Acordo na chuvosa manhã de domingo para a costumeira labuta da crítica literária. Uma dor de cabeça leve se acentua quando recordo que o noticiário da noite anterior nos deu conta do rosário de patifarias que assolam o país. É dono de frigorífico distribuindo propina, é presidente da república e ex-presidente acusados de corrupção e formação de quadrilha, é ministro de estado guardando montanhas de dinheiro dentro de apartamento clandestino. A corrupção sistêmica revelada por mil e um 'delatores patriotas’ a acusar vereadores e deputados, prefeitos e governadores, não poupa sequer ministros de estado e atinge em cheio o topo. A presidência da república. Em meio a essa epidemia de rumores o desemprego devastador segue tomando corpo, e a sociedade perplexa afunda na violência descontrolada em meio a tantas e tamanhas notícias. Verdades(?) / mentiras (?). Já não sabemos mais no que acreditar. O país virou uma baderna geral onde a contravenção e o gangsterismo tornaram-se partes estruturais da sociedade.
Olho a pilha dos livros a ler e sinto uma letargia. Desanimo... Os olhos passeiam pelos títulos até que vão dar na lombada de um pequeno livro que se destaca dos demais pelo tamanho reduzido e pela cor vermelha da capa: “Dicionário de pequenas solidões” de Ronaldo Cagiano, nome conhecido na literatura nacional, um forte atrativo. Retiro-o da pilha e observo um pequeno elástico que há na capa para fechamento do volume, leio o fragmento de texto reproduzido na contracapa assinado por Ignácio de Loyola Brandão. A curiosidade se aguça, mas não o suficiente... Volto a pensar com tristeza nos dias que estamos a viver. Abro o volume ao leu da sorte e leio trecho “Ah, a vida passa e deixa lembranças, cravadas nas entranhas, coisas que um dia a gente pensa que esqueceu, mas que a memória regurgita, com um fluxo intenso, estranho, e nesses momentos passam com uma velocidade insuportável”. Fecho o livro; positivamente hoje não sai resenha. Sinto-me como Miguel de Cervantes que se lembrou de escrever: “Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!”.
E vou daqui para ali nas recordações a lembrar do filósofo Gilles Deleuze a quem citei em alguma resenha recentemente. Afirma ele em post-scritum sobre a sociedade de controle: “...o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com frequência à periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas do têxtil, da metalurgia ou do petróleo. É um capitalismo de sobre-produção. Não compra mais matéria-prima e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa”. Acrescenta mais: “ O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas”. O filósofo francês arrisca conclusões: “O que conta é que estamos no início de alguma coisa”. E essa “alguma coisa é “a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação”. Afasto o texto de Delleuze e lanço mão de outro, esse de Edu Teruki Otsuka ( profº de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo) - “Sequências brasileiras, ruptura mundial” -, no qual chama a atenção para a crítica de Roberto Schwarz, em particular a discussão de traços contemporâneos do capitalismo e seus efeitos no Brasil:
“Quando, em 1999, Schwarz publicou Sequências brasileiras, o que o título ressaltava naquele notável conjunto de ensaios era a permanência da estrutura brasileira de iniquidades e suas inumeráveis consequências destrutivas”... “Junto à permanência dos tradicionais problemas irresolvidos da sociedade brasileira que, como não podia deixar de ser, se manifestavam na vida cultural, os ensaios do livro apontavam a percepção de uma ruptura histórica, em plano mundial, cujos efeitos desacreditavam perspectivas animadoras sobre o futuro. Contra a euforia a que a chamada globalização incitava naqueles que queriam se iludir, Schwarz buscava descrever as condições do presente, refletir sobre o sentido do país inconcluso e atentar para os perigos que o novo quadro estava anunciando”... “um país que, no desenlace do ciclo modernizador, continuava inconfundível, mas trazia sinais inequívocos de uma desagregação em andamento acelerado”... “Diante da tendência histórica que então se discernia, apontando para a reprodução ou o aumento de desemprego, trabalho informal, tráfico de drogas, criminalidade, violência e fanatismos, tudo sobre o fundo inexpugnável da mercantilização e do consumo, Schwarz se voltava para a crítica dos projetos modernizadores malogrados no país, em particular o nacional-desenvolvimentismo, cujo ciclo se encerrara deixando um rastro de construções em ruínas”.
