The Shadow of the Torturer (The Book of the New Sun #1) -

    Gene Wolfe

    Simon & Schuster
    1980
    262 páginas
    8h 44m
    ISBN-13: 9780671253257

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    Vitor Crespo18/05/2026Resenhou um livro

    Na falta de palavras

    E se existisse um mundo senão o sono habitado por criaturas, que, se gestadas por ventre humano de um vizinho hodierno, seriam nada mais que aberrações — por divergências físicas, genéticas! ou sociais — mas, que são indubitavelmente como nós pelo simples fato da geração: o são como somos nós em relação aos distantes que andaram estas terras em nomes alienígenas de reinos divinados pela própria idade e devido ao passar do tempo, arruinados como suas eras no ventre da existência. Nessa Terra do futuro, aonde a cauda de Ouroboros já fora deglutida, digerida e encarnada, o cordão umbilical da humanidade liga-se frágil a essa sociedade que se ergue dos depósitos e restos do que já foi, em uma paisagem tão sinistra e macabra como é sonhadora e fértil. É um mundo de signos, de sombras de um significado maior que se convertem e sublimam incessantes por regras que são completamente estranhas ao leitor: nada se parece com o que temos ou sabemos mesmo que se passe no futuro de nosso presente; é até aqui que mora a primeira simpatia com Sevarian, o protagonista, que parece, também, tão alheio a como esse mundo realmente funciona. Num mundo onde a magia é combustível para terríveis pesadelos, vivem criaturas e cenários fantásticos nascidas da causa humana: animais modificados, pessoas de raças tão distintas como se de uma nova espécie nascesse os humanos desses dias, castelos feitos de restos da viagem espacial — mesmo que aqui more exclusivamente a terrena sensação de uma vida baixa e miserável. A constante sobreposição de verdades conhecidas — como a filosofia — com fatos-quimeras, observando oniscientes a carne daqueles que se dissolvem nessa terra tão nossa, e tão diferente. É um relato, um ensaio, sobre o que é real além da experiência, uma fábula de significados, aonde debatem e lutam, nas mais altas esferas, o que significa, o que é significado e o que é significante para o leitor. Aonde o fantástico tem duas cabeças: o mundo externo e o interno. A sociedade, arquitetura, moda, armamentos, empregos, verdades e mentiras orbitam um soberano distante — o Autarca —, que governa, como tudo nesse mundo, de forma tão misteriosa e imagética, mesmo que ele, e tudo que o que lhe é relativo, carregue melancolia, severidade e um ar de oculto muito mais intenso que o resto do mundo: das guildas, às castas, e as tão insuperáveis diferenças deste mundo — Tudo é lúdico e uma leitura imediata é, aqui, mais do que em qualquer lugar, incabível, como se apenas uma mosca no oceano o pretendesse sorver. A segunda cabeça é o fantástico interno, que consegue fazer com que nessa paisagem tão indigesta, as filosofias e pensamentos do protagonista sejam o ponto principal de toda a leitura, a semente que fertiliza toda essa criação com suas análises e comentários tão integrantes da narrativa. É digno de muito mais análises, mas que preguiça.

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