, como se quiséssemos colher mais ar do que o pulmão pudesse agüentar. Parecíamos peixes fora d’ água. Nos olhamos em silêncio e compreendemos. Não é preciso dizer palavra quando todas sentimos o mesmo cheiro de peixe podre dentro de casa.” Algo parecido acontece em “O pernil” no qual as pessoas terminam quase consumindo carne podre. Fica-nos a forte impressão de que estamos mesmo afundados numa podridão generalizada, quando lemos “Viver sob a força bruta” e “O roubo do sol” (esse um texto antológico), que tocam nessa grande ferida aberta hoje no Brasil e que se chama Política. E à propósito, vejamos ainda um outro texto. Segue a transcrição: “Hábito”. Depois de muitas décadas em cativeiro, decidiram nos libertar. Tiraram nossas ataduras, cordas, ferros e todas as coisas que nos mantinham imóveis e inertes: éramos livres, afinal. Saímos para as ruas, percorremos avenidas, becos, praças e parques, mas conservamos as correntes em nosso corpo como recordação dos velhos tempos. Uma questão de hábito apenas. Agora vamos aonde queremos, ninguém nos impede, mas, quando uma árvore aparece em nosso caminho, o hábito se impõe e, sem que percebamos, nos agrupamos ao redor do tronco e permanecemos ali, acorrentados, por uns minutos, talvez por umas horas. Talvez por toda a vida.” É um texto que vai ao âmago da questão. Não nos lembra alguma coisa muito conhecida? Não? Pensem novamente, e uma vez mais, e vejam se o buraco não é muito mais profundo do que nos ocuparmos somente com a iminência de um ministro terrivelmente evangélico ser indicado para o Supremo Tribunal Federal. Positivamente a prosa que o senhor Mário Sérgio Baggio segue urdindo em seus livros não é daquelas de intelectualidade retorcida, embora sua arte nada tenha de óbvio, e surpreenda pelas soluções encontradas, e pela linguagem sintética capaz de desenhar em curto espaço o contorno geral das historias sem menosprezar detalhes importantes. É direto, simples, sem psicologismos fáceis e com uma capacidade notável de transmitir essa coisa essencial, e dificílima de realizar, que é fazer-nos acompanhar com vivo interesse pessoas vivendo dentro do mundo estúpido que vamos construindo. Livro: “Espantos para uso diário” – Contos de Mário Baggio – Editora Coralina, Cachoeira do Sul – Rio Grande do Sul, 2019, 164 p. ISBN 978-65-80360-03-1 Link para compra e pronto envio: https://www.editoracoralina.com.br/livro/espantos-para-uso-diario/

    42 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 9
    • 5 estrelas56%
    • 4 estrelas22%
    • 3 estrelas22%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%