Positivamente hoje não consigo pensar, vou relendo fragmentos com o fito de inspirar-me e quem sabe, escrever e encorpar uma resenha. E minha pobre alma de cidadão brasileiro decepcionado vai se valendo de “verbetes” daqueles que costumam pensar sobre o processo histórico sem deixar de lado o conhecimento fornecido pelas formas artísticas.
Afinal um lampejo de energia me estimula a iniciar a leitura do pequeno livro, que de conto a conto, ou de verbete em verbete, afasta-me da inércia mental. Editado pela Língua Geral do escritor Angolano José Eduardo Agualusa, “Dicionário de pequenas solidões” é obra publicada em 2006, portanto há cerca de 11 anos. Os 14 contos reunidos no volume são éditos, ou seja, já haviam figurado em dois outros livros do autor, publicados entre os anos de 2001 e 2004. É livro de poucas páginas (136), mas desde o primeiro texto, vai crescendo com ficções a transbordar significados semiocultos e impressões duradouras. Aquilo de que falou o escritor argentino Ricardo Piglia em suas famosas teses: o conto sempre conta duas histórias. A narrativa em primeiro plano conta uma história ao tempo em que constrói em segredo uma segunda. É então que a arte do contista se manifesta ao cifrar a segunda história, o que subjaz à narrativa justamente nos interstícios do texto. Piglia salienta que o “secreto” no desenvolvimento do conto não é propriamente um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é senão uma história que se conta de modo enigmático. A estratégia está posta a serviço dessa narrativa cifrada. E o contista, trabalha a tensão entre essas duas histórias. É o que Cagiano logra fazer com perícia, já em “O abuso”, primeira narrativa, que recobra o trauma intenso que perdura por toda a vida (e em boa medida define rumos existenciais), daqueles que sofrem a violação de sua sexualidade.
Outra preocupação do autor é o tema da exploração das mulheres. Personagens que transitam em atmosferas de repressão sexual e códigos morais hipócritas como acontece em “No último Natal do milênio”. A triste história de Madalena Pécora – uma prostituta, ou ainda em “Solidão”, um conto extremamente bem realizado sobre a prostituição abordada como um dos piores exílios a que se pode condenar um ser humano, já que 'compra-se' a vontade própria. Observe-se este trecho da pungente solitude humana de uma prostituta: “Rosália quedou sem reagir, inerme, aviltada, reunindo todas as suas solidões de alcova, as solidões da multidão que a execrava, a inquietante solidão de nenhum amor eterno, de feridas abertas, de espantos diante da realidade do mundo. Nesse vagar-corpos e silêncios interiores. Rosália encontrou-se. Mas não sabia que seria numa noite maior, lúgubre e irreparável, que sua noite interior seria absorvida pela noite tenebrosa das águas de aluvião. E dela, absolvida, para sempre. Sem nenhuma estrela como testemunha”.
As narrativas de Cagiano têm uma característica muito peculiar que se demarca por um equilíbrio entre ação e reflexão, seres que se formam no escoamento de seus sentimentos e emoções num fluxo de ideias e pensamentos, há sempre um olhar cuidadoso sobre as angústias existenciais dos personagens que leva o leitor a instâncias inesperadas. E então deparamo-nos aqui, com o sujeito desterritorializado que retorna à terra natal para o enterro do pai, no conto “A marca”. Em outro momento ficcional , o relato de um assassinato, preciso recorte dos extremos da torpeza humana – conto Dies Irae.
