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    As Dez Marias -

    Viviane Ferreira Santiago

    Patuá
    2019
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9788582977859
    Português Brasileiro
    4.8
    10 avaliações
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    Favoritos1Desejados4Avaliaram10

    O argumento para a composição da obra é inusitado a uma primeira vista, já que surge quase como um diário no qual a narradora propõe-se a confidenciar suas dores e tristezas. Mas ela não se contenta em apenas lamentar. Essa Maria quer empoderar suas irmãs, quer ofertar à posteridade o protagonismo roubado desde sempre. Como diria Marielle: vai além. Recria nove Marias, cada uma com uma história pessoal própria, com suas aventuras e caminhadas. Personagens meio imaginárias, retiradas das páginas da história não oficial (já que esta é reiteradamente escrita por homens), mas "Existe um lugar onde todas se encontram. Infelizmente, esse lugar chama-se dor."

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    Alexandre Kovacs22/03/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias

    Editora Patuá - 200 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019. O livro de Viviane Ferreira Santiago apresenta uma estrutura com características de romance histórico, novela e conto, mas não pode ser enquadrado em nenhuma dessas categorias. A narrativa principal é conduzida em formato de diário e cartas por Maria Leopoldina da Áustria, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826, aos 29 anos. Múltiplas narrativas são Intercaladas, também em primeira pessoa, a partir de outras nove Marias, brasileiras de diferentes épocas, nem sempre famosas, mas todas compartilhando a mesma dor de sobreviver em uma sociedade injusta e patriarcal. Se, por um lado, Maria Leopoldina foi considerada por historiadores como articuladora do processo de Independência do Brasil, por outro, tinha a postura submissa, imposta às mulheres do seu tempo; ela foi forçada a conviver com uma das inúmeras amantes de D. Pedro, Domitila de Castro, a Marquesa de Santos — título que lhe foi conferido pelo próprio imperador e, em sua útima carta à irmã, descrevia com pesar a sua humilhação na corte do Brasil devido ao sofrimento imposto por "amor de um monstro sedutor" que a relegava a um estado de esquecimento e escravidão, enquanto todas as atenções eram destinadas à sua rival. "Às mulheres jamais são dadas muitas opções. Na verdade, somente duas nos são impugnadas quando os seios crescem: seja santa ou seja puta. Os homens se casam com as santas e pensam incansavelmente nas outras. / Pedro me tem, mas em sumo sentimento desejaria trazer para nossa cama, ela, a devassa. Enquanto isso, a devassa tem a Pedro, por mais vezes que eu mesma, em mais partes, em mais espaços, e ainda assim nunca é o suficiente. [...] Gostaria de ser mais que uma esposa frágil, apaixonada e traída. Mas meu papel na história não foi escrito por mim. Mãos delicadas demais para uma mente como essa que me foi dada. [...] Antes, muito antes... Ser puta, e tê-lo. Antes, muito antes... Ser fraca e não amá-lo. Pois somente uma mulher de extrema força é capaz de amar como o amo." Trechos de Maria Leopoldina (pp. 25-27) Não poderia faltar neste livro a história de Maria da Penha Maia Fernandes, vitima de duas tentativas de assassinato pelo marido. Na primeira, levou um tiro (em simulação de assalto) que a deixou paraplégica e, na segunda, foi eletrocutada enquanto tomava banho. A divulgação do caso nos anos oitenta chegou até a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e foi considerado, pela primeira vez na história, um crime de violência doméstica, culminando com a Lei Maria da Penha. "Eu, mulher de 38 anos, graduada com três especializações, casada com um economista, professor universitário, mãe de três meninas. Deitada sobre a poça da minha vida, que escorria, escorria. Corria de mim. / No início, achei que estava tendo uma hemorragia interna; o rompimento de um órgão poderia ter causado aquilo. / A não ser por Otaviano permanecer inerte em minha frente, espingarda na mão, olhar frio, aguardando que a vida não resistisse. / Meu marido, meu agressor, meu assassino. [...] No ano de 2006, foi sancionada a Lei nº 11.340, intitulada Lei Maria da Penha, que segue como dispositivo legal na tentativa de aumentar o rigor das condenações sobre crimes domésticos. Ela é usada contra os homens que agridem psicologicamente ou fisicamente uma mulher." Trechos de Maria da Penha (pp. 59-71) Também está presente uma corajosa mulher que "era para ser Maria, mas se fez Marielle Franco", defensora do feminismo e direitos humanos, denunciou casos de abuso de autoridade de policiais contra moradores de comunidades no Rio de Janeiro, tendo sido executada com três tiros na cabeça e um no pescoço em 14 de março de 2018, quando também foi assassinado Anderson Pedro Mathias Gomes, motorista do veículo em que se encontrava. O crime permanece sem solução até hoje. Afinal, quem mandou matar Marielle Franco? "Aqui no Complexo da Maré, a gente cresce bem cedo e rápido. Se fizer hora demais fica para trás, não alcança quem tá lá na frente, porque já nasce assim, com uma faixa translúcida que te amarra no ponto de partida. / Eu nasci preta e pobre, e me amei assim. [...] Trabalhei muito e estudei noites incontáveis para, em 2002, entrar para a faculdade de Ciências Sociais. Foi nela que me encontrei. / Ir além... Foi isso que aprendi com mamãe quando criança, "Filha, quando você chegar no seu objetivo, continue andando, vá além... [...] Tive em vida um lema, uma missão árdua que me custou tudo que tinha, e ele perpetua as que desejam ir além, assim como fui: 'Lugar de mulher, é onde ela quiser'. E o meu, agora, é na história." Trechos de Marielle Franco (pp. 119-123) Ao abordar, em uma mesma obra de literatura, personagens inspirados em fatos históricos e pessoas reais tão diferentes quanto Maria Leopoldina e Marielle Franco, a autora apresenta um importante painel sobre a experiência de ser mulher em dois séculos de história brasileira, assim como os desafios que ainda precisam ser superados para vivermos em uma sociedade menos desigual e, portanto, mais justa para homens e mulheres. Sobre a autora: Viviane Ferreira Santiago nasceu em Belo Horizonte MG e mora em São Paulo há 25 anos. É jornalista, pós-graduada em Literatura Brasileira, graduanda em Letras. Seu primeiro livro de contos, A Linha Amarela do Metrô, recebeu a bolsa PROAC 2017, da Secretaria da Cultura e Governo do Estado de São Paulo para publicação.

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    Viviane Ferreira Santiago

    Viviane Ferreira Santiago nasceu em Belo Horizonte MG e mora em São Paulo há 25 anos. É jornalista, pós-graduada em Literatura Brasileira, graduanda em Letras. Encontrou na literatura a ferramenta necessária para submergir de uma caótica realidade periférica, assim, tem alçado voo e conquistado espaço na escrita contemporânea. Seu primeiro livro de contos, A Linha Amarela do Metrô, recebeu a bolsa PROAC 2017, da Secretaria da Cultura e Governo do Estado de São Paulo para publicação. Seu livro As Dez Marias recebeu em 2018 a premiação inédita, do então, Ministério da Cultura, para publicação de livros com temática aos 200 anos da independência do Brasil, sendo assim agraciado por sua qualidade literária.

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    Minas Gerais, Brasil

    Viviane Ferreira Santiago