O Pároco de Aldeia / O Galego -

    Alexandre Herculano

    Bertrand
    1960
    222 páginas
    7h 24m
    ISBN-10: 1373974877
    Português

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Gabalis picture
    Gabalis12/01/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Recordar-se - consolar-se

    O pároco de Aldeia, escrito por Alexandre Herculano em 1843, é uma meditação atrelada a um conto ilustrativo sobre as limitações, pretensões e hipocrisias das ciências como utopia para o homem moderno, o protestantismo que se pretende um cristianismo puro, e todas as forças culturais que buscam despojar a tradição das aldeias portuguesas no seu tempo. A cada curva, Alexandre Herculano nos apresenta uma imagem curiosa e muitas vezes hilária para ilustrar seus pontos, como essa do fuão moderno que se acredita um libertador do povo, mas na verdade não passa de um libertino guloso e sem a menor auto-consciência: “em aposento bem resguardado, no fim de ceia opípara, entre as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuárias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum famoso espírito forte cerzia remendos das páginas soporíferas de Holbach ou de Diderot e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoísmo e cobiça do clero, ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz, de nada mais precisa do que abandonar as crenças do cristianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto único da sua vida de miséria, de trabalho e de amargura. E, naturalmente, os neófitos daquela triste filosofia extasiavam-se em redor do sábio filantropo, que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos e de grossa ciência, só lamentava a ignorância daqueles a quem muitas vezes faltava então, falta hoje e faltará no futuro um bocado de pão negro para matar a fome” Essas críticas recebem suas ilustrações da história de um pároco da aldeia e seu plano para realizar um casamento entre dois jovens amantes. Herculano narra essa história como uma memória dos seus tempos de criança e a realiza num tom muito aprazível e caloroso, como que para consolar-se ele mesmo do estado moderno do clima cultural que encontrava na velhice. Como ele mesmo diz “recordar-se - consolar -se”. A aldeia e os saloios, portanto, ganham cor muito viva e de compadecimento na narrativa, sempre demonstrando sua superioridade moral, se por mais nada, por suas ingenuidades e certezas milenares. Herculano, fica claro, não via nas ideias modernas vantagem alguma sobre as tradicionais, tendo ele mesmo experimentado ambas. Sabemos que ele mudou-se para uma quinta no interior em sua velhice, como que para fugir do descalabro das ideias novas. Diga o que diga Alexandre Herculano no seu texto, o que interessa muito é como ele diz. O escritor dispõe de um léxico vasto e ele melhor do que ninguém consegue criar cenas absolutamente hilárias com palavras sisudas, o que é sempre uma coisa interessante de se ler. Sua descrição da aldeia e das pessoas também são dignas de serem grifadas e copiadas. Cito apenas duas para não ocupar muito espaço, mas a narrativa toda contém pérolas do que é capaz a língua portuguesa; “o motim dos sinos crescera a ponto que só os defuntos do cemitério poderiam ficar indiferentes a tão retumbantes belezas musicais.” “E para isso não lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era o dia do orago da aldeia e teve mão em si. Só lá perguntava aos seus botões qual seria a causa deste destempero e doidice. Como havia ele de atinar, se tinha o costume de esquecer-se do bem que fazia, porque, sendo fraco de memória, reservava-a toda para o bem que recebia?”

    2 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 1
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas100%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%