Vamos topando com diversas gradações das solidões humanas como acontece em “Pavlov”, que é o nome de um cachorro a viver com a solitária Bratislava uma pessoa que parece ter enlouquecido ante a solidão em que encarcerou a sua própria existência. Sofre e reflete o leitor ao ler um conto como “Golpe de misericórdia” em que a solidão profunda degenera em depressão e acaba por desaguar em suicídio. São criaturas atormentadas de um mundo mergulhado no caos e na violência a níveis insuportáveis, onde o ser nada mais é do que parte de um rebanho de consumidores, sem referenciais que o oriente quer familiares, culturais, religiosos... O humano completamente desvalorizado seja no âmbito das relações pessoais seja no âmbito das relações sociais.
Dois textos deste livro merecem algumas considerações mais detidas por enquadrarem a nossa condição político-social. Trata-se de “Figaro” e “Todas as estações”. Mas antes lancemos mão mais uma vez, do já citado “Sequências brasileiras, ruptura mundial” onde o autor analisa alguns aspectos da crítica de Roberto Schwarz: “No Brasil, observava-se, desde a abertura econômica iniciada na era Collor – e levada a cabo nos governos posteriores – diferenças significativas em relação ao período desenvolvimentista que se encerrara. No ciclo anterior, era sobretudo a industrialização, com suas inúmeras consequências diretas ou indiretas, que sustentava a imaginação nacional e a hipótese de superação da inorganicidade do país, na medida em que ao desenvolvimento industrial se associava a expectativa de integrar a população por meio da generalização do trabalho assalariado e do acesso a alguns direitos. Assim, a atividade econômica fundada no desenvolvimento industrial dava lastro aos projetos de nação, os quais mobilizaram a vida mental e a atuação política – incluindo-se aí o momento maior de radicalização (entre o fim dos anos 1950 e início dos de 1960) e seu amálgama populista de setores progressistas da elite, trabalhadores organizados, intelectuais e estudantes de esquerda, cujos limites foram postos a nu, na iminência da explosão da luta de classes, pelo golpe de 1964. No período de atualização capitalista iniciado nos anos 1990, tendo ao fundo a mundialização do mercado, passaram a predominar novos tipos de atividade econômica que não mais se articulam a projetos coletivos de sociedade integrada – pois implicam precisamente a desconstrução da relação salarial (com terceirização, precarização, flexibilização) e a informalização do trabalho –, firmando-se, assim, o divórcio entre economia e nação. O desaparecimento de hipóteses superadoras na vida ideológica, nacional e mundial, ligava-se, pois, a mudanças no regime de acumulação, que também passaram a se manifestar no Brasil. Assim também a necessidade de se efetivar uma crítica especificada das ilusões nacionais, em lugar de seu puro e simples abandono induzido pelo mito da aldeia global, que ofusca o discernimento da referência nacional e a apreensão da experiência social local em que se manifestam as velhas e novas cisões produzidas pela dinâmica do capitalismo” … “A irracionalidade e a destrutividade do capitalismo estão aí, visibilíssimas na crise e no despropósito da mercantilização total”. A leitura e reflexão sobre um texto assim nos leva a uma visada nesse nosso fatídico ano de 2017, onde há muitos inocentes – como sempre é conveniente para alguns -, a acreditar piamente que o único caminho da sociedade brasileira em meio a esta balbúrdia presente é a Judicialização .
Vamos adiante; o conto “Figaro” é o relato memorialístico do filho de um barbeiro, criança pobre que cresce debaixo de toda dificuldade para sobreviver Veja-se o paralelo que a então criança faz ao perceber o mundo dividido em comunismo e capitalismo. Do mundo do que diziam ser o lado de lá, e do lado de cá onde a “redentora” (Como passou à história a revolução militar de 1964), terminou por manter as tremendas desigualdades históricas no país onde ele crescia.
“Um cartaz velho, surrado, com as letras desbotadas (propaganda escrachada da 'Redentora') cobria a parede em frente ao grande espelho que servia às quatro cadeiras do salão – 'Comunismo – opressão e incerteza' – e ele fitava intrigado aquela imagem feroz dos tanques atravessando a praça lúgubre e enfumaçada como uma fruta atingida por um estilingue: um cenário obscuro de uma cidade com aparência outonal e solitária (seria Praga? Varsóvia? Bucareste? Leningrado? - o mais longe que o garoto tinha ido era a Juiz de fora) e não havia perguntas, só aquela cena arrogante e estática ferindo o brilho nos seus olhos e as notícias que chegavam truncadas do outro lado do mundo, e dentro do seu próprio, havia pomares de discórdia. Gostava daquela foto, do que ela queria dizer e não dizer em suas letras que tinham um verniz desolador como a imagem que falava além de todas as fronteiras, como as palavras que não estão nos dicionários, mas saem das pedras, dos rios, do olhar do cão morto à beira da estrada, da prostituta em sua solidão carcerária, do concreto bulício da vida urbana, com suas roldanas de engano corrompendo os homens com alucinação e retórica.” Mais adiante no mesmo conto, quando é narrado o desejo de ascensão social daquele mesmo jovem, que paradoxalmente anseia/rejeita fazer concurso público para o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal, fica-nos a sensação de que o texto foi escrito hoje. Voltamos a lembrar: este conto foi escrito lá pelos idos do ano de 2004, portanto há 13 anos.
“,,, idólatras de uma ocupação que nesses tempos neoliberais transformou-se em categoria de terceira [os bancários/funcionários públicos], com um caixa, um chefe de serviço, um gerente ou outra babaquice funcional qualquer valendo menos que um vendedor de cachorro-quente em porta de faculdade. O que era sonho dos pais para seus filhos, transformou-se em atividade repudiada e... , salve o Consenso de Washington, o subemprego, a proliferação das vans, os medicamentos genéricos, a disseminação do caos, os camaleões do PT, a quadratura do ó, o Viagra, a prisão de Fernandinho Beira-mar, o...”
Já “todas as estações”, narra vidas que se entrecruzam nos trilhos do metrô de Brasília. Quando o trem chega à Estação de Águas Claras a voz do narrador-autor reflete:
“Isso aqui virou uma cidade. O plano Piloto já não comporta mais a classe média, que se vê obrigada a optar pelos condomínios irregulares ou por essas cidades planejadas que vão surgindo. A capital do Brasil inchou e vai cuspindo sua gente. O cinturão verde da pátria não há mais. Está acorrentada pela miséria que a circunda. Gente que chega todo dia, se espalha pelas invasões, que viram assentamentos, que viram cidades, que viram o quê? – territórios sem água, sem esgoto, sem asfalto e sem lei. Conglomerados de frustrações acumuladas, res nullius, res delelicta, [expressão latina, "coisa sem dono" ou "coisa de ninguém"]
‘Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino’
Juscelino estava falando de quê?
Da utopia irrealizável, do que foi pensado e sonhado e do que fizeram do sonho. A cidade que sacudiu o gigante adormecido não deu respostas às utopias dos que a ergueram. Quem fez a cidade está ao largo. Os que não, os que se aproveitaram estão no Lago.
Torrentes de palavrões se sucedem na boca de um bêbado que circunvizinhava a estação, trocentos pensamentos inconclusos”.
O mérito intrínseco dos textos de Ronaldo Cagiano não se deve somente ao que representam por conta de um possível aspecto inusitado dos excluídos que agora assumem um lugar do discurso, mas também, e sobretudo, pela importância daqueles contos inseridos na realidade de seu próprio tempo, suscitando questionamentos e sugerindo formas de enfrentamento e superação da desigualdade abissal que permeia a sociedade brasileira; escrita de vital importância ao entendimento do tempo em que vivemos. Cabe citar ainda dois pequenos trechos do conto “Horizonte de espantos”, o primeiro, flagrante notável de consciência existencial.
“... e o caixão baixando à sepultura igual em todos os enterros, e todos saindo sob um céu onde o crepúsculo selvagem despeja suas línguas de fogo, e a gente não sabendo direito o que está acontecendo, senão o arbítrio de leis irrecorríveis da natureza decretando a falência da carne e outra pátria para o espírito.”
E o segundo trecho: “Ah, a vida passa e deixa lembranças, cravadas nas entranhas, coisas que um dia a gente pensa que esqueceu, mas que a memória regurgita, com um fluxo intenso, estranho, e nesses momentos passam com uma velocidade insuportável, como se a gente olhasse ao fundo, na linha do horizonte, e o crepúsculo restaurando essa película perdida, e nesse horizonte de espantos a gente vai se reconstruindo com uma mistura indelével de saudade, alegria e tristeza”.
Ao cabo da leitura daqueles contos do pequeno livro de Ronaldo Cagiano algo me instiga, me encoraja e estimula numa “mistura indelével de saudade, alegria e tristeza”, (que assim mesmo é a vida), para escrever esta resenha muito pessoal, manchada que seja, com arremedos de crítica dialética.
Ainda invocando Ricardo Piglia, identificamos nas ficções de Cagiano a reprodução, sempre renovada (ainda que trate de um mesmo tema), de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. “A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato”, dizia Rimbaud. Essa iluminação profana é também a forma do conto praticada por Ronaldo Cagiano – assim nos pareceu - que visa uma dialética entre a forma literária e a forma social. E dito isto resta acrescentar que raramente encontarmos no Brasil livros que alcançam mais de uma edição. Quando ocorre, por vezes se imprime a nota: “Edição revista e atualizada”. Esse “Dicionário de pequenas solidões” pelas razões apontadas, e outras ventiladas nesse infeliz presente de 2017 - e que certos contos intuíram com vigor no passado de 2001-2004-, está a pedir uma segunda edição que seria imensamente enriquecida se ampliada com outros textos do ficcionista. Alô amigo Eduardo Agualusa da Editora Língua Geral. Alô alô editores deste Brasil!
Salvador, Bahia, 17/09/2017.
P.S. Segundo Maria Analice P. da Silva, in: UMA DISCUSSÃO SOBRE O MÉTODO DIALÉTICO - Graphos João Pessoa, Vol 7., N. 2/1, 2005: “No início dos anos 70, Antonio Candido insurge na crítica literária brasileira uma “nova” perspectiva de análise-crítica, que visa pensar o texto ficcional enquanto formalização estética do contexto social. Esse método já vinha sendo amadurecido desde os primeiros estudos do crítico mineiro e adquirido maior contundência no famoso Literatura e sociedade, em que Candido destina um capítulo – “Crítica e Sociologia” – à apresentação de um panorama, que remete ao século XIX, passa pelos formalistas, e desemboca na perspectiva de viés dialético. No século XIX, os estudiosos de literatura deram importância em demasia ao conteúdo da obra, ao seu condicionamento social, ao aspecto de realidade que ela exprimisse. No início do século XX, chegou-se à posição de que a importância da obra deriva das operações formais. Nos anos 60, chega-se à conclusão de que as duas visões não podem estar dissociadas e que se deve estudar o texto ficcional fundindo-o com o contexto numa interpretação dialética. Para Roberto Schwarz, no ensaio de Antonio Candido há uma superação da incompatibilidade entre os estudos chamados interno e externo da obra de ficção. Dessa forma, a crítica moderna superou, não a orientação sociológica, mas o sociologismo crítico”.
Livro: Dicionário de pequenas solidões – contos, de Ronaldo Cagiano. Editora Língua Geral – Rio de Janeiro , 2006 – Coleção Ponta-de-lança, 136 p. O volume foi impresso em Formato pocket 13 x 18 cm.
ISBN 85-60160-00-0